quinta-feira, 14 de agosto de 2014

AS CONTRADIÇÕES NA FORMAÇÃO SOCIAL

Atanásio Mykonios




A sociedade construiu uma ideia difusa acerca da educação, da ciência e do conhecimento. Ideia difusa porque há um elemento contraditório que marcou historicamente ambas as esferas destas na forma de ação social a partir dos séculos XV, XVI, XVII e os subsequentes. Mantemos, ou perseguimos aquela atitude iluminista, apostólica e quase missionaria dessas dimensões. Essa pecha nos persegue até a atualidade. Pensamos sempre que o conhecimento é libertador, que a vida pode ser melhor se conhecermos mais e com mais profundidade. Aprendemos que a educação é um processo civilizador por excelência, e a civilização implica a noção de que há quem não seja civilizado se não passar pelo processo educacional que grassa atualmente. Essa condição também nos persegue continuamente, imaginamos, sobretudo, que aqueles que não são educados ou que, ainda de modo mais radical, não querem ser educados, serão lançados na condição de bárbaros, mas, o discurso sub-reptício é que não poderão ser incluídos no modo civilizatório do capitalismo. Essa visão me parece muito recorrente em nossa sociabilidade. O conhecimento me parece ser outro aspecto dessa moeda de troca entre as pessoas e a esfera ideológica que mantém essas relações relativamente escamoteadas, sob a égide da dominação social. O conhecimento, desde os gregos, tratava de trazer à luz o escondido, ver é conhecer, conhecer é, fundamentalmente, ver – a luz nos coloca diante do que é, para aquém e além de nós. A luz é a grande metáfora do processo do conhecimento. No entanto, mais uma vez, estamos imersos em contradições absurdas. Afinal, o que deve ser conhecido? Quem determina o que deve ser conhecido, quem deve afinal conhecer e em que condições se dá esse conhecimento? Não se trata de negar ou eliminar o conteúdo dialético que está no cerne do conhecimento, nem ao menos excluir o fato de que o conhecimento é um processo histórico com o qual o ser humano está imbricado até as suas entranhas. Não é possível, por outro lado, do ponto de vista fenomenológico, que um ser humano em condições normais possa conhecer tudo, há que proceder a uma escolha - no que concerne à objetividade desse processo. Mesmo que haja liberdade total, o leque do conhecido deverá ser submetido a determinados critérios e objetivos. Não se conhece tudo, porque é necessária a escolha para o conhecer. Então, temos de nos perguntar, quem escolhe o que deve ser conhecido? Se considerarmos o fato de que o conhecimento é também uma relação social, posso inferir, sem grandes elucubrações que a decisão sobre o conhecido, sobre o ato de conhecer engendra poder político. Em outras palavras, a sociedade decide que certos conhecimentos devem ser transmitidos e outros deixados para momentos outros ou simplesmente deixados de lado – há prioridades no conhecimento. Portanto, outra contradição se apresenta – estabelecida entre o conhecimento e a decisão política acerca deste. Toda contradição pode nos colocar diante da alienação. O que isto significa? Que ao não assumir a contradição, nos alienamos do processo de enfrentamento desta mesma alienação, isto é, estamos apartados da relação que implica a contradição, ou melhor, a contra-adição . Pois bem, prossigamos. Chegamos a um dos cernes da sociedade contemporânea – a ciência. Os primeiros pesquisadores da nova forma de conhecimento imaginaram que esta seria o caminho para a libertação total do homem, por meio da pesquisa, do desenvolvimento das capacidades intelectuais do ser humano – capacidades objetivas e subjetivas –, do enfrentamento de todo e qualquer dogmatismo, da superação da menoridade (como Kant denomina), etc. No entanto, essa carta de boas intenções da ciência não durou muito. Gradativamente, a ciência foi capturada pelo modo de produzir mercadorias e a sociedade produtora da valorização do próprio valor do capital se alastrou. Estado, capitalistas, instituições, partidos, sindicatos, movimentos sociais, etc., (por razões históricas que me permito não aprofundar aqui) foram e continuam a ser capturados pelo capital e pela forma social do valor-capital. Entramos na terceira contradição, a que nos mostra que de um lado há a ideia pura da ciência a favor da humanidade e a ciência que atua para garantir que os concorrentes do capital conquistem o mercado. Estamos agora no interior de três contradições engendradas pelo capitalismo. E para manter convergentes os dois lados da contradição, desenvolvemos o discurso ideal acerca da educação, do conhecimento e da ciência, porém, de forma ainda mais perversa, do ponto de vista histórico, nutrimos e reproduzimos todos os mecanismos que estão na lógica interna do capitalismo. Educação, conhecimento e ciência são as faces de uma realidade que nos domina e da qual não temos domínio algum, quem estipula as condições, o que deve ser educado, conhecido e cientificizado é o capitalismo e não a sociedade autônoma e emancipada. Nisto, vale lembrar que esse processo social ocorre de modo que o discurso acerca de está impregnado de uma pretensa emancipação dessas esferas, o que parece não conferir com a realidade. Dessa forma, é preciso não uma educação que liberte, um conhecimento que emancipe e uma ciência que nos dê a compreensão da natureza e das relações entre nós e o mundo. Essas dimensões têm um caráter histórico, consolidadas na trajetória humana, de modo que não poderemos jamais abrir mão daquelas. É preciso eliminar essa forma-capital em sua totalidade antes de prosseguirmos. Também não podemos deixar de reconhecer, eminentemente, que todas as sociedades educaram e continuaremos a educar - não depende do capital essa ação humana, depende de si mesma, de suas condições sociais, materiais, de suas relações e necessidades. Assim, eu penso, honestamente, que não há espaços para que esse trinômio ocorra em bases de libertação e emancipação humanas, porque está atrelado às condições de produção social da fábrica do valor-capital. O resto é apenas digressão e formalidades burocráticas. Educação, conhecimento e ciência não nos libertam neste atual modo de produção, uma vez que educação, ciência e conhecimento estão manietados pelo sistema. Estamos presos à lógica social e ideológica do capital que regula as relações sociais como um todo e neste sentido, atados a uma educação que apenas reproduz, uma ciência sem conhecimento e um conhecimento sem ciência da realidade a que estamos submetidos.

