domingo, 9 de setembro de 2007

O COLAPSO DA EDUCAÇÃO ATUAL

Textos de Abertura da Apresentação do Grupo de Estudo
Para o Fórum Mundial da Educação
Para o dia 14 de setembro de 2007



Atanásio Mykonios`
Paulo Marques
Kelen Chacon


A compreensão do problema social da Educação atual passa por uma propedêutica histórica, isto requer que tenhamos como base inicial para o entendimento acerca do que podemos chamar de colapso, de um estudo histórico, que trará à tona parte das razões que poderão explicar o problema vivido. Implica reconhecer que a Educação é um processo que acompanha a cultura, é expressão da passagem histórica do saber acumulado pelas gerações passadas, pela experiência, pela produção material e simbólica.
Por isto, a história não pode ser colocada em um quadro, mas deve ser trazida à baila como uma tentativa de empreender uma visão do todo e das transformações vividas pela escola que são as nossas próprias experiências. Sem dúvida, vivemos um momento de extremo mal-estar, frustração, e de uma profunda nevoa que encobre o ensino. Estamos diante de uma nova realidade e que nos deixa tristes. Não conseguimos ensinar, os alunos não conseguem e, de alguma forma, farejamos que não querem aprender. Não se interessam, não dispõem de ferramentas adequadas de cognição. Por outro lado, como o processo formal de ensino é seqüencial, cabe jogarmos a responsabilidade no passado e nas séries anteriores. Nossa frustração e nosso sentimento de profunda inferioridade material diante do mundo desenvolvido exigem que tenhamos uma reparação moral, porque somos diariamente desrespeitados em nossa honra como professores e o Estado, a quem servimos com profunda má-vontade, não dá uma resposta porque não pode fazê-lo, está refém como todos estamos de uma situação que experimenta profundas mudanças que não estão contidas em apenas um protagonista.
É a transformação social. Os fundamentos do jogo continuam os mesmos. Estes fundamentos do capitalismo, substancialmente, não sofreram mudanças. O que mudou? O jogo permanece, alguma coisa no jogo está mudando, mas o jogadores não perceberam com clareza esta mudança. O jogo é maior que os jogadores e, no entanto, os jogadores imaginam que podem dominá-lo apenas vencendo os contendores. Há uma luta entre os diversos times que jogam o jogo, pobres, estado, instituições, religiões, família, classes médias, os gestores do capitalismo, as forças produtivas, os movimentos, os miseráveis, os fanáticos, os doentes, os ignorantes, enfim, há diversos times que disputam o jogo, mas o jogo não é de um único time.
Cabe a nós fazermos uma crítica social e uma crítica baseada em reflexões que não se encontram em mecanismos de contenção, ou de compensação paliativa dos problemas que enfrentamos. Trazemos uma tentativa de compreensão do problema da Educação atual e defendemos, como tese e ponto de partida, a constatação de que a Educação vive o seu momento histórico, o momento em que muitos imaginaram que não chegaria, e que tantos outros até sonharam com este momento, que poderia representar, ao menos, um ponto de inflexão e de tomada de consciência do problema da Educação. Muitos de nós imaginávamos que ao chegarmos neste presente, o do Colapso, então algo poderia ser erguido da poeira deixada pela tragédia, mas podemos, ao contrário, observar que a crise se alastra e o Colapso não é apenas exatamente estrutural, como um edifício que desaba, mas um Colapso de toda a concepção do modo de se jogar o jogo.
Sem dúvida, há outro elemento que se agrega a esta questão: o fato de que o termo Colapso tem um sentido de provocação e interpelação na medida em que com este podemos encontrar ao menos alguns ouvidos atentos para apreender o que temos a dizer acerca do problema social da Educação.
Neste sentido, vale ressaltar que a Educação é a conseqüência de um modelo social, modelo este que engendra a produção material, a produção imaterial, a produção simbólica, o tempo social, o espírito de uma cultura. Tem a ver com questões práticas, questões de ordem pragmática e, categoricamente, diz respeito a escolhas sociais, escolhas que estão para aquém e além do simplesmente subjetivo, trata de formar uma consciência social e aprofundá-la para uma grande parte dos indivíduos, como sujeitos sociais.
Mas, por outro lado, nem sempre a Educação anda no mesmo compasso do espectro social, há profundos descompassos, em que muitas vezes a sociedade caminha com uma velocidade e a Educação anda em velocidades mais lentas. E é o que parece acontecer com nossa Educação atual. A sociedade avançou em sua estrutura produtiva, mudou sua qualidade de conhecimento, alterou a produção material com o incremento de mudanças profundas na ordem da tecnologia, alterou as relações de trabalho, as relações humanas, modificou as necessidades, mudou as relações políticas, o Estado tem uma nova prerrogativa, mas parece permanecer atado a interesses fisiológicos. E, diante disto, a Educação se transformou em uma bandeira da modernidade, ela garantiria o bom comportamento, a inclusão social, a disciplina, a ordem, a obediência, a certeza de que as luzes penetrariam na consciência humana e a salvariam da ignorância e das trevas sociais. Uma bandeira que não consegue ser desfraldada, tornou-se um pesadelo o ensino, tornou-se uma cruz estampada nos olhos dos professores durante os intervalos na sala de encontros com os colegas. Evasões, doenças, frustrações, recalques, violência, agressões, tristeza, desmotivação, perda de incentivo, pressões burocráticas, estruturas falidas, etc. Um tempo de profundas inquietações. Um tempo em que parece ser necessário auscultar o tempo presente, colocar-se em uma atitude crítica e questionar a sociedade como um todo.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

