sábado, 22 de setembro de 2007

UM DOS ASPECTOS DA CRISE DO CAPITAL

Atanásio Mykonios



O capitalismo exige mais trabalho, como imperativo e como discurso inerente à sua forma trabalho-valor. Mesmo assim impõe pela concorrência novos patamares de tecnologia. A idéia é vender ao mais baixo valor possível. Também os gestores desejam quanto mais pagar menos aos trabalhadores, por outro lado, produzir cada vez mais com salários cada vez menores, em virtude da concorrência, cria uma limitação cega do mercado. A mercadoria circula, mas não é adquirida. Mesmo assim, prometem-se aumentos de salários com o aumento da produtividade, mas a lógica parece inverter-se a cada novo lance do sistema. Assim, o sistema não percebe que está ao mesmo tempo sendo autodevorado e expandindo-se para merecer a alcunha de capitalismo. A contradição na qual se move o capitalismo é, de um lado, a imperiosa necessidade de arrancar mais trabalho e, de outro, o incremento da tecnologia e das máquinas, que lança uma quantidade imensa de trabalho morto e que pela coerção social mantém um exército de submissos na ordem preparados para o trabalho que não virá jamais, apenas na forma de atividade não-rentável, que reproduz o sistema em um patamar menos qualificado. A contradição permanece. Se a contradição se aprofunda, significa que há um ponto de ruptura, o que geralmente acontece é a necessidade de reformar o capitalismo ou reestruturá-lo no sentido de manter as ordens estabelecidas, mas é aqui que podemos encontrar uma oportunidade, isto é, aprofundar a crise, em outras palavras, aprofundar a contradição para que o mundo se liberte deste fantasma.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

A SUBMISSÃO DA POLÍTICA BRASILEIRA

O fim da Política Institucional?