terça-feira, 29 de julho de 2014

No Caminho do CAPITAL ou a Destruição da FAIXA DE GAZA

Por Atanásio Mykonios

É difícil entender o conflito na Faixa de Gaza sendo um brasileiro, com fortes marcas da cultura não judaica nem islâmica, como um ocidental de esquerda. Mas não é nada difícil compreender que há nessa questão uma força de Estado agindo como ato terrorista.

fonte: blogdofavre.ig.com.br

O governo israelense está decidido a avançar o máximo que pode no território a fim de exterminar o Hamas de uma vez por todas. Mas não é só o que aparenta, Israel quer promover uma limpeza à moda de tantas ocorridas ao longo do século XX. Ainda assim, esses propósitos não explicam a magnitude desse ato. As forças armadas israelitas estão dispostas a pagar o preço calculado de uma catástrofe humana até o ponto em que a situação se torne insustentável, do ponto de vista da pressão internacional. Há um preço a pagar quanto à luta política no cenário internacional, Israel está sendo bancado pelas grandes potências e ninguém irá barrar isto a não ser as estas potências ocidentais, quando lhes aprouver e em acordo com Israel. Em outras palavras, o cálculo foi feito, levando em conta o potencial de destruição - há um prazo para fazer a limpeza, após esse limite, os próprios aliados entrarão em cena e farão seu teatro midiático, exigindo que as forças israelenses retrocedam, até aí, os objetivos necessários terão sido alcançados – destruição total e redução da Faixa de Gaza a um imenso campo de refugiados em seu próprio território.

