segunda-feira, 14 de julho de 2014

Eu vi Pelé jogar! E daí? - O Incidente no Futebol Brasileiro

Por Atanásio Mykonios



Não valeria de nada ter escrito este pequeno artigo antes ou durante a Copa do Mundo, seria um tiro no escuro dadas as condições de ilusão em que ainda nos encontramos.

Houve um período na história do futebol brasileiro em que ocorreu um fenômeno incidental. Um círculo virtuoso que durou pouco tempo. Mesmo tendo se tornado um esporte de massas, o desempenho internacional do futebol do Brasil era mediano até 1958. A Copa do Mundo de 1958 revelou para o mundo uma geração absolutamente genial e que me parece foi um incidente histórico na trajetória até então sem muito brilho. Essa geração ganhou três copas num intervalo de 12 anos, jamais antes nem depois nenhuma seleção havia conquistado tal feito. Isso mostra que nesses 12 anos o futebol brasileiro se tornou um fenômeno sem precedentes. Aquela geração terminou um pouco depois da Copa de 1970, e a partir daí o futebol canarinho teve de amargar 24 anos até a próxima conquista e mais 8 para a segunda. Após essa fase de ouro, parece que o nosso futebol voltava às antigas formas de sofreguidão que persistem até hoje.



Mas o que havia de tão especial naquela geração? Antes de tudo, é preciso reconhecer que criamos uma ilusão de ótica ao ver aquele oásis de genialidade, talento, originalidade e inteligência. Fomos convencidos de que o futebol brasileiro era, por essência e por natureza, o melhor do mundo, o mais impressionante, marcado pelos dribles desconcertantes e pela capacidade de vencer qualquer adversário. O que havia, no entanto, de especial, além da genialidade era a inteligência. Naqueles 12 anos, o jogo era ganho dentro das quatro linhas, os jogadores pensavam o jogo, eles tinham nas mãos o controle estratégico, a tática, percebiam as lacunas, tinham visão de profundidade, não necessitavam de truculência nem de grande condicionamento físico. Eram inteligentes! E alguns eram excepcionais de modo que sua imensa visão de jogo possibilitava que o jogo fosse uma construção, um processo.

Outro aspecto é o fato de que os treinadores não tinham o esplendor que hoje se vê. Ao contrário, o jogo era articulado antes e durante o seu processo. O treinador do Santos F. C., por exemplo, passou anos a treinar uma equipe que jogava como quem propiciava uma sinfonia ao ar livre e em movimento e ele mesmo em muitas ocasiões passara despercebido quanto à sua relevância para o time como um todo.



No entanto, após a Copa e 1970, o futebol brasileiro, gradativamente voltava ao seu veio natural, isto é, uma geração parece que chegava ao fim, voltávamos àquela trajetória mediana, com a diferença de que os treinadores passaram a ascender enquanto a inteligência no campo começou a declinar até que chegara a Copa de 1982. Parecia mais um hiato na longa e arrastada jornada mediana do futebol nacional. Era uma geração, a de 1982, que havia sido formada pela genialidade da geração passada, mas ali já não se encontrava o grande gênio da raça espalhado por inúmeros craques e gênios da bola. É bem verdade que tentamos com um treinador bola-pra-frente e um grupo de jogadores que havia sido formado sob o tacão da ditadura militar. Mas mesmo assim, essa geração rapidamente perdera seu brilho.

Em seguida mergulhamos novamente em nossa barca do inferno e amargamos mais de uma década de problemas estruturais e uma sofrível seleção aqui e acolá sendo formada sem muito esmero. Os treinadores, aos poucos, tornavam-se gestores, criando um modelo burocrático de administração do futebol, o que gerou o medo pela experimentação, pelo novo e pela originalidade. Daí em diante, o que nos restava era a imensa burocratização social, como a sociabilidade natural, ou seja, o capitalismo já estava totalmente impregnado e os jogadores seriam, então, um grande e complexo aparato de exploração da mais valia.