Atanásio Mykonios


A sociedade tem presenciado uma série de mazelas no âmbito da política institucional. Em público parece que ninguém se dispõe a defender malversações do erário. Não seria preciso enumerar os escândalos de políticos e de partidos. Inúmeros casos que envolvem políticos das mais diversas correntes infestam os noticiários, aludindo a um mundo obscuro de falcatruas, mamatas, tráfico de influência, exacerbação do poder, mentiras. A dimensão da corrupção no Brasil parece que ainda não está bem calculada, mas tem-se a impressão de que tudo está corroído pelos interesses pessoais e corporativos. De outro, o senso-comum tem a noção de que os partidos políticos servem como uma escada para interesses particulares-privados e contrariamente, os estatutos dos partidos políticos são uma carta de boas intenções em favor da justiça, da igualdade e da fraternidade. Aparentemente as pessoas se escandalizam. Muitas são instadas a uma carreira política sem qualquer participação na própria vida partidária, não têm história, têm imagem e espetáculo como recurso social à ascensão ao mundo da política profissional. Os partidos vivem uma rotina apartada da própria sociedade, reúnem-se em momentos muito singulares da agenda eleitoral, arregimentam militantes para tornarem o espetáculo mais qualitativo do ponto de vista da imagem dos candidatos. Os partidos estão à deriva! Tornaram-se partidos eleitorais e não mais partidos políticos, comprometidos que estariam com a vida e a formação sociais. Esta constatação representa um dos fundamentos sociais da nova política brasileira. Isto não explica tudo, evidentemente, não pode dar conta das manobras constantes entre os poderes institucionais do Estado no seu próprio interior.
A meta dos partidos é a chegada ao poder. Este poder, no discurso oficial da nação, requer que seja dividido entre as forças sociais, mas isto é apenas um paradigma que está solto no tempo e esquecido nas gavetas da falta de memória do mundo político. O Estado está constantemente em jogo, é a este que se refere o poder. A questão mais importante para o Estado é a gestão dos recursos. De um lado o inchaço da estrutura administrativa e executiva do estado, de outro, a necessidade de transformá-lo em um canal para realizar obras em favor do capitalismo. A reprodução do modelo capitalista é um fundamento invisível do estado. Os pobres se convenceram de que o Estado deveria lhes proteger da ferocidade das corporações capitalistas. O próprio Estado admite para si esta função social, especialmente na América Latina, cuja tradição católica e de uma esquerda cristã reverte a perspectiva do estado para uma ação social assistencialista, precarizada e profundamente paternalista.
O contexto atual revela uma perda substancial da ação política. Acreditávamos que ela poderia nos dar mais que respostas, conseguiria amenizar os conflitos e rumar para a diminuição das desigualdades sociais e econômicas, exatamente porque seria mais que um freio à voracidade capitalista. Isto indica que o Estado teria a tarefa de patrocinar a democracia, mas como o Estado se tornou uma entidade teratológica, distante do mundo real, torna-se impossível desejar que este tenha algum papel que não seja o de regular um certo ordenamento em seu favor e em valor da coerção social do trabalho, substancia do valor
Na Grécia antiga a política acontecia em um ambiente no qual a economia, a produção, a sustentação social se dava pela capacidade produtiva da massa de escravos que dava o suporte para que a aristocracia social exercesse seus direitos políticos. A política, na Grécia clássica, de certa forma, era praticada por uma elite que tinha suas questões materiais de sobrevida em condições equilibradas e controladas, uma auto-sustentação que devia aos escravos sua força e que mantinha uma certa regularidade no processo social pela segurança que o sistema propiciava. Uma política da reprodução social do próprio modelo em favor das aristocracias ou das minorias racistas helênicas.
Não é o que parece ocorrer no mundo atual da política brasileira. A economia subsumiu, há muito, completamente a política. A política parece exercer um fascínio à medida que cria a fantasia de que é possível atualmente barrar a estrondosa avalancha da crise social do capital. Ela se move em direção aos interesses da produção, do consumo, do ordenamento jurídico que determina a continuidade e a reprodução do modelo social capitalista. Mas não há garantias suficientes como há 2,5 mil anos, quando a Grécia experimentava um sistema escravagista sem grandes conflitos internos.
