sexta-feira, 21 de março de 2014

Uma ditadura. Para que serve?

Por Atanásio Mykonios

Como é difícil rever a história quando ela parece se repetir! Quantos elementos podem ser apresentados a fim de fazer convergir contextos diferentes, de tempos distantes pelo próprio tempo! Hoje parece fácil mostrar o que a ditadura militar promoveu no Brasil a partir de 1964. Mas o golpe perpetrado pelo militares, na virada do dia 31 para o primeiro de abril, teve a participação, a colaboração e a simpatia de muitas instituições – bancos, jornais, igrejas, líderes, latifundiários, artistas, meios de comunicação em geral (rádios e TVs). Mas a maioria da população estava inerte, não assumiu uma posição, viveu no anonimato, mesmo sendo a maioria. O silêncio da maioria fez com que uma espécie de legitimação ocorresse sub-repticiamente. A maioria silenciosa, em qualquer situação de convulsão social é uma poderosa aliada das forças de ação e daqueles que intentam golpear o contexto institucional. É mais aterrador imaginarmos o que pode nos ocorrer se a história se repete, mesmo que seja apreendida na forma de farsa. Acontece que o pano de fundo continua obscuro. Até mesmo os meios de comunicação que hoje fazem uma apologia contra a ditadura, se fixam apenas na violência, na tortura, na censura, na perseguição contra opositores do governo. Isto não pode ser esquecido em qualquer circunstância. Esse pano de fundo insiste em ser utilizado como uma espécie de diversionismo, criando um sentimento moral antigoverno. A questão fundamental que conduzia e conduziu as elites orgânicas para a tomada do poder, tendo os militares como prepostos desse grupo articulado desde o final da década de 1940, era, sem sombra de dúvida, a tomada do Estado para a reformulação do perfil econômico do país, a fim de adequar o Brasil às novas condições que emergiam na economia e nos interesses geográficos e políticos. Em outras palavras, o objetivo principal não era uma luta contra a possibilidade de avanço do comunismo na América-Latina. Essa possibilidade se tornara um forte álibi para promover as ações e as ofensivas contra o Estado. Portanto, os gestores da economia se aproveitaram das condições de produção de discursos diversos, como os discursos da religião, da raça, da etnia, da ocupação de espaços sociais, etc., para fortalecer a legitimação da intervenção militar. Mais uma vez, as classes médias são utilizadas para romper as barreiras institucionais a fim de apresentarem suas demandas, que nada mais são que a obsessão da iminência da perda de alguns privilégios sociais e econômicos. Dessa forma, o que temos de ter em mente, nesse processo histórico e que nos remete à atualidade, não são as ações truculentas de grupos que consideramos direitistas ou que apresentam traços fascistas, mas se esses movimentos estão atrelados a interesses ainda maiores, e o maior de todos é a economia. Uma ditadura na sociedade do capital global só tem sentido se for a serviço deste capital global e das formas locais de realização da atividade econômica do próprio capital. Apesar de todas as forças locais, apesar das lideranças poderosas que se digladiam no âmbito dos países e dos estados-nacionais, cada vez mais, a tecnocracia estatal-capitalista está atenta às possibilidades de implementação das estratégias de valorização do capital. Se for necessário apoiar grupos autoritários, que seja, se for necessário exigir a presença de tecnocratas, que seja! O Brasil é um país diferente de quando promoveu a ditadura em 1964. Diferente no seu perfil de diversidade. Mas não nos esqueçamos de que continua com uma maioria silenciosa e conservadora. E tudo o que de fato importa não são as lutas intestinas acerca de valores morais, religiosos, da tradição cristã que possivelmente estão ameaçados. O que importa continua a ser o mesmo mote, a saber, o estado em que a economia se encontra e quais as fontes e as formas de aumentar o lucro, aumentar a produtividade e manter a eficiência de um sistema que arranca mais e mais rentabilidade dos trabalhadores em nível global. Neste sentido, uma ditadura hoje tem outro significado. Grupos sociais, organizados ou não, disputam fatias de hegemonia no âmbito da segurança, da moral e das formas tradicionais de comportamento. Isto quer dizer que clamam por segurança, por moralidade e por punição. O fato que está mais uma vez no pano de fundo é a economia e seu desempenho. Aos poucos, sem que a maioria se aperceba, as reações têm como causa primeira a crise do capital que esfacela, inicialmente, a segurança e a impressão de segurança que afeta classes intermediárias classes estas de trabalhadores que veem seu quinhão desaparecer e como resposta, exigem uma ação direta das forças de segurança. Eis aqui um problema que se repete em todas as ocasiões de luta no interior do capitalismo. Mas se levarmos em conta, efetivamente, o que nos ocorre, estamos em uma ditadura há pelo mens 200 anos, com a imposição do trabalho abstrato, do cidadão abstrato, da forma social da mercadoria e do modo de organizar politica e juridicamente esse processo histórico. Mesmo sem trabalho, somos obrigados a trabalhar, mesmo com trabalho, seremos obrigados a sermos desempregados. Socialismos e comunismos não foram capazes de evitar a hecatombe capitalista porque, na verdade, apenas reproduziram o processo de trabalho abstrato sem qualquer maquiagem. E por fim, quanto mais a crise do capitalismo se torna uma realidade visível e definitiva, mais experimentaremos a força da militarização como um elemento de controle da sociedade para voltar a produzir valor no esquema capitalista. Por isso, as ditaduras estão entre nós e serão familiares a cada um de nós daqui para frente, mas de forma amena, com controles aceitos pela maioria. 