Nesse sentido, não há força que possa barrar esse processo, o governo de Israel tripudiou sobre as declarações do governo brasileiro, e o fará com qualquer um que crie constrangimentos, de fato, nem a ONU será capaz de barrar o que está acontecendo no momento. Trata-se de uma máquina de guerra absurdamente superior a tudo que está presente no Oriente Médio. Este conflito provocado por Israel pode ter várias facetas. Ou várias causas. A própria ONU fala em crimes de guerra, o embaixador de Israel na ONU também fala em crime de guerra. Os israelenses têm um sentimento de ódio, os palestinos idem – a luta pelo melhor discurso na guerra é um fator de sua condição. Mas isso não é suficiente, é preciso uma série de razões que extrapolam as contendas locais. Gaza é um enclave, uma região demarcada e mantida com a força militar que a condena a uma dependência criminosa. Concentra uma demografia elevada, com problemas dos mais diversos. Os movimentos militares e os movimentos de guerra, no capitalismo, são ambos financiados, é preciso saber quem financia para minimamente entender as razões desse processo. Para o Ocidente, Israel é uma fonte inesgotável de interesses, é também um enclave constituído de forma hegemônica com o auxílio do contexto que à época vigia e das grandes potências aliadas, vencedoras da Guerra Mundial. É uma força militar inquestionável, ninguém se atreve a enfrentar tamanho poderio concentrado.

Fonte: www.gamedesire.com

Na verdade, a força militar israelense é a mais eficiente do mundo não em extensão, mas em concentração de esforços e metas. Seus vizinhos não são páreo, nesse sentido, os palestinos estão à própria sorte, tendo de recorrer a organismos internacionais, o que ainda é pouco, condenados a um extermínio. A Rússia está imbricada com problemas na sua região, mas no passado ela tinha uma influência importante, especialmente quando da ação da OLP (Organização para Libertação da Palestina), no entanto, agora, a não ser que seja interesse de Putin estender suas coerções da Síria à Faixa de Gaza, nada poderá deter essa incursão desastrosa no interior da faixa de Gaza. É o momento para Israel, afinal sua arqui-inimiga a Síria, que está em frangalhos com uma guerra fratricida que já ceifou mais de 170 mil vidas. A mobilização das esquerdas e de movimentos sociais pelo mundo afora não consegue criar uma força capaz de dissuadir politicamente o governo de Israel, ao contrário, este tripudia sobre todos. Este irá parar quando cumprir suas metas. O grande problema é identificar as razões que estão em causa nesse processo. Razões internas e razões macrorregionais, para além das fronteiras do Oriente Médio. Os colonos israelenses exercem uma pressão permanente sobre o Estado de Israel, têm poder político e mobilização, isso se deve ao fato histórico de que colonos e grupos ligados à terra são mais conservadores, por vezes reacionários e extremamente beligerantes. Esse é um elemento fundamental para Israel, a terra, a posse e a produção, tornou-se um fator de desequilíbrio na região com a política de Estado e assentamento progressivo desses colonos. Outro aspecto é que, diferentemente do que ocorre no território israelense, a Faixa de Gaza é ocupada por uma população que causa pânico em seus vizinhos. Mas a unidade dos palestinos parece estar longe de se concretizar. Mas é preciso lembrar que os palestinos foram vítimas, desde o início da ocupação do território, por parte de uma força desproporcional, nesse sentido, não se pode falar em organização terrorista mas em ação revolucionária permanente que, em vista da opressão de Estado, não há outra alternativa a não ser uma ação para libertar a Palestina dessa opressão. Por outro lado, a ação do exército israelense é uma das últimas coordenadas em larga escala, promovidas por um exército regular de grande envergadura. Podemos ainda observar que o exército sírio está em combate regular há mais de dois anos e, nos últimos meses a ação regular das forças ucranianas contra separatistas do leste da Ucrânia ganhou vulto. Na África observamos lutas intestinas, a Líbia está em um processo de desagregação, tendo como pano de fundo o controle do petróleo. Na Ásia grupos separatistas, mas ainda não se observa uma ação regular de grandes exércitos pelo mundo. Os norte-americanos mantêm forças regulares no Afeganistão, e espalhadas por todas as partes, bases militares, Inclusive,  ouvi um professor nos dizer que havia mais de 700 bases estadunidenses em todos os continentes.  O que isto significa? Os grandes exércitos não estão em ação. Nem os russos, nem os britânicos, nem os franceses, nem os americanos nem os alemães ou mesmo chineses ou indianos.

