quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Por que você reagiu?

Por Atanásio Mykonios

Aí você conhece um sujeito boa-pinta num bar qualquer, entre outras pessoas. E ele parece ser uma pessoa agradável e razoavelmente bem articulada. Também, no começo da conversa, você encontra alguma afinidade, afinal, exercem a mesma profissão, só que em lugares distintos, talvez, diametralmente opostos. Sim, porque certas profissões podem colocar os trabalhadores em lugares muito distantes a ponto de não haver nenhuma relação social entre ambos, de tal sorte que, podem até se encontrar fortuitamente, mas não se reconhecerão como trabalhadores de um mesmo ramo de especialização. Então, depois de alguns minutos em que não parece haver possibilidade de uma afinidade ou solidariedade, o sujeito dispara a dizer que você não se enquadra. Mas o modo que esse sujeito lhe diz que você não se enquadra afeta, sobretudo a normalidade de que se espera de uma boa convivência social em ambientes públicos. O sujeito em questão traça um quadro sociológico da sua condição física e a partir desta, ele desenvolve um rosário de conclusões, todas a partir de uma premissa que para ele é inquestionável, a saber, de que você é uma mulher que não pode vencer na vida porque é gorda! Papo reto! Sem mais, o vaticínio está dado. As consequências são as mais nefastas.

Primeiro, você não é feliz, porque é gorda. Segundo, não pode ser admirada, porque é gorda. Terceiro, você não pode ser bem-sucedida profissionalmente, porque é gorda. Quarto, já que você não tem muita saída, pode aceitar qualquer coisa que lhe é oferecida, porque é gorda. A gordura é uma maldição na sociedade atual. Somos tratados e julgados pelo nosso comportamento e não atinamos para as perversidades que a sociedade produtora de mercadorias produz e nos empurra. O gordo, ou o obeso, é julgado e condenado, exatamente porque parece não ter limites. Como se alguém nesta maldita sociedade tem algum limite no que concerne a preconceitos, ignorâncias, estupidezes, burrices, etc. O pior, o sujeito se considera bem-sucedido. A ele tudo cabe, porque não é gordo.

Mas o problema não reside apenas nessa questão. A gordura é tratada como uma doença, justamente por aqueles que a mantêm como negócio lucrativo. O sujeito ainda destila seu despudor ao tratar a mulher como um simples pedaço de carne que não poderá ser feliz se não emagrecer.

O sujeito em questão não se considera um pedaço de carne, mesmo sendo magro. Talvez ele se considere feito de outra substância que não carne. Talvez a carne desse sujeito não engorde nem empobreça. Talvez a ciência tenha descoberto uma nova fonte de carne, uma carne marciana ou uma carne venuziana. Porém, ao que me consta, carne humana é, indubitavelmente, carne humana. A carne humana contém, num determinado lugar de seu espaço, algo chamado cérebro e dentro do cérebro, consciência e esta está ligada a uma coisa chamada mente. A mente se conecta com o mundo. A consciência não é consciência de um ou de outro. O sujeito, com carne e osso, está num mundo, num mundo de relações sociais. Poder, dominação, consciência, conhecimento, entendimento, essas coisas passam pela carne e pelo cérebro, e pela consciência e pela mente.

Contudo, na maioria das vezes, os sujeitos não têm noção do seu corpo. Acreditam no que lhes dizem a respeito do seu corpo e de sua carne. Passam a acreditar que pessoas gordas ou obesas, pessoas negras ou amarelas, pessoas com deficiências ou de orientação sexual diferente, devem ser, de alguma forma, punidas. Sua carne, seus músculos, e o resto, não diferem. O que podemos dizer então, é que há outros motivos para o sujeito lhe dizer tudo o que parece ter-lhe dito abertamente.

É evidente que esse sujeito, bem-sucedido, ao que parece, lhe disse certas coisas que não foram produzidas pelo seu cérebro de imediato. Ele teve tempo para elaborá-las, teve tempo para pensar e chegar a essas conclusões e certamente a outras que ainda não teve tempo de revelá-las. Ele está certo do que disse, pensa assim, vê o mundo e ao vê-lo, percebe que sua teoria está certa, além de que compartilha com pessoas diferentes, com carne e cérebro, das mesmas conclusões. Para ele, pessoas gordas sofrem e são infelizes. Mulheres gordas são duplamente infelizes. Mas temo que a situação não seja apenas o que a superfície nos mostra.

