sábado, 10 de agosto de 2019

Por trás da cagada

Por Atanásio Mykonios



Obviamente devemos fazer chacota das sandices que Bolsonaro diz. Mas há uma convicção por trás de cada pronunciamento. Dessa vez é a lógica malthusiana. Isto é, o problema da alimentação se deve ao aumento da população e, leia-se, o aumento dos pobres. Marx combateu a ideia de Malthus de que o problema social estaria no crescimento da população e que tal aumento traria problemas para a solução de alimentos e outras questões.
Logo, a lógica para enfrentar a escassez seria a contenção do crescimento dos pobres, a regulação da alimentação a poucas doses diárias e a consequência natural é que defecaremos menos. Até hoje há pessoas que ingenuamente acreditam que a guerra é uma das soluções para barrar o crescimento dos pobres. Extermínios, genocídios, confinamentos etc. Todas essas supostas soluções têm defensores em todas as esferas sociais.
Daí a conclusão um tanto darwiniana de que os pobres são responsáveis pela poluição, pelas condições precárias, pela fome, pelos impasses ambientais, isto é, quanto mais pobres, mais consumo, mais demandas estruturais e isto é um entrave para o bom desempenho da economia e, sobretudo, do ponto de vista da limpeza social, as soluções finais seriam um caminho natural e viável para a sobrevivência social.
Portanto, poluiremos menos o ambiente. Assim, essa é também a lógica de milhões de ignorantes e incautos pelo mundo afora. Barrar o crescimento dos pobres. No meu entendimento, isso não é uma piada, é uma crença enraizada que agora ganha status oficial, e política pública estatal.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

A agonia de um tempo

Por Atanásio Mykonios 


      Como tem sido emblemático e crucial este tempo de destruição! Como nos mostra a armadilha onde toda a humanidade está metida.
      Na mesma trilha, seguirmos na consolidação de uma forma social que se tornou hegemônica - a engenharia social do sistema produtor de mercadorias, suas instituições, sua sintaxe, sua sociabilidade.
      Mas agora, essa forma social agoniza, experimenta seu crepúsculo, suas instituições desmoronam, e com elas, a arquitetura social dá os primeiros sinais de implosão, causando terror consciente. 
      Todos os quadrantes estremecem e as multidões de trabalhadores não mais encontram conforto na sociedade das mercadorias nem guarida nas esferas estatais.
      A educação, a política, os sindicatos, os partidos, colapsam ao romper da luz que agora ofusca e faz com que vejamos a dimensão de nossa tragédia histórica.
      Jamais a humanidade teve à sua frente um desafio tão gigantesco. A passagem desta sociedade e deste tempo de agonia para algo novo será a  tarefa histórica mais importante de nossas vidas.
      Estamos em risco iminente, pois para manter o que está podre por dentro, somos capazes de nos esfacelar em praça pública, nos becos armamos emboscadas, nas nossas casas guardamos os segredos de nossos horrores, em nossos lugares sagrados ateamos fogo nos próprios corpos.
      Vemos estarrecidos a regressão intelectual atingir as raias do inominável e a marca desse tempo é o desprezo pela própria humanidade e a indiferença para com o sacrifício dos inocentes.
      Os cânones da economia falharam. Os preceitos morais ruíram. O conhecimento gira numa roda que não mais sairá do lugar. O gozo pelo sofrimento atinge o grau do entretenimento social.
      Toda brutalidade perpetrada pelos Estados e pelas forças do poder revelam a impotência dos poderosos sobre as massas porque apenas têm sobre elas o poder da força bruta para obrigá-las a continuar a produzir para alimentarem um monstro moribundo.
      Toda mortalha que nos assombra é o nosso fantasma, que bate à porta da nossa terrível solidão a nos chamar para o festim da morte social num ritual de ódio e cálculo econômico perverso. 
      Um novo mundo é possível. Ainda é possível. O que nos acomete agora pode ser o começo do fim de um mundo determinado pelas forças ingovernadas do capital. Veremos a manhã renascer se tivermos a coragem de enfrentar nossa miséria histórica e deixar este mundo se acabar.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