domingo, 24 de março de 2013

A PRÉ-HISTÓRIA DE NOSSOS SENTIMENTOS

1. Vejo as pessoas exaltarem seus próprios sentimentos.

2. Vejo essa gente apresentar seus sentimentos como os melhores.

3. As pessoas comparam seus sentimentos aos dos outros e ao fazerem isso cobram o mesmo grau de intensidade que imaginam ter em seus próprios sentimentos.

4. Eu penso que deveria ser o contrário, quanto mais se ama, mais humilde, mais livre, mais sensível, mais respeito, mais carinho e perdão.

5. Então, acredito, que quanto mais se ama, e ainda vejo a dificuldade em discernir os graus de sentimentos, dessa forma hierarquizamos os sentimentos e as relações entre os seres humanos. 

6. Pois hoje vejo as pessoas a exercitarem com mais alto grau de vaidade aquilo que imaginam ser os seus sentimentos.

7. O verdadeiro narcisismo consiste em revelar a si mesmo os sentimentos de si em comparação ao outro. 

8. Eu ao fazerem isso, se tornam cegas, não pelo que sentem pelos outros, mas cegas pelo que veem de seus sentimentos.

9. Idolatram seus próprios sentimentos, de tal forma que os confundem com a máxima de que o outro deve cumprir com o desígnio dos sentimentos.

10. O desígnio dos sentimentos é que outro deve cumprir com o que se espera que o outro faça com o sentimento alheio. 

11. Por isso, hoje, quanto mais as pessoas amam, mais se tornam egoístas. 

12. E quanto mais egoístas, mais se tornam vítimas do amor e culpam o outro por não terem sido amadas na mesma medida, na mesma dose, com a mesma entrega.

13. Porque o outro nunca é livre diante do sentimento perfeito. O outro é como aquela mercadoria, que aparece perfeita aos olhos do comprador e que deve satisfazê-lo com a promessa que carrega na sua alma.

14. A alma da mercadoria é a sua perfeição e é o que o comprador de fato espera satisfação perfeita.

15. Sem saber, o amor do outro se torna uma mercadoria, pois ela tem de cumprir com a necessidade de NOSSA SATISFAÇÃO.

16. Quanto mais vítimas se tornam, mais superiores também se tornam porque seu amor é certo e superior ao outros

17. Por isso a maioria das canções não fala simplesmente de traições, mas do grau e da intensidade do amor, como aquela música que diz, “Mas como é grande o meu amor por você”.

18. A pessoas não deveriam dizer isso e se o dissessem, deveriam não exigir nada, porque onde há uma escala de sentimentos e amores, há uma hierarquia e onde há uma hierarquia, há uma escala entre o superior e o inferior.

19. Onde há a escalas de sentimentos em qualquer relação, existe a verticalização das relações, assim, o poder se instala.

20. Onde o poder se instala, alguém deve fazer o que o outro espera. Porque o superior na relação sempre “sabe o que é o melhor” para ambos ou para o outro.