Na verdade, passaram-se 24 anos desde a terceira conquista da Copa do Mundo de 1970. Ou seja, somente em 1994, sob a égide de uma final marcada pelos pênaltis, o Brasil se sagrou campeão. Acrescente-se, ganhar uma Copa do Mundo nos lances finais com aquela dose de antifutebol que só os pênaltis podem oferecer e destruí-lo.

Quem comandava aquele bloco dos desvalidos?

Sabemos que há muito o futebol brasileiro não passa de uma usina de mão-de-obra para os grandes centros. O empreendimento brasileiro do futebol é um negócio altamente rentável, a reprodução de valor nesse espectro é absurda e todo controle está nas mãos de uma oligarquia imensamente poderosa. Especialmente no Brasil, que ganha uma imensidão de recursos e parece ser intocável, assim como o judiciário, a polícia, os meios de comunicação, etc. A burocracia empresarial penetrou os campos a partir de 1974 e a partir daí o que se observa é o fim da inteligência, arrancando do cérebro e dos pés dos trabalhadores-jogadores o poder de fascinar o mundo e transferindo esse poder para o cérebro administrativo e lucrativo dos empresários e dos treinadores engessados pela estrutura da produtividade.

À medida que a burocracia passa a gerir o desempenho do futebol com o escopo de fazer gerar e circular valor em forma de gestão, os treinadores se tornam esses gestores intermediários que irão formar gerações de imbecis, monitorados apenas pelos cálculos econômicos e rentáveis. Esse cálculo não tem nada a ver com a ilusão de que o povo nutre até hoje de que existe uma essência no futebol brasileiro que foi conspurcada apenas pela incompetência dos dirigentes.

Ao contrário, afirmo que não houve incompetência no gerenciamento do futebol muito menos na realização da Copa do Mundo no Brasil, os gestores foram extremamente competentes em publicizar um grupo de jogadores que são muito valorizados e que continuarão a sê-lo fora das fronteiras dessa usina de trabalho e exploração.

Na verdade, ocorre que o nível do nosso futebol, quando é para criar um conjunto, é apenas mediano e conta sempre com o ufanismo esquizofrênico da torcida que se apoia em fenômenos esporádicos. O nosso futebol é isso mesmo. Afinal eu vi Pelé jogar e vi uma geração colocar nas nossas cabeças que podíamos mais do que a realidade se apresentava. Mas como afirmei, não passou de um incidente virtuoso.


A burocracia tem a capacidade de destruir a originalidade e a inteligência. Portanto, apenas uma geração foi virtuosa no futebol brasileiro e mundial, o que havia antes e o depois é que são de fato a nossa realidade – temos um futebol mediano, mas extremamente rentável. 

sábado, 5 de julho de 2014

Ela é a mãe da nação?

Por Atanásio Mykonios

É impressionante o papel que a Rede Globo assume para si mesma. Imagina a si mesma como redentora e protetora da sociedade brasileira. Tem a obsessão de manter aquela espécie de nacionalismo por meio do futebol, como se fosse historicamente fundamental e necessário esse patriotismo a todo custo. Como se a Globo tivesse o papel do Estado-nacional, da Igreja nacional, da Cultura nacional, do Folclore nacional, etc. A Rede Globo vê seu papel histórico como porta-voz da sociedade brasileira como um todo, com sua pretensa capacidade de mobilizar as forças de identificação entre uma suposta nação e a frágil construção de uma cultura e uma etnia absolutamente abstrata. A Globo pretende transformar o futebol em expressão da forma da sociabilidade, de valores condensados e convergentes a um tempo de unidade ideológica. Esse papel realizado com maestria metódica é, no mínimo, uma monstruosidade, porque assume o caráter de um Estado-nacional amplo e formalmente legitimado por meio de uma complexa condição, baseada não apenas no cálculo econômico, mas também em uma negligência histórica de despolitização da sociedade brasileira.