Além disso, é preciso não olvidar que a carne é submetida a todo tipo de substâncias, algumas alucinógenas. A carne ingere também carne, geralmente de outras espécies. Geralmente, também, os seres humanos, ao ingerirem substâncias alucinógenas, como líquidos estranhos, tendem a cometer erros e absurdos ainda mais estúpidos e, ainda geralmente, costumam imputar e reputar a essas substâncias, seus próprios erros e suas improbidades sociais, praticados em casa e nos bares e nas ruas e nos estádios e em lugares abertos ou fechados. Mas, também, as substâncias, de alguma forma, liberam o que está escondido ou potencializam crenças e visões de mundo bem definidas.

Sim. Porque para alguém chegar a pensar e ter essas supostas certezas, é porque houve um processo gradativo para que tais complexidades fossem formadas e consolidadas no cérebro desse sujeito que também tem carne e gordura.

O pensamento preconceituoso não ocorre apenas por ignorância, mas por adesão. Adesão de classe, de raça, de poder social, de poder econômico, adesão de grupo, adesão estéticas, mas, sobretudo, por meio de instrumentos sociais bem organizados e juridicamente estruturados historicamente. Por isso, é certo que outros sujeitos com a mesma constituição carnal pensem da mesma forma. Quem pratica segregação e preconceito exerce, de alguma forma ou de outra, poder social, poder político, poder econômico, poder religioso, poder familiar, poder sobre os trabalhadores. Pois é disso que se trata, em última instância, poder sobre quem vai produzir o quê. Poder sobre a riqueza e a pobreza. Poder sobre a força-de-trabalho em geral.

Há uma conjugação de elementos, tortuosamente construídos, que se agregam ao pensamento que não tem nada de científico, até certo momento, mas parece conter elementos sociológicos e históricos em profusão. Sim, porque, por  mais que a ciência pareça neutra, ela é estruturalmente mantida por meio das forças de produção e daqueles que detêm o poder ideológico sobre as massas e os sujeitos sociais.
Ademais, há outro ponto a ser pensado. Podemos dizer abertamente o que pensamos? É lícito dizer abertamente tudo que nos vem ao pensamento? As pessoas realmente dizem o que pensam umas às outras, ou selecionam o que dirão e para quem? Podemos dizer para qualquer um o que pensamos? É óbvio que não! A prática social nos mostra que não podemos fazer isso, sob pena de sermos achincalhados, defenestrados, punidos severamente, agredidos física e psicologicamente.

Pois, o sujeito em questão não diria o que disse a você, se estivesse numa roda de pessoas todas gordas, mas fossem juízes e juízas, ou delegadas e delegados, todos obesos. Não, certamente não o faria, não teria coragem, porque o cálculo econômico e jurídico falaria mais alto e ele se conteria. Assim como, geralmente, não batemos ou agredimos pessoas maiores que nós ou que estejam em bandos maiores que os nossos, a não ser que sejamos esquizofrênicos ou dementes sociais. Geralmente os sujeitos sociais costumam agredir crianças, pessoas fisicamente em condições inferiores, como as mulheres em geral.

Mas eis que após tudo isso, você não se conteve e meteu a mão na cara desse sujeito social, com carne e cérebro. E certamente a carne dele sentiu algo. O que, para muitos foi um escárnio, para outros, foi um ato heroico. Mas para a justiça, não se sabe ainda, uma vez que depende da interpretação das leis vigentes. Qualquer agressão física é passível de punição. Mas após séculos de dominação e imposição do poder masculino, você decide resolver o problema da mesma forma como os homens sempre resolveram e, de certa forma, sempre foram protegidos.

Aqui, entramos no problema da civilização. Como a civilização avança ou progride no que concerne a eliminar a violência, a segregação, a dominação ou a exploração? A sociedade liberal capitalista parece ter encontrado nas leis um modelo que parecia exemplar. Mas ao ser aplicado, mostrou-se ineficaz. A aplicação, na prática, não gera igualdade nem isonomia. Aliás, nunca o fez. Mas a sociedade, em geral, acredita no sistema das nossas leis, mesmo sabendo, de forma intuitiva, que esse sistema não funciona.

Então, o processo civilizador deve encontrar outras formas e as encontra ao longo da história, à medida que as pessoas e os grupos defendem seus interesses. O processo civilizador é uma luta social contínua, uma luta em que os atores ora se colocam individualmente, ora se colocam com seus grupos, para se protegerem ou atacarem. Trata-se de um processo de conflito contínuo e não de um processo água-com-açúcar, o processo social da civilização é uma constante luta entre forças sociais com seus poderes de impor e de recuar ou avançar. Impor não apenas seus interesses, mas o poder para realizar o que lhes parece ser o melhor. Mas o melhor não é de fato para todos, nunca foi, por isso, temos de atentar para que estejamos sempre atentos ao poder e à dominação exercida sobre nós e de que forma temos algum poder para exercê-lo sobre os outros.