A sociedade insiste em que o problema das mazelas da política é de ordem moral. A crítica contra a corrupção política encontra seu terreno fértil no campo da subjetividade que institui uma responsabilidade individual aos atores políticos, quando considera aspectos subjetivos do mundo da política, como se tudo estivesse na circunferência de escolhas pessoais e que a mudança de leis seria o caminho mais favorável para barrar o caos político e a indiferença quanto aos interesses e problemas sociais, ou no sentido de aprofundar mecanismos de punibilidade, evitando a impunidade em escala geométrica.
A sociedade parece não perceber que um ciclo histórico-social se fechou. O poder da política tinha seus efeitos positivos no que concerne a barrar a avidez da economia capitalista enquanto o sistema não atingia seu espectro instantâneo e simultâneo – a globalização. Os interesses políticos se dissolvem no espectro volátil do mundo financeiro. Agora não é mais possível imaginar um corpo político rígido capaz de submeter-se à vontade popular, mesmo porque o mundo social está fragmentado, de modo que a sorte das minorias está particularmente voltada para questões econômicas de mobilidade no interior do sistema.
A violência política é mais uma das faces da violência que nos atinge como doença social que se alastra rapidamente, mas a atinge de forma peculiar, uma vez que os problemas políticos estão todos no sentido de serem enfrentados como mecanismos de proteção ao próprio sistema. A corrupção favorece o capitalismo, assim como a pretensa máscara da não-corrupção. Não é a política que cria a agenda social, mas, ao contrário, é a economia que impõe uma agenda à política que se torna, em muitos casos, apolítica. Assim como em outras instituições sociais, os políticos ainda continuam a crer piamente que sua ação é das mais relevantes para o mundo e para a organização social, pois crêem na possibilidade da honra da política que, via de regra, está completamente perdida e desmoralizada. Tenta-se, no entanto, frear as condições avassaladoras do modelo social do trabalho, do valor e da mercadoria. O fetiche do Estado é um dos mais permanentes em nossa formação contemporânea, a arquitetura social requer de cada um o esforço de compreender que tanto a política quanto o Estado servem ao modo pelo qual pode se manejar a economia com uma certa ética distributiva, legitimando o esforço coletivo em favor da sociedade do trabalho e do acúmulo do capital, que favorece direta e indiretamente o próprio Estado. A banalização e a mediocridade políticas, a queda do nível intelectual dos políticos, a falsa importância e o cínico interesse demonstrado pelos meios de comunicação de massa, reforçam a idéia de que a política deve ser tratada apenas como um caso de polícia, colocando os corruptos em uma jaula blindada e com isto, seríamos capazes de criar uma segurança para gerirmos com honestidade os negócios do Estado, pois é disto que se trata.
É muito difícil reconhecermos que a política sucumbiu ao capitalismo em sua totalidade. Os casos e exemplos se multiplicam aos montes. O poder executivo transformou-se em um cofre público, um banco cuja função é negociar “politicamente” os recursos que pertencem ao trabalho-valor da sociedade em geral. Precisa de mais recursos para gerir e distribuir, sustentar os trabalhadores e necessita de um verniz legal que legitime o destino dos recursos. Os políticos, em parceria com os próprios partidos, sabem deste jogo e o assumem categoricamente em sua prática, mesmo que o discurso permaneça no campo da moralidade pequeno-burguesa e da ética do politicamente correto.Isto tudo não tem nada a ver com a conduta heróica de políticos ou de partidos que permanecem no campo tanto da moralidade quanto da ética de modo geral.a sociedade insiste em manter um organismo e quer reformá-lo no que é apenas a aparência do processo, a ponta do iceberg, aquilo que aparece que denota uma certa conformidade e um compromisso pífio de moralidade da coisa pública. De outro lado, os movimentos sociais pedem maior honestidade dos políticos. Então, tem-se a impressão de que em parte a questão se resume a bons e maus políticos, entre um bom capitalismo e um capitalismo subterrâneo que insiste na desonestidade; entre um capitalismo legal, que paga seus impostos e um capitalismo obscuro, entrevado pelo egoísmo, pela usurpação da coisa pública; entre políticos socialmente corretos e políticos socialmente tarados.