É uma espécie de mãe da nação, seria? Mais parece uma aberração do vazio social, da ignorância política, das formas de manipulação características dos meios de comunicação, das novas e destruidoras construções de discursos hegemônicos. Como se fosse possível fazer surgir a nação ou consolidá-la por meio de um conglomerado de construções de imagens em movimento com conteúdo discursivo de caráter eminentemente difuso, mas poderoso para escamotear a realidade, a exploração, mentir acerca dos explorados, garantir as benesses dos exploradores a todo custo.


A Rede Globo é um organismo social que deve ser colocado no seu lugar, sua ação é estruturalmente um monumento ao fascismo moderno. Seu patriotismo tem por escopo a mobilização das massas para que não apenas consumam, ou que votem no que está nos planos políticos de seus interesses, mas que vejam nessa emissora a representante legítima de suas próprias aspirações, uma tentativa de simbiose quase naturalizada entre o povo e essa aberração. A construção dessa identidade é mais poderosa do que a sua capacidade de se manter no mercado, é mais intensa, mais profunda e disseminatória do que a força de suas mentiras. Serve como suporte para o seu poder. Mesmo quando fala a verdade (quando a comunica), sua imagem está estabelecida como fonte da identidade nacional. Atuou em parceria com o regime militar, atuou para erigir Collor de Mello e para o derrubar posteriormente; atua com o politicamente correto para defender o direito à livre expressão, mas com seu complexo aparato de manipulação social da informação, garante seu poder para impor sua necessidade de criar essa constelação identitária.


No futuro, a história reservará à Rede Globo talvez o mesmo papel que a Igreja exerceu na Idade Média, os Estados autoritários ao longo do século XX, o nazismo com sua máquina destruidora, etc. Pena não termos tido força social suficiente para nos emanciparmos dessa mãe falsa. 

terça-feira, 10 de junho de 2014

Greve, o direito de ir e vir e os trabalhadores

Por Atanásio Mykonios


Os meios de comunicação, insistentemente, procuram apresentar uma tese que se mostra falaciosa. A estratégia desses organismos de comunicação é a de defender um falso dilema na sociedade capitalista. Qual seja, o de ter o direito ao trabalho. De maneira geral, a defesa se concentra contra os movimentos sociais e os movimentos paredistas, isto é, contra as greves em pontos estratégicos da fábrica social do valor. A circulação do valor deve prevalecer sobre todos os demais direitos. No entanto, esse princípio é tornado totalmente invisível e o que surge é uma espécie de política oficial do sistema, uma ideologia consistente que defende, o direito de ir r vir de cada cidadão – o direito inalienável dos sujeitos de circularem, mas circularem com que escopo? A cidadania se fixa no âmbito da pura individualidade e a liberdade a que se referem esses meios de comunicação não passa de uma obrigação para o trabalho. Marx, em sua obra Sobre a questão judaica, deixa claro o que significa a liberdade na sociedade burguesa.

A liberdade equivale, portanto, ao direito de fazer e promover tudo que não prejudique a nenhum outro homem. O limite dentro do qual cada um pode mover-se de modo a não prejudicar o outro é determinado pela lei do mesmo modo que o limite entre dois terrenos é determinado pelo poste da cerca. Tratase da liberdade do homem como mônada isolada recolhida dentro de si mesma. Por que o judeu, segundo Bauer, é incapaz de acolher os direitos humanos? (Marx, 2010, p. 49)

O homem abstrato é uma condição essencial para que o trabalho abstrato se torne condição para a exploração em geral. Por outro lado, nesta sociedade em que os interesses se tornam indiferenciados, por uma parte, e fragmentados por outra, a noção de vinculação aos demais “cidadãos” é um exercício de ficção, uma vez que a luta pela sobrevivência dos trabalhadores os empurra para uma competição absurda e fratricida entre si. Na mesma condição estão os produtores que se veem impingidos a produzirem para o mercado e só para o mercado, e que precisam do trabalhador para assegurarem o constructo do valor.