Existem as escaramuças cotidianas, ameaças, bravatas, chantagens, retaliações econômicas, diplomáticas e políticas. Isto significa que as grandes forças militares não estão em ação direta no momento. O que há é um esforço para conter conflitos locais e regionais que, de alguma forma, se interligam por meio de redes de financiamento ou de incentivá-los de forma indireta. A questão é que há um conflito que se estende da Ucrânia até Bagdá e pelo sul até Gaza e penetra a África pela Líbia e desce para o sul, espelhando-se pelo continente. Essa região está mergulhada em um banho de sangue. Coincidência ou não, essa região tem gás e petróleo. A luta pelo controle dessa região implica controlar e se possível defenestrar os grupos sociais que estão no caminho da rota de abastecimento dessa energia vital. Isso pelo fato de que esses grupos são e serão um empecilho para a rota de suprimentos, exatamente no momento em que Europa e EUA estão em crise sistêmica-estrutural. Nada indica que esses conflitos terão um fim pacífico até que as condições desse controle estejam absolutamente  dadas. Essas regiões estão se dissolvendo a olhos vistos, o que ocorrerá com as populações locais é ainda uma incógnita, no entanto, me parece crível imaginar, com o que temos em mãos, que estarão à mercê de forças transnacionais que controlarão essa região pulverizada por décadas de guerra. Essas forças serão compostas por um exército mundial. A meu ver isso não tem a ver com questões milenares relativas a diferenças religiosas e étnicas inconciliáveis, essas questões são uma espécie de estratégia diversionista que utiliza grupos extremistas para publicizar um conflito que não se sustenta apenas por ódios viscerais historicamente constituídos. Estados-nacionais, grupos extremistas, terrorismo, separatismo, são elementos de uma mesma realidade que se move em direção a um acerto de contas sobre o futuro próximo do capitalismo. Não se fala mais em ações revolucionárias. Essas populações estão no caminho desse projeto de larga escala, estão abandonadas porque nem mesmo seus estados-nacionais existem mais. É uma maneira que o grande capital encontrou para criar um modelo de administração fazendo implodir esses territórios que foram anteriormente constituídos à força e a fórceps, foram juntados povos e tribos em favor de um modelo burocrático muito à necessidade do capitalismo de estado, contudo, esse estado-pseudo-nacional não é mais interessante ao movimento que é impingido pela nova classe de tecnocratas globalizados, pelo movimento do capital que precisa encontrar saídas para garantir a produção insipiente produção de valor e para isto lança mão de novas estratégias que culminam na dissolução de estados fictícios.


O que importa é que essas regiões serão, doravante, zonas livres, onde as populações viverão um regime de extrema beligerância sem rosto definido, com total abandono e uma espécie de governo sem governo, enquanto a produção estará a cargo das empresas mundiais – o governo mundial está em vigência. Este governo englobará empresas, corporações, uma burocracia estatal-empresarial, uma força policial arregimentada em qualquer lugar do mundo. Nesses lugares que, de alguma forma, já se vive um ambiente em que o que existe é a lei do valor, assim como em outras zonas fora de controle, sem uma administração que burocratize a distribuição e a circulação. O que importa é que os nichos de produção fiquem nas mãos das grandes transnacionais e de seus aparatos administrativos. Outras regiões terão os estados-nacionais, cada vez mais enfraquecidos e sem possibilidade de articularem uma reação, a não se assumirem um confronto de magnitude indefinido no horizonte provável. Por isso, não me parece que há condições de barrar esse processo, nem mesmo os supostos opositores desses grandes movimentos do capital, uma vez que os BRICS, por exemplo, estão na corrida por espaços no mercado mundial. Os palestinos estão o caminho desse processo.  

