sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Trabalho e docência


Afinal de contas, em que consiste o trabalho de um docente na esfera estatal?
Temos de dizer que somos contratados pelo Estado, não é exatamente uma instituição pública, no sentido do controle público, mas no sentido de um controle estatal em que a sociedade, de alguma forma, acredita que o Estado tem a delegação para cumprir.
Por outro lado, os mecanismos de controle do trabalho em parte diferem das instâncias privadas, mas, de maneira geral são parecidas às formas com que os trabalhadores são coercitivamente conduzidos para objetivamente cumprirem com as metas da produção – ressalvando o fato de que cumprirão até o momento em que permanecerão rentáveis, ou seja, técnica, tecnológica e mercadologicamente conforme os interesses de produção, competição e venda.
O processo burocrático é a grande investidura do trabalho docente no âmbito da esfera estatal.
Como uma grande empresa, o Estado é o maior contratador do país, mas por várias razões, o planejamento estatal para com ele mesmo é sempre um problema confuso. Como programar uma empresa que tem como função estabelecer a dita “justiça social” por meio de uma sociedade civil que se empenha para a sua própria autodestruição com as relações de mercado e alienadas?
Todos acusamos o Estado de ser uma entidade gigantesca e sem possibilidade de individualização, mesmo assim a sua indiferença perante o trabalho é uma espécie de abstração que não se sustenta a não ser por conta das leis de mercado.
Em última instância, mesmo que o Estado brasileiro seja o braço de sustentação do capital em todas as suas nuances, e que sua presença é ostensiva, sua determinação na relação com os seus empregados obedece cegamente às leis de mercado.
Isto nos revela que os indicadores da economia nada mais são do que balizadores dos mecanismos da relação de trabalho assalariado, portanto, o Estado não é capaz de avançar e de propor qualquer superação, disso estamos concordantes.
E como trabalhadores temos um duplo caráter, de um lado somos trabalhadores como quaisquer que estejam lançados pela mão invisível do sistema e de outro, somos o próprio Estado. Isso demonstra as contradições em que estamos metidos.
As velhas formas institucionais que regulam o trabalho estatal estão com os dias contados. Isto quer dizer que a estrutura patrimonialista da sociedade brasileira, que também deitou raízes no serviço público e no Estado não se sustentarão por muito tempo, dadas as condições em que a economia setorializada imporá a todos novas formas de gestão para apurar os ganhos e gastos numa balança de equilíbrio econômico-financeiro.
Dessa forma, a universidade, na qual muitos ainda depositam as esperanças iluministas de uma formação humana ampla, em que sejam os alunos preparados para superarem problemas, é uma ilusão de ótica. Talvez nossa visão míope, não nos deixar observar o que a História tem mostrado sobejamente de modo a nos convencer de que estamos diante de uma universidade que sucumbe de modo atroz às condições de mercado.
Na defensiva desde o começo do século passado, os trabalhadores não foram capazes, em âmbito global, de oferecer alternativas, a não ser as de manterem-se na defesa diante de um sistema absurdo. E por isso, fomos historicamente convencidos de que dependemos do capital, mas exatamente o contrário, é o capital que depende exclusiva e peremptoriamente do trabalho e do trabalhador.
E os partidos trabalhistas em todo o mundo nada mais fizeram do que administrarem, a partir do lento mas gradativo distanciamento de suas bases, hoje, ironicamente, nada mais são do que tentativas de gestores do capital e sua crise. As elites parece terem percebido que seria mais cômodo delegar aos trabalhistas do mundo todo a gerência de um modelo que está em crise há tempos.
Essa greve nos ensina muitas coisas. Deve nos mostrar que temos, novamente, um longo caminho de reflexão sobre o contexto total das relações engendradas pelo processo de produção de valor.
Mesmo assim, sinto que é promissora toda a experiência. É promissora porque há um grupo que se colocou no processo, apesar de todas as dificuldades que emergiram durante esses meses. E acredito mesmo que temos ainda energia para continuarmos com o movimento porque é preciso. A greve está aí e não podemos nos deixar levar por informações desencontradas.

sábado, 7 de abril de 2012

Capitalismo e Caretice

Se estamos pensando que vamos derrubar o capitalismo com esse comportamento careta, pastoso e sem espírito, estamos redondamente enganados. A nossa forma social em que parece haver uma espécie de permissividade que a tudo corrompe é uma grande falácia. Somos extremamente regressivos, chatos, pedantes, consumidores por excelência, conservadores que desejam manter as relações sob certos padrões ambientados, obedientes a uma estrutura apoteótica que nos subsume. E o pior é que esta subsunção ainda nos dá prazer e uma suposta dignidade.
 
