sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Qual a diferença?

 Por Atanásio Mykonios

 

Há quem comemore a demissão desse Rodrigo Constantino. É preciso observar que as empresas de comunicação que empregavam esse jornalista, têm ligações com o poder econômico e não seria diferente, não o é de fato. Assim como uma empresa como Facebook, que é um eficiente meio de comunicação para drenar a mercadoria mais valorizada que nós produzirmos - a informação. Qual a diferença entre o jornalista que emite opiniões e ganha dinheiro, em troca dessa atividade, e eu, que escrevo no Facebook? Primeira diferença, a audiência. Segunda, eu produzo pequenos textos, e os algoritmos transformam isso em mercadoria para o sistema do Capital sem qye eu nada receba em troca. Ambas as empresas atuam como elementos-chave tanto do ponto de vista ideológico quanto econômico. Eu e esse jornalista de merda temos mais em comum do que a minha vã filosofia pode supor.

Unidade para quê?

 Por Atanásio Mykonios

 

"Toda unanimidade é burra", disse Nelson Rodrigues. Por que se cobra tanto que a esquerda tem de ser "unida"? Tem-se o pensamento de que a direita é unida e por isso, todas as alas à esquerda têm de se unir também. A direita não é unida, são os capitalistas que conseguem, minimamente, unir-se em torno do Estado para controlá-lo, com sua força política. A esquerda tem de ser plural. O que tem de ser uma força política consistente é a organização dos trabalhadores, pois somos nós, os trabalhadores que sofremos na pele, o poder econômico e político sobre nós, na forma da luta para impor a lógica da exploração da nossa capacidade de trabalho. A esquerda existe e não necessariamente pode representar os trabalhadores. Essa confusão persiste, em grande medida, porque em nossa condição de trabalhadores, somos obrigados a viver sob a égide da subjetividade, devido à total dependência diante do capital. Se temos apenas a nossa capacidade de trabalho para trocar pela subsistência, somos lançados, por consequência, na subjetividade quase absoluta. O problema da esquerda e suas alas é ser capturada pela subjetividade e nisso, nós trabalhadores, vivemos a confusão ideológica, que é típica do fetiche social da mercadoria. Demora para compreender esse processo. A direita sofre do mesmo mal, sua suposta unidade é apenas a soma dos fatores do bloqueio do real significado da exploração e do papel do Estado. A maioria dos membros da direita vive no reino da subjetividade, tanto quanto os trabalhadores em geral.

domingo, 13 de setembro de 2020

A ignorância das relações de exploração e produção

 Por Atanásio Mykonios 


O que mais me incomoda e faz sofrer, no interior das lutas, principalmente na universidade, é que as pessoas que querem fazer política, as poucas que ainda se interessam e se inquietam, não conseguem levar em conta o fator da economia. Isto é, não conseguem entender que a base de toda luta política contra a destruição e a desigualdade começa por entender as relações de poder econômico, as relações de exploração e produção. Quem sustenta a universidade? De onde vem o dinheiro, concretamente falando, quem sustenta materialmente os nossos salários e as nossas ações? Vem dos trabalhadores mais pobres. Como isso não faz parte do entendimento e do horizonte da maioria que trabalha na universidade, há uma abissal indiferença, o que gera um olhar ilusório quanto ao objeto de luta. Então, tentam fazer política sem conhecer a substância dessa realidade. Isso dói profundamente, porque a esquerda e a direita se igualam nesse campo de atuação, são duas esferas completamente alienadas, cujo padrão é sempre moralizar tudo. Enquanto isso, não conhecem aqueles que produzem a riqueza que nos sustenta, ou não querem conhecer, o que parece mais adequado. Nisso, os servidores públicos são tão vítimas do fetiche quanto os religiosos.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Marx contra o Estado

Por Atanásio Mykonios





Para saber o que Marx pensava acerca do Estado, depois do Manifesto Comunista, com ideia em fazê-lo ruir assim como as classes sociais. Ou seja, muito tempo depois, ao escrever sobre a Comuna de Paris, Marx advoga o fim do Estado, e o coloca de modo negativo.

“O 4 de setembro foi apenas a reivindicação da República contra o grotesco aventureiro que a havia assassinado. A verdadeira antítese do próprio Império – isto é, do poder estatal, do Executivo centralizado do qual o Segundo Império fora somente a fórmula exaustiva – foi a Comuna. Esse poder estatal é, na verdade, uma criação da classe média, primeiramente [como] um meio para eliminar o feudalismo, depois [como] um meio para esmagar as aspirações emancipatórias dos produtores, da classe trabalhadora. Todas as reações e todas as revoluções serviram tão somente para transferir esse poder organizado – essa força organizada da escravização do trabalho – de uma mão para outra, de uma fração das classes dominantes para outra. Ele serviu às classes dominantes como um meio de subjugação e corrupção. Ganhou novas forças a cada nova mudança. Serviu como instrumento para suprimir toda sublevação popular e esmagar as classes trabalhadoras depois de estas terem sido combatidas e usadas para assegurar a transferência do poder estatal de uma parte de seus opressores para outra. Foi, portanto, uma revolução não contra essa ou aquela forma de poder estatal, seja ela legítima, constitucional, republicana ou imperial. Foi uma revolução contra o Estado mesmo, este aborto sobrenatural da sociedade, uma reassunção, pelo povo e para o povo, de sua própria vida social. Não foi uma revolução feita para transferi-lo de uma fração das classes dominantes para outra, mas para destruir essa horrenda maquinaria da dominação de classe ela mesma. Não foi uma dessas lutas insignificantes entre as formas executiva e parlamentar da dominação de classe, mas uma revolta contra ambas essas formas, integrando uma à outra, e da qual a forma parlamentar era apenas um apêndice defeituoso do Executivo.”

Karl Marx, Guerra Civil na França, p. 127, Boitempo, 2011.