PARA UM SENTIDO ACERCA DO ENSINO DE FILOSOFIA

Por Atanásio Mykonios

O ensino de Filosofia se tornou uma realidade, particularmente no Estado de São Paulo. Por meio de um decreto oficial, o Ensino Médio, o EJA, alguns projetos de Ensino Integral, além da perspectiva de que as escolas privadas incluam Filosofia em seus currículos, hoje há uma demanda que exige uma série de considerações e que estava reprimida devido a um histórico de autoritarismo que caracteriza nossa realidade. A começar pela possibilidade da própria Filosofia figurar como uma matéria com o mesmo estatuto que as demais disciplinas que vogam nas grades curriculares, temos os mesmos direitos que os físicos, químicos, letratos, lingüistas, biólogos, matemáticos, etc. É provável que não estivéssemos preparados para atender a esta demanda, que foi brutalmente reprimida ao longo de todos os anos de regime militar.Os governos ditatoriais cometeram um crime de lesa pátria ao serem extremamente eficientes em solapar a educação de base e transformar o ensino acadêmico em mera correia de transmissão das necessidades técnicas do então “milagre brasileiro”. Some-se a isto o fato de que nossa Escola não está preparada para a democracia, para a liberdade, para a diversidade social. Mas o ganho substancial que ora observamos é que as massas penetraram a escola por meio da democratização de acesso, no entanto, nossos cursos superiores permaneceram fechados, conservadores e elitistas, ofereceram um ensino hierarquizado, baseado nas formalidades de relação entre professor e aluno. Mesmo que a Escola tenha tentado heroicamente abrir caminhos nos processo de ensino e aprendizagem, nossas comunidades permanecem no veio histórico característico da nossa cordialidade, o autoritarismo disfarçado de cinismo social, mascarado pelo tapinha nas costas e pela grande capacidade de fingirmos que não temos problemas.Há inúmeras indagações acerca do ensino de Filosofia nas escolas públicas, encontros, reflexões, material em profusão é continuamente destilado a fim de darmos resposta a um problema que aflige os professores de Filosofia, a saber, a final, o que fazer em sala de aula? Como manter a honra da Filosofia com seu cabedal e a tradição de séculos, que vararam mais de dois mil anos de história do Ocidente. Ainda não sabemos como lidar com as reais condições da sala de aula e criar uma seqüência programática, parece, de certa forma, refletir a dificuldade em encontrar um ensino metodológico. Afinal, o que é melhor oferecer à 1ª série ou à 2ª série? Sócrates, os naturalistas, Platão, Aristóteles e sua Metafísica ou a Ética a Nicôcamo? Quando poderemos abordar o sistema hegeliano com os alunos da 2ª série, a dialética e o processo do real? E quanto à Escola de Frankfurt, nossos alunos terão algum dia o direito de conhecer aspectos sobre a Dialética do Esclarecimento, sobre a Indústria Cultural ou, quem sabe, a crítica a nossos valores ocidentais, feita por Nietzsche, Para além do Bem e do Mal? É bem verdade que nossas salas de aula são o retrato do pandemônio, e aqui não me refiro a um ou outro docente que tem a sorte de encontrar uma sinergia com suas turmas, de modo geral, estamos submetidos a um inferno que espelha o colapso institucional da Escola. Quem sabe devamos nos especializar em terapia filosófica grupal!Mesmo assim, insistimos em oferecer um inventário sobre os filósofos e suas escolas, isto é importante, mas como poderemos criar nos alunos o gosto pelo pensamento alheio se a própria Filosofia, até agora, não me parece ter sido capaz de oferecer um olhar original sobre a nossa própria condição, sobre o homem e sua realidade, o homem brasileiro, este homem que foi exaustivamente abordado por muitos campos de atuação