21. As mães amam mais os filhos, por isso sabem o que é o melhor.

22. O chefe ama a sua empresa e por isso sabe o que é melhor para ela.

23. O professor ama a sua profissão, por isso sabe o que é o melhor para os seus alunos. 

24. Quem ama não sabe nada, eis a primeira regra ali onde se imagina haver amor. 

25. Porque no fundo, o amor é a maior expectativa da humanidade, em relação ao outro.

26. Afinal, temos muito a aprender, estamos na pré-história dos nossos próprios sentimentos. 

27. Ao final e ao cabo, nos tornamos escravos dos próprios sentimentos e enquanto formos escravos, a pré-história prevalecerá.

quarta-feira, 13 de março de 2013

O CINISMO DA IGREJA



É chegado o momento histórico em que a sociedade deverá enfrentar sua relação com as religiões. É bem verdade que a religião leva uma vantagem histórica sobre todas as formas de conhecimento e experiência humana, a ciência, a política, a arte, a razão. Por um motivo: a religião é anterior notadamente à forma moderna com que fazemos ciência. E essa vantagem se deve ao fato de que a religião oferece um sentido ao mundo que nenhuma outra experiência foi capaz ainda de apresentar, por isso a religião também, por motivos metafísicos, se coloca acima do mundo e dos homens. A sociedade do século XXI deverá confrontar a si no contexto das religiões. O mundo é coberta pelas religiões, mas ao mesmo tempo o homem contemporâneo anseia por uma liberdade em vários aspectos da sua vida social. As instituições atuais parecem que não prescindem das religiões, mas é apenas uma aparência, pois as religiões estão incrustadas na vida social, na vida política e nas relações de toda ordem. E por quê? Porque é papel visceral da religião, de sua natureza, intervir na vida concreta dos indivíduos a fim de que estes tenham o merecimento para alcançarem a vida eterna. É de uma imensa ingenuidade imaginar que as religiões não deveriam ou não poderiam se imiscuir na vida social e política, elas deverão fazê-lo sob pena de traição aos seus preceitos ditados pela revelação. Cabe à sociedade refletir sobre essas questões e outras ainda mais importantes, se deseja que instituições autoritárias, anti-democráticas, virulentas em muitos casos, obscuras quanto ao seu cotidiano material, convivam com a sociedade que exige cada vez mais transparência diante do dinheiro público e de sua aplicação para a vida social. É interessante observar como os meios de comunicação no Brasil tratam a questão da escolha do novo Papa. A hierarquia católica é tão cínica quanto mentirosa acerca de uma série de questões. Inicialmente podemos notar o descaso da hierarquia para com o povo e a sociedade. Como uma entidade divina, extra-terrestre, os indivíduos mortais não existem para a cúpula da Igreja Católica, os leitos (assim chamados pelo clero) não têm nenhuma ascendência sobre absolutamente nada, suas opiniões, a opiniões de jornalistas, estudiosos, pesquisadores não representam nada para a hierarquia da Igreja. Continuamente todas as observações do povo são desconsideradas e tudo recai sob a responsabilidade de 115 cardeais que, como príncipes da Igreja invocam o Espírito Santo, e todos os clérigos pelo mundo, em seus depoimentos e entrevistas, dão de ombros para a realidade concreta, para as dificuldades dos pobres, para a vida miseráveis de católicos pelo mundo. Enclausuram-se em segredo absoluto para decidirem entre si a escolha de um novo condutor da Igreja. É notável assistir aos clérigos, padres, bispos e membros da Igreja destilando seu cinismo com toda calma medieval que lhes é própria, não estão preocupados com o mundo, com escândalos, desvios, abusos de autoridade ou sexuais. Nada disso os incomoda, pois a Igreja, segundo eles, não deve se abalar por isso, a sociedade perfeita, a morada ideal, o clero em forma de confraria secreta, sob os holofotes do mundo, não se preocupam com nada. Se é o povo que lhes paga o dízimo, se são as propriedades que lhes dão o sustento, nada disso lhes é importante. Atribuem sua condição a-histórica à sua criação dada pela sucessão dos que seguiram Jesus Cristo. O poder está presente na Igreja, dos 115 cardeais, 28 são italianos. Como pode um Papa designar tantos cardeais sendo que a população católica da Itália não equivale à população do Estado de São Paulo? E dizer que o Brasil com a maior população católica do mundo tem 5, dos quais 2 trabalham na cúria romana. E dizer que não há posicionamento político no processo de escolha, que não há preferência? Isso é ridículo. É certo que não irão escolher um para não europeu porque isso daria margem para que este passasse a designar cardeais de fora da Europa, afinal, dos 115, 60 são do Velho Continente. Quem tem de fato o poder na Igreja? Todas as religiões se assemelham nesse aspecto, todas não se preocupam com o povo, com os seres humanos. E com a liberdade que lhes é imputada, cometem suas barbaridades intra e extra muros. O que podemos esperar das religiões organizadas?