Nossos corpos tatuados não são exatamente uma ordem à revolução corporal. A diversidade cultural garante mais e mais a nossa estimulante condição de direitos à mediocridade. Nossas profissões compulsórias não nos permitem um voo para além e acima das formações sociais que nos oprimem. 
Até o consumo das drogas nada mais é que um reflexo da ação cega e indivisível da sociedade que produz o valor e o autovaloriza ao infinito.
 
Imaginar que uma sociedade pós-capitalista será organizada, arrumada, limpa, obediente, absolutamente consciente de suas necessidades e obrigações, estamos, na verdade, a sonhar com um mundo que já existe, o mundo da obediência, o da mediocridade, da selvageria e especialmente da escravidão.
 
Sem poesia e erotismo e a sem paixão da recriação de nós mesmos, não haveremos de superar o capital e seus tentáculos linguísticos, sociais e políticos. Não podemos deixar de reconhecer que nossa sociedade é chata, sem brilho, sem perspectivas. Perdemos o tesão de conhecer e recriar o mundo, deixamos isso a cargo da sociedade produtora de mercadorias e seus preclaros administradores.
 
Falta-nos a compreensão da nova percepção de um mundo que deve ser destruído e não estrangulado pela tecnocracia. Pela força criadora de um propósito que não se aliena ao mundo idolatrado do trabalho social abstrato. Precisamos de novas deusas, divas, ninfetas. Precisamos rever nossos rumos. Há 300 anos, o que há de novo é a instituição da miséria. O desencanto nos persegue. A angústia é nossa companheira. A culpa pequeno-burguesa e cristã inunda nossa consciência, somos inquilinos dessa consciência petrificada do capital em nós.
 
Nossa história não nos dará qualquer trégua. Daqui a 200 anos seremos julgados pela nossa covardia. Não haverá compaixão, talvez alguma compreensão sobre nossas idiossincrasias. Somos uma sociedade fracassada. Nossa caretice nos denuncia socialmente.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Uma tentativa de refletir o problema da NECESSIDADE

Atanásio Mykonios


Querido Rosenil

Embora o tema suscite uma série de questionamentos, penso que alguns elementos podem ser distinguidos no problema relativo à NECESSIDADE. Não tenho por costume dissecar um texto como se fosse eu um legista da contrariedade. Prefiro o grande debate sobre algumas ideias que percorrem o nosso diálogo, apesar de saber que em parte, as divergências têm um caráter na histórica leitura realizada pelos movimentos operários que tiveram inspiração no pensamento de Marx, por vezes fragmentado - pensamento exotérico.
 
A questão que me interessa, sobretudo, está no âmbito do Capitalismo. A NECESSIDADE entendida no interior de um sistema que, no meu modesto entendimento, inverteu o processo dialético da necessidade.
 
Inicialmente, as considerações feitas por você acerca da NECESSIDADE se encontram no campo de uma, digamos, ontologia dessa categoria. Para alguns setores da antropologia, da filosofia e da sociologia, sem contar as várias frentes da psicanálise e psiquiatria, tratam a NECESSIDADE como um elemento dado, conjuntural à espécie humana, condicionado às formas geográficas ou culturais. A NECESSIDADE como um elemento constitutivo do ser humano, parte de sua natureza intrínseca. 

A naturalização das necessidades.
 
Sim. Isto é um fato, mas não é sobre este fato que me debruço. O ser humano é uma espécie que se relaciona com a natureza por conta de sua NECESSIDADE. Essa relação é histórica e dialética, como pude apresentar em um artigo publicado no CEMARX, da UNICAMP, em 2010.
 
Nessa relação, o homem constrói sua história e faz a cultura. Em cada etapa histórica, a sociedade cria formas de extrair da natureza sua sustentação. Sem a natureza, penso, o ser humano não é, em qualquer possibilidade, não é nem será humano.
 
Mas o problema é que no capitalismo os indivíduos se situam entre dois polos do processo. Para isso, é importante compreender que o capital não se estrutura apenas pela concentração de riqueza e a exploração, especialmente pela não distribuição da riqueza. Durante muito tempo, e ao longo do século XX, as esquerdas lutaram pela distribuição da produção, criando a ideologia de uma justiça social da igualdade sobre do que era produzido, sem considerar o modo como tudo era produzido. Ou seja, pouco se voltou a atenção para o princípio ativo do sistema, o trabalho abstrato e o valor sobre valor, engendrando o mundo fantasmagórico das mercadorias.
 