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Morte de João Ubaldo


Cada vez mais pauperizados ficamos quando um escritor nos deixa. Mais frágeis nos tornamos porque nos deixa não apenas a pessoa do escritor, mas, sobretudo, a sua capacidade de nos oferecer mais uma metáfora de nós e do mundo. E quando perdemos a metáfora o próprio mundo se torna mais bárbaro, mais bruto, menos amoroso, menos lúdico. Daí, aos poucos a vida perde o gosto e a mercadoria, a bala, o canhão, a burocracia assumem a vida. Pena. Mas os escritores nos deixam seu suor em forma da palavra. Vai em paz João Ubaldo, porque nossa tarefa não acabou ainda.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Eu vi Pelé jogar! E daí? - O Incidente no Futebol Brasileiro

Por Atanásio Mykonios



Não valeria de nada ter escrito este pequeno artigo antes ou durante a Copa do Mundo, seria um tiro no escuro dadas as condições de ilusão em que ainda nos encontramos.

Houve um período na história do futebol brasileiro em que ocorreu um fenômeno incidental. Um círculo virtuoso que durou pouco tempo. Mesmo tendo se tornado um esporte de massas, o desempenho internacional do futebol do Brasil era mediano até 1958. A Copa do Mundo de 1958 revelou para o mundo uma geração absolutamente genial e que me parece foi um incidente histórico na trajetória até então sem muito brilho. Essa geração ganhou três copas num intervalo de 12 anos, jamais antes nem depois nenhuma seleção havia conquistado tal feito. Isso mostra que nesses 12 anos o futebol brasileiro se tornou um fenômeno sem precedentes. Aquela geração terminou um pouco depois da Copa de 1970, e a partir daí o futebol canarinho teve de amargar 24 anos até a próxima conquista e mais 8 para a segunda. Após essa fase de ouro, parece que o nosso futebol voltava às antigas formas de sofreguidão que persistem até hoje.



Mas o que havia de tão especial naquela geração? Antes de tudo, é preciso reconhecer que criamos uma ilusão de ótica ao ver aquele oásis de genialidade, talento, originalidade e inteligência. Fomos convencidos de que o futebol brasileiro era, por essência e por natureza, o melhor do mundo, o mais impressionante, marcado pelos dribles desconcertantes e pela capacidade de vencer qualquer adversário. O que havia, no entanto, de especial, além da genialidade era a inteligência. Naqueles 12 anos, o jogo era ganho dentro das quatro linhas, os jogadores pensavam o jogo, eles tinham nas mãos o controle estratégico, a tática, percebiam as lacunas, tinham visão de profundidade, não necessitavam de truculência nem de grande condicionamento físico. Eram inteligentes! E alguns eram excepcionais de modo que sua imensa visão de jogo possibilitava que o jogo fosse uma construção, um processo.

Outro aspecto é o fato de que os treinadores não tinham o esplendor que hoje se vê. Ao contrário, o jogo era articulado antes e durante o seu processo. O treinador do Santos F. C., por exemplo, passou anos a treinar uma equipe que jogava como quem propiciava uma sinfonia ao ar livre e em movimento e ele mesmo em muitas ocasiões passara despercebido quanto à sua relevância para o time como um todo.