No entanto, o direito humano à liberdade não se baseia na vinculação do homem com os demais homens, mas, ao contrário, na separação entre um homem e outro. Tratase do direito a essa separação, o direito do indivíduo limitado, limitado a si mesmo.
A aplicação prática do direito humano à liberdade equivale ao direito humano à propriedade privada. (Marx, 2010, p. 49)

A liberdade, mais uma vez não diz respeito ao indivíduo que não possui nenhuma predicação, para ser o que é como indivíduo. Refere-se, substancialmente, a uma liberdade que não se encontra nas mãos desse indivíduo, mas nas mãos de um fantasma social que rege a estrutura e as relações sociais vigentes, relações de exploração. Todos serão iguais sob o teto do sistema capitalista deste que cumpram em serem livres para serem explorados ao máximo.

Restam ainda os outros direitos humanos, a égalité e a sûreté. A égalité, aqui em seu significado não político, nada mais é que igualdade da liberté acima descrita, a saber: que cada homem é visto  uniformemente como mônada que repousa em si mesma. (Marx, 2010, p. 49)

Essa liberdade se refere a uma coerção social que dita a regra fundamental do modo de produção do capital numa escala em que o processo de produção de valor não pode ser interrompido por nenhuma reivindicação particular, por parte dos trabalhadores ou até por quem está à beira do abismo social. Eis que, num sentido estrito, a segurança é o elemento constitutivo do direito à produção e à propriedade privada. Os trabalhadores não podem impor sua condição de explorados, a não ser como fonte de benevolência daqueles que atribuem ao Estado a função de dirimir contendas de negócios.
A segurança promovida pelo Estado é clara. Tem função clara. Exerce papel claro nas suas atribuições diante dos conflitos sociais. Serve, em primeiro lugar, para garantir o modo de produção e para isso, é crucial que os trabalhadores tenham condições materiais para chegar ao trabalho – ao lugar de produção. Isso não quer dizer que o sistema providenciará meios de circulação adequados, o que há por detrás desse processo, é a capacidade que as forças de segurança têm de garantir que os trabalhadores continuem a trabalhar.
É por isso que, via de regra, a polícia deve ser mobilizada para atender às demandas da iniciativa privada, ou, da propriedade privada (em consórcio com aparatos público-estatais), entendida aqui como o grande complexo de produção, distribuição e circulação de mercadorias. O sistema não pode parar sob nenhuma hipótese, é preciso empurrar os trabalhadores, forçá-los a produzirem, esmagá-los nos trens, ônibus, vans, metrô, seja lá como for. Isto denota um aspecto interessante, o fato de que o trabalho continua a ser crucial ao modo de produção capitalista, apesar de este continuamente expelir o próprio trabalho.
Mais uma vez, Marx aponta a questão da seguinte forma.

A segurança é o conceito social supremo da sociedade burguesa, o conceito da polícia, no sentido de que o conjunto da sociedade só existe para garantir a cada um de seus membros a conservação de sua pessoa, de seus direitos e de sua propriedade. Nesses termos, Hegel chama a sociedade burguesa de “Estado de emergência e do entendimento”.
Através do conceito da segurança, a sociedade burguesa não se eleva acima do seu egoísmo. A segurança é, antes, a asseguração do seu egoísmo. (Marx, 2010, p. 50)