Assim, o processo produtivo que é, na realidade, a condição sine qua non do capital, a autovalorização sob qualquer determinação, cria uma realidade na qual os indivíduos não mais têm controle sobre esta. A forma-valor inverte o contexto da necessidade, pois não é mais uma cultura que determina o que é ou não necessário, não mais a história de uma cultura que cria o espírito da necessidade. Mas é um sujeito histórico sem face, a sociedade do valor e da mercadoria. Nem mesmo podemos dizer que se trata de um conflito político entre os que querem e têm e os que não têm nada.
 
Os indivíduos, as instituições, os estados, o ordenamento jurídico, os sindicatos, os partidos e até as igrejas passaram a se submeter ao modo de produção do valor, que guia a ação e a consciência dos indivíduos. No primeiro capítulo de O Capital, Marx apresenta esse processo de forma magistral.
 
A reificação do processo social, a cultura, a linguagem, a estrutura das relações humanas, tudo isso está subsumido ao modo da autovalorização, uma obediência cega.  Além disso, o homem está preso a esta realidade, porque está entre a produção de valor (cega e autoritária, que reivindica tudo para si) e de outro lado, ele tem à sua frente nada mais nada menos que o mundo das mercadorias.
 
E o pior é que ele imagina ter a autonomia para decidir sua própria necessidade. Daí a característica social de culpabilizar os indivíduos pelo consumo exacerbado, como se estivéssemos num frenesi incontrolável e devasso do consumo.
 
Apesar de ser o mesmo indivíduo que se situa na relação, ele se divide em dois. Ele é, ao mesmo tempo, um trabalhador que produz valor sobre valor (e não exatamente coisas) e é, também, paradoxalmente, um consumidor, que adquire, não coisas para a sua necessidade (seja ela cultural, espiritual, simbólica, social, familiar ou pessoal), mas apenas mercadorias, que o transformam em coisa como as coisas que consome.
 
Essa cisão é o grande problema da complexa forma social adquirida por meio de um modelo que não é somente econômico.
 
Essa dura realidade é, por vezes, escamoteada ou é tratada como uma espécie de desonra à dignidade humana. Pois, onde já se viu nós nos compararmos às coisas que consumimos? Entretanto, não passa disso mesmo, desonrados, nada somos a não ser seres que reproduzem automática e cegamente um modelo social, imaginando que temos alguma autonomia para mudar o curso do capital. O capitalismo não é um motor distante, que não atinge a cultura, não atinge a linguagem, a gramática social, que não influencia a religião ou os mitos. Ao contrário, ele está em toda parte.
 
Então, qual é o problema político? Está na ordem do conflito estabelecido pelos mesmos indivíduos. Ora trabalhadores, ora consumidores. Mas esse é um dos conflitos políticos, não o mais importante, talvez, nem o mais insignificante.
 
Harry Cleaver, pensador americano, nos diz que a batalha política ocorre no interior do processo de produção, ali onde há uma hierarquia, onde há a necessidade de decidir o que se produz, quando, em que condições, para quem e como isso é distribuído. Isso vale tanto para uma linha de produção em larga escala, como para uma pastelaria ou um setor aparentemente não produtivo, burocrático. Mas no caso em especial, minha preocupação é acerca da luta encravada num mesmo personagem, dividido socialmente, entre produtor (e não entendamos aqui o proprietário) e o consumidor.

Como bem você mencionou, a política é um processo entre grupos e seus interesses.

A minha questão que é um problema contemporâneo, do qual não tenho uma resposta, nada próxima, por sinal, é até que ponto podemos compreender um enfrentamento do problema da NECESSIDADE no conflito entre as duas categorias sociais, compostas pelos mesmos indivíduos, a saber, trabalhadores e consumidores, uma vez que ambos constituem a contradição do mecanismo social do capital.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Uma interpelação acerca do último texto

Por Rosenil Barros Órfão*


Oi Grego... obrigado pela oportunidade da reflexão e do debate.... porém longe de querer desconstruir qualquer proposta... então lá vai...