domingo, 9 de setembro de 2007

O COLAPSO DA EDUCAÇÃO ATUAL

Textos de Abertura da Apresentação do Grupo de Estudo
Para o Fórum Mundial da Educação
Para o dia 14 de setembro de 2007



Atanásio Mykonios`
Paulo Marques
Kelen Chacon


A compreensão do problema social da Educação atual passa por uma propedêutica histórica, isto requer que tenhamos como base inicial para o entendimento acerca do que podemos chamar de colapso, de um estudo histórico, que trará à tona parte das razões que poderão explicar o problema vivido. Implica reconhecer que a Educação é um processo que acompanha a cultura, é expressão da passagem histórica do saber acumulado pelas gerações passadas, pela experiência, pela produção material e simbólica.
Por isto, a história não pode ser colocada em um quadro, mas deve ser trazida à baila como uma tentativa de empreender uma visão do todo e das transformações vividas pela escola que são as nossas próprias experiências. Sem dúvida, vivemos um momento de extremo mal-estar, frustração, e de uma profunda nevoa que encobre o ensino. Estamos diante de uma nova realidade e que nos deixa tristes. Não conseguimos ensinar, os alunos não conseguem e, de alguma forma, farejamos que não querem aprender. Não se interessam, não dispõem de ferramentas adequadas de cognição. Por outro lado, como o processo formal de ensino é seqüencial, cabe jogarmos a responsabilidade no passado e nas séries anteriores. Nossa frustração e nosso sentimento de profunda inferioridade material diante do mundo desenvolvido exigem que tenhamos uma reparação moral, porque somos diariamente desrespeitados em nossa honra como professores e o Estado, a quem servimos com profunda má-vontade, não dá uma resposta porque não pode fazê-lo, está refém como todos estamos de uma situação que experimenta profundas mudanças que não estão contidas em apenas um protagonista.
É a transformação social. Os fundamentos do jogo continuam os mesmos. Estes fundamentos do capitalismo, substancialmente, não sofreram mudanças. O que mudou? O jogo permanece, alguma coisa no jogo está mudando, mas o jogadores não perceberam com clareza esta mudança. O jogo é maior que os jogadores e, no entanto, os jogadores imaginam que podem dominá-lo apenas vencendo os contendores. Há uma luta entre os diversos times que jogam o jogo, pobres, estado, instituições, religiões, família, classes médias, os gestores do capitalismo, as forças produtivas, os movimentos, os miseráveis, os fanáticos, os doentes, os ignorantes, enfim, há diversos times que disputam o jogo, mas o jogo não é de um único time.
Cabe a nós fazermos uma crítica social e uma crítica baseada em reflexões que não se encontram em mecanismos de contenção, ou de compensação paliativa dos problemas que enfrentamos. Trazemos uma tentativa de compreensão do problema da Educação atual e defendemos, como tese e ponto de partida, a constatação de que a Educação vive o seu momento histórico, o momento em que muitos imaginaram que não chegaria, e que tantos outros até sonharam com este momento, que poderia representar, ao menos, um ponto de inflexão e de tomada de consciência do problema da Educação. Muitos de nós imaginávamos que ao chegarmos neste presente, o do Colapso, então algo poderia ser erguido da poeira deixada pela tragédia, mas podemos, ao contrário, observar que a crise se alastra e o Colapso não é apenas exatamente estrutural, como um edifício que desaba, mas um Colapso de toda a concepção do modo de se jogar o jogo.
Sem dúvida, há outro elemento que se agrega a esta questão: o fato de que o termo Colapso tem um sentido de provocação e interpelação na medida em que com este podemos encontrar ao menos alguns ouvidos atentos para apreender o que temos a dizer acerca do problema social da Educação.
Neste sentido, vale ressaltar que a Educação é a conseqüência de um modelo social, modelo este que engendra a produção material, a produção imaterial, a produção simbólica, o tempo social, o espírito de uma cultura. Tem a ver com questões práticas, questões de ordem pragmática e, categoricamente, diz respeito a escolhas sociais, escolhas que estão para aquém e além do simplesmente subjetivo, trata de formar uma consciência social e aprofundá-la para uma grande parte dos indivíduos, como sujeitos sociais.
Mas, por outro lado, nem sempre a Educação anda no mesmo compasso do espectro social, há profundos descompassos, em que muitas vezes a sociedade caminha com uma velocidade e a Educação anda em velocidades mais lentas. E é o que parece acontecer com nossa Educação atual. A sociedade avançou em sua estrutura produtiva, mudou sua qualidade de conhecimento, alterou a produção material com o incremento de mudanças profundas na ordem da tecnologia, alterou as relações de trabalho, as relações humanas, modificou as necessidades, mudou as relações políticas, o Estado tem uma nova prerrogativa, mas parece permanecer atado a interesses fisiológicos. E, diante disto, a Educação se transformou em uma bandeira da modernidade, ela garantiria o bom comportamento, a inclusão social, a disciplina, a ordem, a obediência, a certeza de que as luzes penetrariam na consciência humana e a salvariam da ignorância e das trevas sociais. Uma bandeira que não consegue ser desfraldada, tornou-se um pesadelo o ensino, tornou-se uma cruz estampada nos olhos dos professores durante os intervalos na sala de encontros com os colegas. Evasões, doenças, frustrações, recalques, violência, agressões, tristeza, desmotivação, perda de incentivo, pressões burocráticas, estruturas falidas, etc. Um tempo de profundas inquietações. Um tempo em que parece ser necessário auscultar o tempo presente, colocar-se em uma atitude crítica e questionar a sociedade como um todo.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