brasileiros. Trata-se de reconhecer a universalidade e a originalidade do pensamento alheio, mas este está visceralmente vinculado a um contexto e a uma cultura. Fomos educados a não fazer uma ponte entre nosso contexto e a Filosofia, que parece flutuar incólume pelas nuvens ideais que se movem, mas em nalgum momento, elas descem ao chão. Por outro lado, quantos de nossos alunos conhecem nossos filósofos brasileiros mais importantes?Estamos diante de um problema estrutural que exige uma apreensão política da questão, pois de um lado temos a Filosofia como campo de pesquisa que avança assustadoramente em águas cada vez mais profundas, sendo que muitos dos nossos teóricos são internacionalmente reconhecidos por sua competência, por sua dedicação e empenho. De outro lado, encontramos o ensino de Filosofia que é dado pelas escolas oriundas da igreja católica, que têm por tradição situar a Filosofia como um apêndice institucional para a formação de um contingente de sacerdotes que, via de regra, não permanece na estrutura eclesial e migra para o campo da licenciatura, compondo assim um enorme exército de ex-seminaristas, ex-padres, ex-freiras, freiras (com todo respeito a esses profissionais!) os chamados leigos que estudam nessas escolas e que estão na sua grande maioria a lecionar Filosofia nas escolas públicas. Ou, por outras instituições cujas identidades não se mostram estruturadas para a pesquisa, mas tentam desesperadamente um lugar no mundo do pensamento filosófico. A burocracia e a estrutura exigidas fazem da Filosofia serva dos mecanismos produtivos. Qual a conseqüência? Um fosso enorme. As escolas da igreja não preparam para um senso crítico, apenas para um senso tomista ético, sem grandes repercussões e comprometimento, nossos professores se vêem manietados em torno de determinadas correntes e as pesquisas consagradas na grande academia jamais chegarão às salas de aula, a não ser daqui a 200 anos. E quando ingressamos na estrutura estatal de ensino temos poucas noções acerca de filosofia da interrogação, apenas, como bem disse Bertrand Russel, tratamos de enfatizar a filosofia da felicidade e da conversão, típica de um modelo de pensamento que vem da tradição aristotélica que fundou, de alguma forma, nossa cultura intelectual, no período colonial. A Filosofia moderna é vista com certo receio. E as escolas pesquisadoras aprofundaram a leitura a ponto de se afastarem desta realidade que urge e grita, a Escola de base.Então podemos dizer que há duas Filosofias no Brasil? A Filosofia dos especialistas e pesquisadores, os que se tornam referência filtradora dos grandes estertores da produção do Ocidente e a Filosofia do baixo clero, que se empenha desesperadamente em oferecer alguma luz para os milhões de alunos que entopem as escolas, que, por seu turno, se transformaram em depósitos de gente humana?Muitos filósofos migraram para outras áreas, especialmente para a Educação ou para a Psicanálise, a História, enfim. Isto pode indicar que há áreas de atuação que nos parecem mais promissoras do ponto de vista prático quanto aos resultados. Hoje, a Filosofia, esta Filosofia do baixo clero está sendo empurrada para pensar a si mesma no campo da Educação e aquilo que lhe é próprio é deixado para a grande Filosofia. Os problemas da Educação permanecem, são a expressão de um modelo social, que impõem à escola a promessa de que pela Educação seremos salvos, mas não poderá ser cumprida no futuro. A Escola está formando um exército que jamais servirá para o propósito de sua promessa. Prometemos especialmente aos pobres que a Escola é o lugar e a morada da inclusão pelo trabalho, isto está em franca decadência. A honra perdida da Escola!Daí sermos obrigados a discutir