Lutamos pela justiça, mesmo cometendo injustiças. Mas o parâmetro minimamente digno é a capacidade que temos de observar o quão somos explorados ou oprimidos. Se há grupos que são permanentemente oprimidos e explorados é porque a sociedade assim se organiza, nas suas várias esferas, mas também joga um forte papel a ideologia neste caso, que nada mais é que o poder de convencer os oprimidos e explorados de que há algo de justo nesse processo de exploração e opressão. A civilização também caminha par e par com a injustiça assim como com a justiça.

Mas a história nos mostra que, de uma forma ou de outra, grupos oprimidos e explorados, mais cedo ou mais tarde, reagem, de muitas formas, mas reagem. A reação sempre virá, sempre ocorrerá. Por isso, sua reação é parte desse processo civilizador. De alguma forma, está aí a luta e por todos os lados, a reação é o fruto de uma história de exploração, dominação e opressão. Quer queiramos ou não, estamos vivendo esse momento em que os que têm carne e cérebro, digladiam-se, mas não podemos esquecer de uma coisa, que essa luta tem lados e tem faces razoavelmente bem definidas.

Com isto, o sujeito, de carne e osso, não se deu conta de que ao dizer o que lhe disse, desencadeou, ao menos em mim, toda essa reflexão e em você, toda a ira de séculos de dominação. Talvez fosse necessária alguma racionalidade para reagir, mas, ao menos eu sei que a racionalidade é a base de toda forma organizada e técnica de violência. Nazistas e fascistas sempre utilizaram as técnicas racionais de violência.


Sujeitos de carne e osso são sujeitos à ignorância e ao desprezo da história. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Para provocar uma crise

Por Atanásio Mykonios


Há muitos analistas, incautos e representantes da formação da opinião pública que, por ingenuidade ou má-fé, escamoteiam acerca das reais possibilidades de se criar uma crise para promover as condições propícias para a instauração de uma reforma de choque que leva em conta os interesses de investidores, banqueiros, industriais, latifundiários, etc. Desde há pelo menos 70 anos, esse modelo de ataque por meio da geração de pseudocrises é uma constante para desestabilizar os países e em seguida implantar o capitalismo com baixos custos e altos ganhos.

A Conferência de Washington, apelidada por um dos gurus da ideologia do ataque direto às economias nacionais, por Consenso de Washington, disse aos presentes, em 1993, em cujo encontro estavam presentes expoentes da economia mundial, de todos os continentes, que a geração de pseudocrises eram importantes, principalmente se fossem capazes de provocar enormes estragos econômicos e sociais a ponto de a sociedade, de forma submissa, reconhecesse a necessidade de remédios amargos. Ele disse textualmente:

Será necessário perguntar se faria sentido, de modo concebível, provocar deliberadamente uma crise a fim de conduzir os agentes políticos à reforma. Por exemplo, já foi sugerido algumas vezes, no Brasil, que seria válido alimentar a hiperinflação de modo a apavorar todo mundo e forçar a aceitação dessas mudanças (...) Provavelmente, ninguém que tivesse percepção histórica teria defendido, no meio dos anos 1930, que Alemanha e Japão entrassem em guerra para receber os benefícios do supercrescimento que experimentaram depois de sua derrota. Porém, será que uma crise menor teria exercido o mesmo papel? É possível conceber que uma pseudocrise cumpra a mesma função positiva, sem os custos de uma crise real?[1]

Não é preciso ser um grande analista econômico nem político para compreender e apreender o fato histórico de que as crises econômicas, vividas pelos países nos últimas 40 anos, são produto de uma engenhosa arquitetura política de ataques sobre todos os aspectos que constituem a formação do Estado-nacional e sua estrutura – política monetária, política salarial, programas sociais, dívidas ativas, empresas estatais, etc. Desde essas décadas, os Estados-nacionais estão mergulhados numa crise insolúvel e não haverá trégua até que todas as esferas do Estado-nacional estejam submetidas ao controle do livre e puro mercado.

Nesse sentido, não é de agora, mas sobretudo na atualidade, os capitalistas têm sido mais diretos no que concerne aos ataques aos Estado-nacionais, a voracidade com que têm avançado sobre as estruturas da sociabilidade estatal tem caracterizado o que posso denominar por um desmonte metódico e sistematizado do Estado-nacional.