PARA UM SENTIDO ACERCA DO ENSINO DE FILOSOFIA

Por Atanásio Mykonios

O ensino de Filosofia se tornou uma realidade, particularmente no Estado de São Paulo. Por meio de um decreto oficial, o Ensino Médio, o EJA, alguns projetos de Ensino Integral, além da perspectiva de que as escolas privadas incluam Filosofia em seus currículos, hoje há uma demanda que exige uma série de considerações e que estava reprimida devido a um histórico de autoritarismo que caracteriza nossa realidade. A começar pela possibilidade da própria Filosofia figurar como uma matéria com o mesmo estatuto que as demais disciplinas que vogam nas grades curriculares, temos os mesmos direitos que os físicos, químicos, letratos, lingüistas, biólogos, matemáticos, etc. É provável que não estivéssemos preparados para atender a esta demanda, que foi brutalmente reprimida ao longo de todos os anos de regime militar.Os governos ditatoriais cometeram um crime de lesa pátria ao serem extremamente eficientes em solapar a educação de base e transformar o ensino acadêmico em mera correia de transmissão das necessidades técnicas do então “milagre brasileiro”. Some-se a isto o fato de que nossa Escola não está preparada para a democracia, para a liberdade, para a diversidade social. Mas o ganho substancial que ora observamos é que as massas penetraram a escola por meio da democratização de acesso, no entanto, nossos cursos superiores permaneceram fechados, conservadores e elitistas, ofereceram um ensino hierarquizado, baseado nas formalidades de relação entre professor e aluno. Mesmo que a Escola tenha tentado heroicamente abrir caminhos nos processo de ensino e aprendizagem, nossas comunidades permanecem no veio histórico característico da nossa cordialidade, o autoritarismo disfarçado de cinismo social, mascarado pelo tapinha nas costas e pela grande capacidade de fingirmos que não temos problemas.Há inúmeras indagações acerca do ensino de Filosofia nas escolas públicas, encontros, reflexões, material em profusão é continuamente destilado a fim de darmos resposta a um problema que aflige os professores de Filosofia, a saber, a final, o que fazer em sala de aula? Como manter a honra da Filosofia com seu cabedal e a tradição de séculos, que vararam mais de dois mil anos de história do Ocidente. Ainda não sabemos como lidar com as reais condições da sala de aula e criar uma seqüência programática, parece, de certa forma, refletir a dificuldade em encontrar um ensino metodológico. Afinal, o que é melhor oferecer à 1ª série ou à 2ª série? Sócrates, os naturalistas, Platão, Aristóteles e sua Metafísica ou a Ética a Nicôcamo? Quando poderemos abordar o sistema hegeliano com os alunos da 2ª série, a dialética e o processo do real? E quanto à Escola de Frankfurt, nossos alunos terão algum dia o direito de conhecer aspectos sobre a Dialética do Esclarecimento, sobre a Indústria Cultural ou, quem sabe, a crítica a nossos valores ocidentais, feita por Nietzsche, Para além do Bem e do Mal? É bem verdade que nossas salas de aula são o retrato do pandemônio, e aqui não me refiro a um ou outro docente que tem a sorte de encontrar uma sinergia com suas turmas, de modo geral, estamos submetidos a um inferno que espelha o colapso institucional da Escola. Quem sabe devamos nos especializar em terapia filosófica grupal!Mesmo assim, insistimos em oferecer um inventário sobre os filósofos e suas escolas, isto é importante, mas como poderemos criar nos alunos o gosto pelo pensamento alheio se a própria Filosofia, até agora, não me parece ter sido capaz de oferecer um olhar original sobre a nossa própria condição, sobre o homem e sua realidade, o homem brasileiro, este homem que foi exaustivamente abordado por muitos campos de atuação brasileiros. Trata-se de reconhecer a universalidade e a originalidade do pensamento alheio, mas este está visceralmente vinculado a um contexto e a uma cultura. Fomos educados a não fazer uma ponte entre nosso contexto e a Filosofia, que parece flutuar incólume pelas nuvens ideais que se movem, mas em nalgum momento, elas descem ao chão. Por outro lado, quantos de nossos alunos conhecem nossos filósofos brasileiros mais importantes?Estamos diante de um problema estrutural que exige uma apreensão política da questão, pois de um lado temos a Filosofia como campo de pesquisa que avança assustadoramente em águas cada vez mais profundas, sendo que muitos dos nossos teóricos são internacionalmente reconhecidos por sua competência, por sua dedicação e empenho. De outro lado, encontramos o ensino de Filosofia que é dado pelas escolas oriundas da igreja católica, que têm por tradição situar a Filosofia como um apêndice institucional para a formação de um contingente de sacerdotes que, via de regra, não permanece na estrutura eclesial e migra para o campo da licenciatura, compondo assim um enorme exército de ex-seminaristas, ex-padres, ex-freiras, freiras (com todo respeito a esses profissionais!) os chamados leigos que estudam nessas escolas e que estão na sua grande maioria a lecionar Filosofia nas escolas públicas. Ou, por outras instituições cujas identidades não se mostram estruturadas para a pesquisa, mas tentam desesperadamente um lugar no mundo do pensamento filosófico. A burocracia e a estrutura exigidas fazem da Filosofia serva dos mecanismos produtivos. Qual a conseqüência? Um fosso enorme. As escolas da igreja não preparam para um senso crítico, apenas para um senso tomista ético, sem grandes repercussões e comprometimento, nossos professores se vêem manietados em torno de determinadas correntes e as pesquisas consagradas na