No entanto, após a Copa e 1970, o futebol brasileiro, gradativamente voltava ao seu veio natural, isto é, uma geração parece que chegava ao fim, voltávamos àquela trajetória mediana, com a diferença de que os treinadores passaram a ascender enquanto a inteligência no campo começou a declinar até que chegara a Copa de 1982. Parecia mais um hiato na longa e arrastada jornada mediana do futebol nacional. Era uma geração, a de 1982, que havia sido formada pela genialidade da geração passada, mas ali já não se encontrava o grande gênio da raça espalhado por inúmeros craques e gênios da bola. É bem verdade que tentamos com um treinador bola-pra-frente e um grupo de jogadores que havia sido formado sob o tacão da ditadura militar. Mas mesmo assim, essa geração rapidamente perdera seu brilho.

Em seguida mergulhamos novamente em nossa barca do inferno e amargamos mais de uma década de problemas estruturais e uma sofrível seleção aqui e acolá sendo formada sem muito esmero. Os treinadores, aos poucos, tornavam-se gestores, criando um modelo burocrático de administração do futebol, o que gerou o medo pela experimentação, pelo novo e pela originalidade. Daí em diante, o que nos restava era a imensa burocratização social, como a sociabilidade natural, ou seja, o capitalismo já estava totalmente impregnado e os jogadores seriam, então, um grande e complexo aparato de exploração da mais valia.

Na verdade, passaram-se 24 anos desde a terceira conquista da Copa do Mundo de 1970. Ou seja, somente em 1994, sob a égide de uma final marcada pelos pênaltis, o Brasil se sagrou campeão. Acrescente-se, ganhar uma Copa do Mundo nos lances finais com aquela dose de antifutebol que só os pênaltis podem oferecer e destruí-lo.

Quem comandava aquele bloco dos desvalidos?

Sabemos que há muito o futebol brasileiro não passa de uma usina de mão-de-obra para os grandes centros. O empreendimento brasileiro do futebol é um negócio altamente rentável, a reprodução de valor nesse espectro é absurda e todo controle está nas mãos de uma oligarquia imensamente poderosa. Especialmente no Brasil, que ganha uma imensidão de recursos e parece ser intocável, assim como o judiciário, a polícia, os meios de comunicação, etc. A burocracia empresarial penetrou os campos a partir de 1974 e a partir daí o que se observa é o fim da inteligência, arrancando do cérebro e dos pés dos trabalhadores-jogadores o poder de fascinar o mundo e transferindo esse poder para o cérebro administrativo e lucrativo dos empresários e dos treinadores engessados pela estrutura da produtividade.

À medida que a burocracia passa a gerir o desempenho do futebol com o escopo de fazer gerar e circular valor em forma de gestão, os treinadores se tornam esses gestores intermediários que irão formar gerações de imbecis, monitorados apenas pelos cálculos econômicos e rentáveis. Esse cálculo não tem nada a ver com a ilusão de que o povo nutre até hoje de que existe uma essência no futebol brasileiro que foi conspurcada apenas pela incompetência dos dirigentes.

Ao contrário, afirmo que não houve incompetência no gerenciamento do futebol muito menos na realização da Copa do Mundo no Brasil, os gestores foram extremamente competentes em publicizar um grupo de jogadores que são muito valorizados e que continuarão a sê-lo fora das fronteiras dessa usina de trabalho e exploração.

Na verdade, ocorre que o nível do nosso futebol, quando é para criar um conjunto, é apenas mediano e conta sempre com o ufanismo esquizofrênico da torcida que se apoia em fenômenos esporádicos. O nosso futebol é isso mesmo. Afinal eu vi Pelé jogar e vi uma geração colocar nas nossas cabeças que podíamos mais do que a realidade se apresentava. Mas como afirmei, não passou de um incidente virtuoso.


A burocracia tem a capacidade de destruir a originalidade e a inteligência. Portanto, apenas uma geração foi virtuosa no futebol brasileiro e mundial, o que havia antes e o depois é que são de fato a nossa realidade – temos um futebol mediano, mas extremamente rentável.