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Trabalho e docência


Afinal de contas, em que consiste o trabalho de um docente na esfera estatal?
Temos de dizer que somos contratados pelo Estado, não é exatamente uma instituição pública, no sentido do controle público, mas no sentido de um controle estatal em que a sociedade, de alguma forma, acredita que o Estado tem a delegação para cumprir.
Por outro lado, os mecanismos de controle do trabalho em parte diferem das instâncias privadas, mas, de maneira geral são parecidas às formas com que os trabalhadores são coercitivamente conduzidos para objetivamente cumprirem com as metas da produção – ressalvando o fato de que cumprirão até o momento em que permanecerão rentáveis, ou seja, técnica, tecnológica e mercadologicamente conforme os interesses de produção, competição e venda.
O processo burocrático é a grande investidura do trabalho docente no âmbito da esfera estatal.
Como uma grande empresa, o Estado é o maior contratador do país, mas por várias razões, o planejamento estatal para com ele mesmo é sempre um problema confuso. Como programar uma empresa que tem como função estabelecer a dita “justiça social” por meio de uma sociedade civil que se empenha para a sua própria autodestruição com as relações de mercado e alienadas?
Todos acusamos o Estado de ser uma entidade gigantesca e sem possibilidade de individualização, mesmo assim a sua indiferença perante o trabalho é uma espécie de abstração que não se sustenta a não ser por conta das leis de mercado.
Em última instância, mesmo que o Estado brasileiro seja o braço de sustentação do capital em todas as suas nuances, e que sua presença é ostensiva, sua determinação na relação com os seus empregados obedece cegamente às leis de mercado.
Isto nos revela que os indicadores da economia nada mais são do que balizadores dos mecanismos da relação de trabalho assalariado, portanto, o Estado não é capaz de avançar e de propor qualquer superação, disso estamos concordantes.
E como trabalhadores temos um duplo caráter, de um lado somos trabalhadores como quaisquer que estejam lançados pela mão invisível do sistema e de outro, somos o próprio Estado. Isso demonstra as contradições em que estamos metidos.
As velhas formas institucionais que regulam o trabalho estatal estão com os dias contados. Isto quer dizer que a estrutura patrimonialista da sociedade brasileira, que também deitou raízes no serviço público e no Estado não se sustentarão por muito tempo, dadas as condições em que a economia setorializada imporá a todos novas formas de gestão para apurar os ganhos e gastos numa balança de equilíbrio econômico-financeiro.
Dessa forma, a universidade, na qual muitos ainda depositam as esperanças iluministas de uma formação humana ampla, em que sejam os alunos preparados para superarem problemas, é uma ilusão de ótica. Talvez nossa visão míope, não nos deixar observar o que a História tem mostrado sobejamente de modo a nos convencer de que estamos diante de uma universidade que sucumbe de modo atroz às condições de mercado.
Na defensiva desde o começo do século passado, os trabalhadores não foram capazes, em âmbito global, de oferecer alternativas, a não ser as de manterem-se na defesa diante de um sistema absurdo. E por isso, fomos historicamente convencidos de que dependemos do capital, mas exatamente o contrário, é o capital que depende exclusiva e peremptoriamente do trabalho e do trabalhador.
E os partidos trabalhistas em todo o mundo nada mais fizeram do que administrarem, a partir do lento mas gradativo distanciamento de suas bases, hoje, ironicamente, nada mais são do que tentativas de gestores do capital e sua crise. As elites parece terem percebido que seria mais cômodo delegar aos trabalhistas do mundo todo a gerência de um modelo que está em crise há tempos.
Essa greve nos ensina muitas coisas. Deve nos mostrar que temos, novamente, um longo caminho de reflexão sobre o contexto total das relações engendradas pelo processo de produção de valor.
Mesmo assim, sinto que é promissora toda a experiência. É promissora porque há um grupo que se colocou no processo, apesar de todas as dificuldades que emergiram durante esses meses. E acredito mesmo que temos ainda energia para continuarmos com o movimento porque é preciso. A greve está aí e não podemos nos deixar levar por informações desencontradas.