grande academia jamais chegarão às salas de aula, a não ser daqui a 200 anos. E quando ingressamos na estrutura estatal de ensino temos poucas noções acerca de filosofia da interrogação, apenas, como bem disse Bertrand Russel, tratamos de enfatizar a filosofia da felicidade e da conversão, típica de um modelo de pensamento que vem da tradição aristotélica que fundou, de alguma forma, nossa cultura intelectual, no período colonial. A Filosofia moderna é vista com certo receio. E as escolas pesquisadoras aprofundaram a leitura a ponto de se afastarem desta realidade que urge e grita, a Escola de base.Então podemos dizer que há duas Filosofias no Brasil? A Filosofia dos especialistas e pesquisadores, os que se tornam referência filtradora dos grandes estertores da produção do Ocidente e a Filosofia do baixo clero, que se empenha desesperadamente em oferecer alguma luz para os milhões de alunos que entopem as escolas, que, por seu turno, se transformaram em depósitos de gente humana?Muitos filósofos migraram para outras áreas, especialmente para a Educação ou para a Psicanálise, a História, enfim. Isto pode indicar que há áreas de atuação que nos parecem mais promissoras do ponto de vista prático quanto aos resultados. Hoje, a Filosofia, esta Filosofia do baixo clero está sendo empurrada para pensar a si mesma no campo da Educação e aquilo que lhe é próprio é deixado para a grande Filosofia. Os problemas da Educação permanecem, são a expressão de um modelo social, que impõem à escola a promessa de que pela Educação seremos salvos, mas não poderá ser cumprida no futuro. A Escola está formando um exército que jamais servirá para o propósito de sua promessa. Prometemos especialmente aos pobres que a Escola é o lugar e a morada da inclusão pelo trabalho, isto está em franca decadência. A honra perdida da Escola!Daí sermos obrigados a discutir as questões relativas à Educação e ao ensino de Filosofia, pela via da Filosofia da Educação, estamos em um campo relativamente minado, porque não temos a condição de atuar conforme o que é precípuo à Filosofia, problematizar todo o contexto social, político e ético da Escola. Creio ser importante perfilar a discussão no campo do domínio da Educação, pois o que fazemos em sala de aula é, em última instância, Educação, mas também é preciso aprofundar nossa realidade, avançar, interpelar a Escola, seus agentes, sua comunidade, provocar a reflexão sobre as questões emergentes tanto quanto aquelas de perspectiva.O estatuto da sociedade contemporânea está prestes a receber um carimbo de impasse formal, uma vez que as condições de reprodução do sistema estão a provocar reflexões de fundo acerca do processo produtivo, do consumo, do trabalho, da tecnologia e sobre a exploração dos recursos e sua conseqüente exaustão. Em outras palavras, necessidade e tempo serão dois elementos que farão parte do nosso cardápio pedagógico muito em breve, no entanto, ainda não adquirimos a consciência de que estamos diante de escolhas sociais que obrigatoriamente deveremos fazer. Achamos que estas escolhas recairão sobre nossos netos, mas estamos enganados, pois vivemos o olho do furacão!Muitas vezes entramos em sala de aula como se o mundo estivesse pronto, acabado, com seus paradigmas formados e o futuro garantido, e tentamos nos proteger como domadores de leões metidos na arena da estupidez. Lecionamos nossos conteúdos filosóficos com vistas a um passado de conceitos, idéias, silogismos, estruturas éticas e políticas das quais não nos damos conta de que o mundo é o aqui e agora e que nos aponta para problemas reais dos quais não devemos nem podemos nos furtar, sob pena de sermos absolutamente engolidos pelos acontecimentos, a ponto de nos tornarmos anacrônicos e sem qualquer possibilidade de intervenção concreta sobre este mundo.De modo geral, é possível observar que a Filosofia e seu ensino no chão das salas de aula tem se arrastado como outras disciplinas, estas, mais legitimadas por uma sociedade ávida por ciência, por respostas pragmáticas, cujos conteúdos são oferecidos com vistas à preparação técnica e em virtude dos vestibulares. Mas a Filosofia! Ora, não encontra espaço na Escola, está confinada a um decreto que obrigou a uma mudança na grade curricular, mas, de certo, a sociedade ainda não se convenceu de sua “utilidade”, a não ser no sentido de ensinar a pensar e a oferecer certos preceitos éticos metafísicos que servem a um tipo de sociedade apartada dos problemas sociais e mergulhada e uma profunda desigualdade social.Aprender ética em uma sociedade cujos parâmetros de classe são abissais requer um exercício de engessamento da realidade a fim de colocar todos os espíritos manietados em uma mesma fôrma conceptual, e isto me parece ser um enorme exercício de fantasia especulativa, que se aparta da realidade. Por isto, o ensino de Filosofia não poderia, a meu ver, restringir-se a um punhado de enunciados nem no inventariar a trajetória do pensamento filosófico. Mas é preciso reconhecer que temos pouco a oferecer que não o nosso próprio esforço e dedicação, nosso empenho e a crença de que é possível marcar a diferença em sala de aula, pois nos HTPCs, nas salas de professores, nos corredores ou nos encontros de ADD, nossa ação se restringe ao ervanário comum e simplório do cotidiano social desta grande comunidade sem identidade que é a nossa Escola.Isto precisa e deve mudar! Talvez programas de formação social, de formação ética, de formação política, de leitura da realidade, de ampla discussão, de mudança de cultura e transformação do olhas sobre a realidade. Isto leva tempo!