O homem, aqui entendido, é a célula que faz a engrenagem funcionar, cuja perda de sua própria autonomia é o sintoma de uma coerção sem medidas, em que a escravidão moderna se apresenta, de forma que não há escolhas possíveis u plausíveis.
Nesse sentido, qualquer tentativa de impedimento da circulação dos trabalhadores em direção ás células de produção é e deve ser tratada como uma afronta deliberada. Nada pode cortar a circulação e a produção, por isso, as forças de segurança, guindadas pelos gestores públicos, estão cada vez mais atentas para qualquer desvirtuamento da ordem sistêmica do capitalismo.
Assim, quanto mais a crise se instaura em todos os quadrantes e quanto mais a fragmentação dos trabalhadores se mostra visível, mais se pode observar que algumas formas de atividade laboral se tornam fundamentais e estratégicas para a manutenção do sistema, tanto quanto para a sua destruição. A massa imberbe de trabalhadores sempre surge como vítima das greves, os mais humildes, os que mais dependem dos transportes, por exemplo, e que constituem a imensa maioria desse trabalhadores.
Também, é por essa razão, que os meios de comunicação se esmeram em defender obstinadamente as ações das forças de segurança, a manos que essas forças se voltem contra esses meios de comunicação. Daí, o que aflora é o sentimento corporativo, mas sem deixar de continuar com a lealdade que os caracteriza, promovendo a apologia da violência e do terror contra os trabalhadores em geral. Seja no seu extermínio, seja na brutalidade com que a polícia enfrenta a reação dos trabalhadores nas ruas e avenidas, etc.
Instintiva ou racionalmente, os meios de comunicação seguem à risca o que Marx coloca em sua obra. Atuam sem constrangimento porque estão acima do valor humano, da sua condição enquanto individualidade, uma vez que promovem o bem-comum não dos “cidadãos”, mas é o bem-comum da sociedade produtora de mercadorias.

Portanto, nenhum dos assim chamados direitos humanos transcende o homem egoísta, o homem como membro da sociedade burguesa, a saber, como indivíduo recolhido ao seu interesse privado e ao seu capricho privado e separado da comunidade. Muito longe de conceberem o homem como um ente genérico, esses direitos deixam transparecer a vida do gênero, a sociedade, antes como uma moldura exterior ao indivíduo, como limitação de sua autonomia original. O único laço que os une é a necessidade natural, a carência e o interesse privado, a conservação de sua propriedade e de sua pessoa egoísta. (Marx, 2010, p. 50)

Esse homem dito “egoísta” é a marca de uma sociedade que não encontra, na atualidade, formas de engendrar um consenso acerca do entendimento para uma ação coletiva sobre o modo e o processo de produção capitalista. E o Estado, assim como as organizações da empresa, fornecem um quadro em que a manipulação da verdade ocorre por meio da construção de uma falsa consciência, transformando assim, a grande massa, em sócia da ação do Estado, que tem como objetivo assegurar e garantir a produção e a circulação de valor.

Em outras palavras, o trabalho não é um direito, é uma escravidão, uma determinação imposta de fora para o “cidadão”, pois o verdadeiro direito universal no capitalismo é assegurar a produção de mercadorias, seja lá de que forma, com balas, bombas, algemas ou prisões.







Referência Utilizada

MARX, Karl. Sobre a questão judaica. Apresentação [e posfácio] Daniel Bensaïd; tradução Nélio Schneider, [tradução de Daniel Bensaïd, Wanda Caldeira Brant]. São Paulo: Boitempo, 2010. (Coleção Marx-Engels)

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Por que tanto espanto?

Por Atanásio Mykonios

Durante um período recente, as esquerdas pensaram que o caminho para a mudança cultural estava aplainado, mudança que implicava a conquista de um mundo distante das travessuras dos reacionários e fiscais do comportamento moral. A materialidade se tornou um dado aparentemente resolvido e que restava às vanguardas lutarem por emancipação no seio da cultura e com isso garantirem direitos de vanguarda para os mais oprimidos.

Por quase vinte anos, nos acostumamos e lidar com um público de pouca manifestação politica, imaginando que esse contingente não tinha consciência histórica para lidar com o debate político e o cenário das lutas sociais. Tratava-se de uma horda de ignorantes que somente criavam obstáculos e geravam um marasmo mobilizatório quanto aos objetivos de uma esquerda visionaria, em muitos casos, encastelada no interior das academias. Essa esquerda culminou no aprofundamento acadêmico-científico-teórico de grande envergadura, mas de pouco alcance social. Aos poucos foram engolidas pela esfera burocrática dos instrumentos de controle do Estado e se viram encurraladas pela lógica produtivista que alcançou os gabinetes e as salas de aula.