[1] John Williamson. The political economy of policy reform. Washington, DC: Institute of Internetional Economics, 1994, p. 20.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O que ensina a concentração de riqueza - as 62 famílias

Por Atanásio Mykonios


O capitalismo tem uma tendência à concentração de riqueza. O modo de produção pela extorsão do tempo de trabalho excedente, implica uma lógica de substituição do trabalho vivo pelo morto. Essa tendência, que se verifica no âmbito concorrencial, leva a um declínio em escala mundial da base estrutural da produção de mercadorias - o valor. O valor não é o preço, é bom lembrar. Quanto mais a base é corroída, mais aumenta a produtividade, a concentração de capital fictício aumenta, e pela concorrência, os capitalistas se autodevoram a ponto de a tendência ao monopólio de tornar uma realização. Aquilo que muitos liberais e neoliberais, supostamente, defendem, a saber, a livre concorrência como fundamento do capitalismo, se torna a própria contradição, a sua negação e destruição. O que eles defendem não se sustenta ao analisarmos a tendência do capital. Nem os capitalistas conseguem entender o que parece existir independente de sua vontade como praticantes do sistema do capital. Isso mostra que eles não têm controle sobre o próprio capitalismo, como gestores, apenas seguem cegamente uma cartilha entorpecida pelo fetiche. Ou seja, quanto maior a concentração, maior será a velocidade rumo ao limite interno absoluto do sistema.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O poder do transporte e o transporte do poder

Por Atanásio Mykonios



Eu fico pensando que o transporte público tem uma característica muito peculiar no Brasil. É um oligopólio, em muito lugares é um monopólio. Mas é uma espécie de capitalismo patrimonialista. As empresas, em Mogi das Cruzes, por exemplo, não têm grandes investimentos com o transporte, mas mantêm o oligopólio, por quê? Porque assim elas controlam a cidade. Eu demorei a entender isso. As empresas controlam toda a cidade, elas podem ter outros negócios que são derivados do transporte. Controlar a cidade é saber quem é quem, o que faz, como faz, onde faz e quando faz. As empresas de transporte público, em todas as cidades, têm um poder imenso, sobre a máquina da prefeitura, sobre os vereadores, sobre as câmaras municipais em geral. As empresas de transporte público sabem onde estão os melhores investimentos, os melhores terrenos, as melhores localizações. Manipulam o valor dos imóveis, mostram o quanto é possível revitalizar essa ou aquela região. Por onde passa uma linha de ônibus, muita coisa pode melhorar para os moradores. Como se trata de um oligopólio ou um monopólio (em muitos casos), fica difícil elevar a produtividade do serviço para ganhar em grande escala. Por isso, as inovações são lentas e difíceis de serem alcançadas. A única coisa que parece que constantemente é alvo de mudança nas empresas de transporte é a força de trabalho. As empresas pressionam para diminuírem o valor da força de trabalho e é sobre essa categoria de trabalhadores que recai o maior peso de todo o processo de manutenção do negócio.

Outro detalhe é que as planilhas são maquiadas para fornecerem dados que não condizem com a realidade, para depois as empresas exigirem mais aumentos na tarifa. Qualquer monopólio exige muito esforço político, exige manter o poder político para manter o poder econômico. Todo monopólio mantém o poder com mão de ferro e é por isso que a repressão policial também segue na mesma proporção. Não há solução para o transporte público, não haverá enquanto as cidades continuarem a ser uma fonte de renda para as empresas. Outro aspecto importante é que as cidades, atualmente, estão organizadas para o automóvel. Há uma pressão para reduzir o transporte público, o número de veículos de passeio é muito grande em relação ao total de veículos (contando ônibus, caminhões, utilitários, etc.). A indústria do automóvel é um grande sistema que integra diversos produtores, fornecedores, distribuidores, etc., e seus interesses estão em criar uma cidade para o automóvel e não para a coletividade. A cidade, cada vez mais é pensada para o automóvel de passeio. Em muitos países há subsídios para o transporte público, em outros, ele é totalmente subsidiado pelo Estado, em outros é totalmente estatal. Aqui, os capitalistas olham os usuários como fonte inesgotável de renda e riqueza. Não abrirão mão de seus privilégios, mesmo sendo monopólios ou oligopólios. Os trabalhadores, na sua grande maioria, não são rentáveis para o sistema, são transportados para os seus lugares de trabalho e ganham pouco, não dá pra valorizar o sistema de transporte, no fundo ninguém quer esse tipo de negócio a não ser que seja um monopólio em grande perspectiva de segurança para o cálculo econômico.


Ao meu ver, a tarifa zero pode ser a única solução, mas mesmo assim, os trabalhadores continuarão a serem explorados em seus locais de trabalho, há pesquisas que indicam que com a tarifa zero, muitas regiões ganhariam em negócios, haveria maior circulação, os trabalhadores poderiam consumir mais. Mas isso também é um perigo, porque os pobres podem circular por todas as partes. Esse é outro problema nessa questão. O medo das elites em permitir que os pobres circulem com maior facilidade pelas ruas e pelos bairros também deve ser considerado para o cálculo econômico do transporte público, aqui em Mogi das Cruzes como em todas as cidades. Portanto, minha cara, há diversos elementos que contribuem para entendermos essa questão que é muito mais complexa e diversificada.