996

Por Atanásio Mykonios



Os trabalhadores na China nas áreas de tecnologia, especialmente, da informação, têm sido levados a trabalharem 9 horas por dia, 6 dias por semana. O modelo é denominado 996 – 9 am to 9 pm, isto é, das 9 da manhã às 21 da noite, na semana com apenas uma folga. Ao que tudo indica, esse modo de exploração está por se alastrar em outras áreas de desenvolvimento tecnológico e produtivo. Grandes empresas como ALIBABA estão empenhadas em impor o regime de trabalho, uma vez que a chantagem se torna um elemento natural.
As empresas impõem inclusive sanções e censura deliberada contra os trabalhadores que se manifestam contrários a essa exploração. O que mais chama a atenção é que o governo chinês não mobiliza uma única ação para coibir essa exploração estrutural, ao que parece, muito pelo contrário, o governo tem se calado sistematicamente. Para aqueles que imaginam que a China fará frente ao mostro estadunidense, engana-se redondamente. Todo mundo, na verdade, nas lutas comerciais, por mercados, por fatias e pela concorrência estrutural, não faz nada diferente, a exploração sobre os trabalhadores é a mesma, porque segue com a mesma lógica do capital em todas as partes.
Os dados são mais do que informações, revestem-se de valor de mercado, mercadorias a serem produzidas, vendidas e comercializadas no geral. Os trabalhadores da informação são também mercadorias em duplo sentido. São trabalhadores e como tal vendem sua força de trabalho e transformados em dados vivos, como toda as pessoas pelo mundo afora.

O fato de que algo é difícil de medir não significa que ele não exista, e é claro que o uso generalizado de computadores para processamento de informações e o uso de telecomunicações para transmiti-las têm introduzido uma nova e enorme variedade de escolhas de localização do trabalho de processamento de informações. (Huws, 2017, p. 196)
Ursula Huws apenas mostra a amplitude das novas formas de exploração e de auto-exploração nas novas condições de produção. As informações e os meios de comunicação concentrados na e pela Internet, impõem uma diversidade nas condições dos trabalhadores.
Seja lá onde for, no Brasil, na China ou na Alemanha, as condições de produção foram profundamente transformadas e o controle sobre os produtores de conteúdo também são exacerbados. Além disso, as metas a serem atingidas foram gradativamente colocadas sob o tacão do tempo, o instantâneo é a ordem, a lei, a regra. Todos devem produzir em tempo real, os dados devem ser produzidos para ampliar os controles e ativar mercados promissores. Todos trabalham para dar forma ao valor numa estrutura social virtual.

HUWS, Ursula. A formação do cibertariado: trabalho virtual em um mundo real. Tradução de Murillo van der Laan. Campinas: SP: Editora da Unicamp, 2017.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Superioridade racial e a mão do mercado

Por Atanásio Mykonios


Movimentos de superioridade racial são mais comuns do que a vã filosofia pode supor. Tantos nos EUA quanto aqui no Brasil. Haveria semelhanças entre ambos? Por certo sim. Mas como se configuram afinal? Nos EUA fica evidente que os assassinatos em série têm relação direta com a ascensão de Donald Trump ao poder central. Por outro lado, o governo central estadunidense não manifesta repúdio veemente quanto a essas matanças, seu silêncio demonstra cinicamente certo aval a esse tipo de ato supremacista contra imigrantes. 