as questões relativas à Educação e ao ensino de Filosofia, pela via da Filosofia da Educação, estamos em um campo relativamente minado, porque não temos a condição de atuar conforme o que é precípuo à Filosofia, problematizar todo o contexto social, político e ético da Escola. Creio ser importante perfilar a discussão no campo do domínio da Educação, pois o que fazemos em sala de aula é, em última instância, Educação, mas também é preciso aprofundar nossa realidade, avançar, interpelar a Escola, seus agentes, sua comunidade, provocar a reflexão sobre as questões emergentes tanto quanto aquelas de perspectiva.O estatuto da sociedade contemporânea está prestes a receber um carimbo de impasse formal, uma vez que as condições de reprodução do sistema estão a provocar reflexões de fundo acerca do processo produtivo, do consumo, do trabalho, da tecnologia e sobre a exploração dos recursos e sua conseqüente exaustão. Em outras palavras, necessidade e tempo serão dois elementos que farão parte do nosso cardápio pedagógico muito em breve, no entanto, ainda não adquirimos a consciência de que estamos diante de escolhas sociais que obrigatoriamente deveremos fazer. Achamos que estas escolhas recairão sobre nossos netos, mas estamos enganados, pois vivemos o olho do furacão!Muitas vezes entramos em sala de aula como se o mundo estivesse pronto, acabado, com seus paradigmas formados e o futuro garantido, e tentamos nos proteger como domadores de leões metidos na arena da estupidez. Lecionamos nossos conteúdos filosóficos com vistas a um passado de conceitos, idéias, silogismos, estruturas éticas e políticas das quais não nos damos conta de que o mundo é o aqui e agora e que nos aponta para problemas reais dos quais não devemos nem podemos nos furtar, sob pena de sermos absolutamente engolidos pelos acontecimentos, a ponto de nos tornarmos anacrônicos e sem qualquer possibilidade de intervenção concreta sobre este mundo.De modo geral, é possível observar que a Filosofia e seu ensino no chão das salas de aula tem se arrastado como outras disciplinas, estas, mais legitimadas por uma sociedade ávida por ciência, por respostas pragmáticas, cujos conteúdos são oferecidos com vistas à preparação técnica e em virtude dos vestibulares. Mas a Filosofia! Ora, não encontra espaço na Escola, está confinada a um decreto que obrigou a uma mudança na grade curricular, mas, de certo, a sociedade ainda não se convenceu de sua “utilidade”, a não ser no sentido de ensinar a pensar e a oferecer certos preceitos éticos metafísicos que servem a um tipo de sociedade apartada dos problemas sociais e mergulhada e uma profunda desigualdade social.Aprender ética em uma sociedade cujos parâmetros de classe são abissais requer um exercício de engessamento da realidade a fim de colocar todos os espíritos manietados em uma mesma fôrma conceptual, e isto me parece ser um enorme exercício de fantasia especulativa, que se aparta da realidade. Por isto, o ensino de Filosofia não poderia, a meu ver, restringir-se a um punhado de enunciados nem no inventariar a trajetória do pensamento filosófico. Mas é preciso reconhecer que temos pouco a oferecer que não o nosso próprio esforço e dedicação, nosso empenho e a crença de que é possível marcar a diferença em sala de aula, pois nos HTPCs, nas salas de professores, nos corredores ou nos encontros de ADD, nossa ação se restringe ao ervanário comum e simplório do cotidiano social desta grande comunidade sem identidade que é a nossa Escola.Isto precisa e deve mudar! Talvez programas de formação social, de formação ética, de formação política, de leitura da realidade, de ampla discussão, de mudança de cultura e transformação do olhas sobre a realidade. Isto leva tempo!