Enquanto isso a história prosseguia com sua dinâmica. As esquerdas, capitaneadas pelo PT, cresceram aos olhos vistos e não se preocuparam com a ascensão de um pensamento de direita que era urdido lentamente pela maioria silenciosa. A luta contra a ditadura deixou sequelas nas linhas da esquerda. Após o fim do regime militar, uma geração de atores políticos chegava ao cenário institucional e contava com o apoio de parte da opinião púbica, especialmente os artistas, intelectuais, formadores de opinião, profissionais liberais, que, recém-saídos da ditadura, encontravam um caminho para reconstruir o processo político com bases na democracia liberal representativa. Era pegar ou largar!

Movidos pela herança quase gloriosa de uma esquerda combativa e comprometida, o Brasil foi aos poucos ganhando contornos de uma democracia de cunho liberal festivo, fortemente ancorado na jurisdição, na igualdade social por direitos de acesso e ascensão, bem como um forte sentimento de inferioridade que prevalece até hoje em todas as camadas sociais. Os avanços cada vez mais significativos no âmbito dos direitos sociais ao mesmo tempo em que sonhavam (as esquerdas), com uma revolução socialista que, lentamente se perdia no horizonte histórico, desenharam um quadro estranho, mas ainda promissor e positivamente alentador para as esquerdas.

A bifurcação da história nos legou uma indecisão quanto às escolhas a serem feitas. Diante das esquerdas e, especialmente, diante do PT, dois caminhos se colocavam e se entrecortavam. De um lado, a tradição da luta e da organização burocrática do sindicalismo e da política administrativa, por meio das lutas dos partidos populares (anticapitalistas, anarquistas, marxistas, etc.), marca de um tempo de estrutura produtiva que permitia o modelo de concentração das massas trabalhadoras em torno de projetos comuns e sistematizantes. – a burocracia sindical juntamente com a hegemonia dos partidos de trabalhadores e marxistas no Ocidente. O Estado era o caminho natural da luta pelo poder contra o capital monopolista. Esse modelo estava alinhado com a estrutura de produção industrial massiva que engendrava na organização do trabalho interpretações que tinha como premissa o antagonismo entre trabalho e capital. As lutas pelo poder giravam em torno à possibilidade de inverter a balança desse antagonismo em favor dos trabalhadores, mas, em muitos casos, nada mais se observou que o sucumbir à lógica do capitalista coletivo, ora em favor das elites locais, ora em favor dos grandes conglomerados transnacionais.

De outro lado, uma revolução no interior das hostes do capitalismo que empurraria lenta e gradativamente as esquerdas para uma armadilha cujo gatilho impingiria quase que a sua destruição ou, mais radicalmente, sua autodestruição. Enquanto os administradores e gestores do capital enfrentavam a questão da recomposição de sua capacidade de produzir valor, as esquerdas se viam tragadas pelo canto da sereia que ditava o caminho político para a tomada do Estado-nacional. Chegaram ao poder e seu glamour as transformou em títeres de um desenvolvimento nacional herdado pela sociedade do bem-estar.

No Brasil, o ambiente criado na festiva luta pelos direitos de grupos e minorias, criou a impressão de que o pensamento de direita estaria, de alguma forma, sepultado. Talvez, em uma espécie de hibernação histórica. Os avanços nas conquistas de direitos das mulheres, dos negros, dos homossexuais, das minorias, dos índios, dos portadores de necessidades, das crianças e adolescentes, gerou um clima de otimismo das e nas esquerdas, até que o partido que detinha a hegemonia do movimento de esquerda chegava ao poder. Muitos se aliaram às esquerdas, criando um clima de falsa convergência, com aqueles que tinham concepções de justiça, mas se mantinham fieis ao liberalismo cultural, sem olvidar o modo de produção de valor. Entusiasmada com esse processo e a perspectiva de mudanças mais radicais, a esquerda se viu manietada pela bipolaridade politica exercida pelo PT e seus aliados. E com a estrada bifurcada opôs aliados e destruiu biografias intensamente construídas no período ditatorial último.