Tenho dúvidas se a NECESSIDADE, seja um problema político. Me parece que o mundo da política dialoga com a cultura e nasce com a cultura. Isto se dá quando os grupamentos humanos começam a se organizarem com elementos cognitivos e não mais somente pelo instinto animal. Este é o momento que antecede a fala (palavra, verbo, nome de coisas, sinais emitidos com deferência a determinado algo, etc..) e a comunicação inicia um novo estágio. Começa a trajetória do sujeito. Inicia-se o fenômeno de poder dizer as coisas. Obriga-se, o primata, a refletir. Inicia-se a possibilidade do "pensar-se" para dizer. Aquilo que você chamou em um seminário que participamos de "vitória da razão" e no seu texto, lembrando a utopia iluminista: "emancipação da razão".

Tenho afirmado em meus diálogos ao "vivo e a cores" na atividade política, que esta é uma atividade sobre humana. Ou seja, não é uma atividade sobre-natural. Porém é acima de possibilidades humanas. Porém é uma tarefa de homens, não de deuses, se é que eles existam. E para executá-la com humanidade, somente é possível se for construída e exercida coletivamente no espaço geográfico concreto, e acessível, do primata tornado sujeito.

Espaço geográfico concreto e acessível é o que determinamos por território. Lugar onde ocorre a produção e a reprodução da cultura e tudo que a envolve, inclusive nossa nova condição de sujeito. Como por exemplo este primata, um pouco mais complexo, que voz fala. E tu que me ouve (lê). (mais complexo ainda... rsrsrs).

A política se estabelece para atender aos interesses que constroem as relações neste território. Porém, para ser exercida, e permanecer enquanto atividade política, deve fazê-lo de modo a garantir as necessidades. As necessidades são direitos básicos. Direitos básicos é aquilo que é necessário, ou seja, não é contigente dentro do universo social ou do território que se vive.

Se estes argumentos são válidos, posso afirmar que a necessidade é algo inerente ao nosso existir natural, primata, contrariamente ao que tenta determinar o mercado e a ideologia dominante, conforme você reflete, muito bem em seu texto.

Quando nos tornamos sujeitos, entramos em conflito, este com certeza permanecerá. Porém a NECESSIDADE, é algo que nos humaniza e nos prende ao nosso natural, e somente a partir dela que poderemos garantir interesses mais legítimos e em sintonia com nossas NECESSIDADES. Por conta disto a necessidade da luta política. (Fora esta questão da luta política que introduzo, temos acordo até agora, me parece).

Mas a luta política ocorre na arena da cultura enquanto espaço, e de nossa subjetividade enquanto materialização. A materialização da política se dá, então, de modo objetivo, em nossas ações e na adequação concreta de nossos interesses às nossas NECESSIDADES.

Neste sentido cabe ao primata, agora elevado a sujeito e promovido a animal político, tocar sua existência e acumular condições humanas para viver plenamente a satisfação de suas NECESSIDADES.

Aqui que gostaria de provocar um pouquinho. Pois não dou de "barato", com maior respeito a Adorno, que a política obrigatoriamente está subordinada às forças de e do mercado. Mesmo com a capacidade do sistema capitalista em criar "necessidades", e de algum modo, através de sua linguagem dominante, dominar vontades e interesses, esta força não transfere ao sujeito consumidor e ao mesmo sujeito trabalhador, suas contradições. As contradições me parecem ficar como predicado do sistema. E este sistema continua criando as condições para sua própria destruição.

Entendo que devemos aprofundar esta questão, e talvez, torná-la mais didática e mais acessível. Pois o problema da NECESSIDADE, que na verdade não é um problema, pois é da nossa natureza, pode vir a ser uma boa estratégia de apresentação de soluções políticas.

Quero dizer com isto que sua percepção, de ver na superação das NECESSIDADES, uma demanda ou um problema político pode ser a chave para valorizarmos nossa capacidade de viver e conviver com nossas necessidades.

Se isto é possível, fica claro a afirmação de Marx: o socialismo sé é possível na abundância. Neste sentido temos condições de promover o aprofundamento do debate atual sobre as "reais necessidades" para o sistema de produção e reprodução econômica e cultural, que deve deixar de ser abundante na criação de novas necessidades e ser mais eficaz na organização da política para sintonizar interesses e necessidades.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------
Caro Grego.... não estou muito disciplinado para uma argumentação acadêmica... acho que o dia a dia do diálogo político me faz escrever e falar de modo um tanto desmedido.... mas mesmo assim gostaria de sua resposta... caso tenha conseguido me fazer entender....

Grande abraço.
Rosenil.

* Texto enviado por Rosenil Barros e que merece ser publicado em sua totalidade para que possamos responder e os leitores seguirem o debate acerca das ideias aqui propostas.