Foto: Andrew Caballero-Reynolds/AFP
O discurso de Trump mostra a sua tendência, ao se calar e ao não se manifestar publicamente acerca desses assassinatos, em avalizar o comportamento, com posturas ideológicas e, sobretudo, deixa esses movimentos ainda mais legitimados para desenvolverem suas ações sem repressão institucional.
E no Brasil? O modelo de superioridade racial aqui tem uma vertente difusa e não explícita. Envolve um grande espectro de racismos, superioridades raciais, religiosas e sociais, tudo isto misturado a caldo de violência permanente contra as camadas mais fragilidades dos extratos social e econômico. A burguesia, em parte herdeira das classes de senhores de escravos, reproduz a estrutura social de repressão e violência institucional, especialmente no campo social da criminalidade.
Aqui, em grande medida, o racismo e a superioridade racial atingem aqueles que são vulneráveis e tragados pela miserabilidade estrutural. Ainda mais agora com o governo que assume abertamente a luta contra a sociedade, os trabalhadores pobres, as mulheres, os jovens e os negros em geral.
O que chama a atenção é a reação das autoridades nacionais e da sociedade em geral acerca do massacre de mais de 50 presos em Altamira, no Estado do Pará. A superioridade racial é manifestada com todo o cinismo, velado pela mentalidade de que os presos merecem o destino da tortura e da morte sumária. Nada mais vivo em nossa história e no movimento real da sociedade brasileira.
No Brasil, houve comemorações efusivas pelo massacre dos presos, não houve nenhuma manifestação de pesar, solidariedade, seja lá o que isto possa nos dizer. Os pronunciamentos foram, o que pudemos observar foi a frieza, por um lado, e a indiferença por parte de outros tantos. O Brasil já figura em terceiro no ranking de maior população carcerária do mundo, é neste lugar completamente abandonado que, em grande medida, a superioridade racial e social tem se manifestado pelo comportamento em geral da sociedade.
Estadão Conteúdo
Cada qual com a sua condição social, tanto aqui quanto nos EUA, a brutalidade contra os imigrantes, lá; a violência desmedida contra os mais empobrecidos aqui, mostra claramente que o sistema social do capital não produz, até o momento, condições de proteção às minorias de toda ordem.
Ao contrário, estamos presos a um cataclisma estrutural que desemboca nas crises culturais, como a religiosa, a racial, a econômica etc. Tudo isso sob a égide do Leviatã pós-moderno, com as nuances de crueldade, somando características feudais, fascistas, nazistas e outros componentes que tornam esse caldo ainda mais terrível.
Quanto mais o capital enfrenta sua crise estrutural definitiva, quanto mais ruma ao seu limite absoluto, mais se esgarçam os tecidos sociais, mais as visões de mundo colapso e suas instituições seguem o mesmo caminho.
Talvez, uma diferença significativa seja que os supremacistas raciais aqui não passam de imigrantes nos EUA. Mas isto não lhes retira o poder e a suposta hegemonia de classe e social que distingue a burguesia que, por sua vez, não é mais composta apenas por herdeiros dos senhores de escravos, a estes, juntaram-se levas de imigrantes que garantiram seu quinhão no poder econômico e social. os portugueses, afinal, se tornaram minoria nessa classe difusa, que mistura, fazendeiros, banqueiros, aristocratas burocratas, tecnocratas, gestores bem pagos, empresários e camelôs das comunicações.
As batalhas se sucederão. As lutas pelas migalhas serão encarniçadas, as multidões à deriva serão lançadas à própria sorte e terão de manter-se num campo de sobrevivência absurdamente limitado. A capacidade de gerir o sistema social será reduzida ao máximo e as forças estatais também serão reduzidas para manterem a propriedade e as estruturas gerais de produção.
As forças de segurança serão transformadas em grupos de mercenários oficiais que protegerão os complexos produtivos e regiões geográficas, os Estados-nacionais deixarão de agirem como guardiões de suas próprias fronteiras e serão tornados apenas grupamentos legisladores para garantirem a sobrevida dos negócios. As empresas e as corporações controlarão cada vez mais todas as áreas da produção social e os racistas poderão transitar livremente e praticarem seus ódios com a mão invisível do mercado.
Temos pouco tempo para reagir a essa hecatombe mundial.