A saga petista foi de uma extraordinária agilidade e estupenda capacidade para aliar dois aspectos da política nacional que viviam em posições diametralmente opostas. Conseguiu convergir a politica da concentração da riqueza por meio do Estado e criou, em paralelo, políticas sociais apartadas do movimento da economia política, abrindo, assim, dois flancos. Enquanto a economia nadava de braçada e os índices financeiros abastavam ainda mais bancos, investidores e a indústria nacional; o problema social, por sua vez, foi tratado com linhas de crédito para favorecer s famílias indigentes sociais e com o auxílio de agentes terciários – isto é, o problema social passava a ser tratado por igrejas, psicólogos, organizações não governamentais, assistentes sociais e, por fim, pela polícia. E como não podia deixar de ser, foi envolvido pelas forças conservadoras que tinham, desde a década de 1960, o traço marcante da ordenação do capital como mola propulsora do desenvolvimento econômico, mantido sob a rédea curta pela classe dominante.

Não foi o bastante ter de agradar a dois senhores ao mesmo tempo. Não seria possível. A ruína tardaria, mas a história cobraria seu preço – e alto! Hoje, em meio a uma turbulência social que atinge diversos setores da sociedade, as esquerdas se veem aturdidas com o pulular de pensamentos de caráter extremista, com fortes contornos racistas, contra os pobres, contra os oprimidos, enfim, uma onda de revanchismo, sectarismo e ódio se espalha. Mas, será mesmo um fenômeno recente, uma espécie de bolha assassina que abduziu milhões de jovens e os lobotomizou para que apreendessem um discurso raivoso de cunho fascista ou nazista? Não, não foi por acaso e nem de repente que essa avalancha de violência ganhou as ruas e os espaços virtuais.

Há mais no profundo dessa realidade e há mais por vir. Esses jovens, moças e moços, esses homens e mulheres estão aqui como em outros lugares. Pelo mundo afora observamos estruturas discursivas que pleiteiam o poder dos mais fortes, o uso da força e da coerção de cunho militarizante, o fim dos direitos sociais, enclausurando os desprovidos de valor em modernos campos de concentração. Aqueles vinte anos citados acima são o caldo no qual uma geração e meia cresceu e se formou, acostumada com ganhos significativos, com a crescente despolitização do processo social, com o distanciamento dos reais problemas relativos ao capitalismo e a aparente derrocada dos regimes socialistas. Eles se acostumaram com uma sociabilidade sem conflitos reais, sem a pressão da materialidade, com a perspectiva de um acúmulo capitalista indefinido. A pequena burguesia deitou raízes com sua moral tacanha e invadiu a consciência social dos emergentes. Olhavam para as políticas sociais do governo com um ar de desconfiança, mas o Brasil crescia com alguma folga contra o maremoto do crash financeiro mundial, dado a partir de 2008. O pensamento metódico, organizado e sistematizado, que hoje surge como expressão de grupos emergentes, não ocorre com um passe de mágica, mas há uma causa ou algumas causas. Some-se a essa nova-velha mentalidade os horrores de uma sociedade embevecida pelo extermínio dos mais pobres, a perseguição sistemática contra os negros e indigentes, a insana moral do trabalho contra os que não são capazes de se inserir nos mecanismos de produção direta do valor, etc. A fábrica social do valor não exclui ninguém, como supunham as esquerdas cristãs benevolentes deste país.

Uma das mais importantes causas, senão a de maior significância, é o fato de quando o modo de produzir mercadorias entra em crise e, por conseguinte, o modo de adquiri-las também, há uma afetação de parcelas da sociedade acerca do modo de enxergar o contínuo real, que muda quase radicalmente. À medida que a crise avança, mesmo que não haja consistência em reconhecê-la ou apreendê-la em sua totalidade, os grupamentos sociais assumem seu caráter predatório e, também, reproduzem o que está no subterrâneo de suas práticas, tanto singulares quanto sociais, de sobrevivência histórica.

Outro aspecto interessante é que os movimentos sociais se articulam, especialmente os de trabalhadores sem nada, com o escopo de pressionar os vários níveis do estado-nacional, para a conquista de direitos necessários. Ocorrem um tanto quanto à margem da institucionalidade da esquerda, criando um estado de perplexidade, e, por outro, uma complexa engenharia social que foge às análises mais perspicazes dos teóricos da esquerda. Entre esses movimentos e os representantes oficiais da esquerda, há um fosso que parece ainda ser difícil transpô-lo, as pontes foram queimadas há algum tempo e por isso mesmo, o discurso da esquerda não encontra um veio por onde escoar seu projeto de sociedade.

Assim, não deveria haver de nossa parte o espanto com “os coxinhas” e as hostes reacionárias. Nem com as manifestações estúpidas que se espalham em forma de linchamentos, assassínios, apologia à segregação, perseguições religiosas, censura, etc. Esses grupos aparentemente acéfalos, estão conduzindo um processo de reação à crise que avança inexorável para além e acima das esquerdas em todo o mundo capitalista. A dinâmica social tem um caráter irreversível, caótico em certo sentido e de difícil controle, uma vez que as forças sociais entram na arena do conflito sem um projeto claro, a não ser o de cassar os bodes expiatórios de sempre.

O problema é que, de alguma forma, a esquerda acreditava que o que havia no conjunto da esfera social da política não passava de uma turba imberbe e sem rumo intelectual – os ignorantes que deveriam ser catequizados pelas vanguardas, aglutinadas nas academias e em nichos partidários cada vez mais em número reduzido. Nesse tempo de aridez intelectual, em que a sociedade do espetáculo se transveste de um caráter eminentemente imagético, os discursos da subjetividade assumem um poder social aparente, que ganha o ar de verdade absoluta ante o vazio deixado pelo pensamento das próprias esquerdas. Mas esses discursos estão destituídos de consciência histórica porque não têm um poder orgânico e sim uma força social descomunal, cujo parâmetro é a imposição de um poder cego, que clama pela intervenção de uma força militar que pusesse fim á baderna social, econômica e política . Um analfabetismo social impregna-os de cabo rabo, são como adolescentes vociferando pela coxinha do dia.

O que mais deve nos preocupar é a narrativa subliminar que aponta para algo já existente no interior desses grupos que, de certo modo, herdam a violência que está incrustada em nossa história social. Por outro lado, o fascismo não vem exatamente desses grupos, uma vez que não têm nenhuma ligação com os trabalhadores em geral, nem com um compromisso que faça-os se aproximarem de interesses nacionalistas contra inimigos ferozes externos, mas do próprio partido governista – partido de trabalhadores – que emprega a ordem institucional para mover para debaixo do tapete a perspectiva de uma ação histórica dos movimentos sociais e dos grupos de esquerda. Esses vorazes autômatos não gostam da ralé nem dos trabalhadores, querem que todos sejam queimados em praça pública.

Os trabalhadores estão sendo guiados pela foice que está a ceifar a sua consciência como trabalhadores.

Ora, não deveríamos termos sido pegos de surpresa dadas as condições em que a sociedade brasileira se viu investida de uma espécie de legitimidade política que ganha alguns espaços públicos, no entanto, essa forma de manifestar a insatisfação social e política não é nova. Mas, de alguma forma, os mais ignaros ganharam um aspecto social aceito por muita gente. É como se tivessem perdido o medo de expressarem o inominável, o indizível. Mas o fazem com aquele tom grave, de quem conhece os rumos da história e as sendas do processo político. Nada mais enganoso aos olhos de quem vê o mundo se virar de cabeça para baixo, em todos os cantos.

O que salta relevante nesse processo é a nossa incapacidade de enxergar a dinâmica social como um lastro de uma verdade. Isso ocorreu debaixo de nossas barbas que já estavam de molho.