sábado, 25 de agosto de 2007

O MORIBUNDO

Atanásio Mykonios


Um moribundo está na sala! Ele começa a feder, seu cheiro é uma podridão nunca antes sentida. Os homens e as mulheres se aglomeram para ver o moribundo, e mais, vivem dele, sonham com ele, nutrem-se de suas vísceras. Este moribundo está com a mortalha, em seu leito de morte, agoniza e geme, mas os que à sua volta permanecem, não se dão conta de que há algo de mais podre, a podridão humana que não se apercebe desse fim próximo. E todos se vêem manietados pelo forte odor exalado.
Quem é este moribundo à beira de uma morte anunciada? Por que os presentes insistem em não acreditar que sua morte é inexorável. Não se trata apenas de uma fatalidade, não! Não é uma fatalidade, essa podridão se espalha pelo corpo social, e seu estado putrefato nos indica que há algo a ser visto para além desse mundo fétido.
O novo sempre vem! Debaixo desse corpo moribundo que faz questão de se mostrar por inteiro, jaz em potência uma nova sociedade. No novo sempre vem! O casulo começa a se romper lentamente. A sociedade é este moribundo que agoniza e resiste em nome de uma vida que não mais lhe pertence. Seus órgãos e suas partes estão em convulsão, tudo nesse corpo é dor, sofrimento, um turbilhão de sensações e tristezas. Tudo é turvo e confuso. Cada parte do seu corpo começa a se decompor, partes que sempre mantiveram sua autonomia, como se fossem lugares próprios sem qualquer ligação com o todo. Esse corpo moribundo esta definhando! E com ele a Educação, com ele a escola e todos os seus paradigmas.
Não se pode entender o definhar da educação sem compreender o moribundo na sua totalidade, não se pode enxergar as forças que se movem para o fim de um tempo sem reconhecer que esse moribundo carrega em si a marca da crise e da transição. Nossa sociedade está doente! Esta é uma constatação aparentemente óbvia. Mas não nos parece tão óbvia a resposta que podemos dar a esse corpo doente. Como uma vida que precisa se manter, vemos razões suficientes para manter vivo o moribundo, com os remédios do passado. Não nos é lícito, em tese, diante dos paradigmas que nos deram a existência, deixar que o moribundo faleça, para algo novo surja. O falecimento é o fim e o fim parece não nos dar qualquer perspectiva para além desse aparente fim. E por que o cheiro do fim se aproxima? É preciso não perder de vista a grande confluência de uma sociedade que está em franca mudança, o novo sempre vem! Em todos os quadrantes há sinais visíveis de que a sociedade do capitalismo caminha para o colapso.
E o que a Educação tem a ver com isto? Definitivamente TUDO! Absolutamente tudo e mais um pouco. Em uma sociedade cuja crise atinge especialmente as estruturas da modernidade, todo modelo social da Educação Em uma sociedade cuja crise atinge especialmente as estruturas da modernidade, todo modelo social da Educação começa a feder. Tragicamente, uma sociedade sem perspectivas para o futuro, respondem com a barbárie no presente. E a Educação reflete peremptoriamente essa barbárie que crava no seio da modernidade a nossa incompetência para lidarmos com o novo. O novo sempre vem. Isto significa dizer que de roldão a Educação é levada e o único baluarte dessa estrutura a se manter de pé é a burocracia. Infelizmente a escola convenceu-se de que ela mesma se tornara a Educação. Ledo engano! A escola apenas carrega a Educação (parafraseando Martin Heidegger). Tornou-se assim um fim em si mesma, constitui-se em mestra e guia da sociedade, rompeu com a relação social intrinsecamente atada à complexidade da vida, para ser um lugar de adestramento social, erigindo para si mesma um altar em nome da sociedade do saber instrumental, servindo orgulhosamente à disciplina, ao condicionamento e à matança da liberdade e da criação.
Esta escola hoje não consegue respirar. Perdeu sua condição ontológica, sua existência começa a esgarçar a olhos vistos. Toda sua estrutura funcional apodrece paulatinamente, sem que ninguém consiga salvá-la e a Educação se torna apenas uma miragem no horizonte do passado. Sim, porque para o reacionarismo impotente e empedernido, nada mais esquizofrênico que tentar repetir um passado que nunca existiu, nem para esses que o defendem como sacerdotes de um culto sem sentido e sem deuses.
Os deuses estão morrendo, moribundos, estão colados ao corpo social que já fede e começa a se decompor diante dos presentes. Tudo isto se torna um jogo de horrores, no qual professores, alunos burocratas, escrivões, inspetores, faxineiros e faxineiras, compartilham dos campos de concentração que são as escolas atuais. Nosso mundo está em mudança, porém, o mundo da escola permanece como que em uma redoma, lugar privilegiado para as neuroses de um passado que não se repetirá nem em sonho, nem em realidade.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

A REPÚBLICA DAS CORPORAÇÕES I

Cinismo Social em Favor da Reprodução do Sistema


Por Atanásio Mykonios
Para uma Crítica Social




O Estado é uma entidade formalmente constituída a partir de uma
legitimidade social. Mas esta legitimidade se torna pretensa à medida que os
fantasmas tomam conta da prática social e dos mecanismos fragmentários do mundo
real dos negócios. Desde os primórdios da modernidade e com a chegada do modelo
capitalista de produção social, o Estado se tornou mais do que um simples
mediador entre contendores. Muito mais ainda do que promotor de justiça social.
As esquerdas compreenderam historicamente que o Estado deve ser tomado a bem das
forças revolucionarias e dos pobres, no sentido de promover uma ética
distributiva da riqueza; os burgueses passaram a defender o Estado como o grande
promotor, o avatar das liberdades da mercadoria. Por todo o século XX, o
Estado foi guindado ao modo de interesse social de partidos, grupos, ideologias,
sistemas, mas sobretudo, houve um sistema que venceu as contendas acerca da
dominação do Estado, este foi o capitalismo e sua força condutora que promoveu
um assolar da própria condição humana.
Lentamente o estado se torna uma
entidade fantasmagórica, um ente cujos meandros são expressão de seus corredores
frios, com salas com ouvidos, carimbos, olhares furtivos, burocracias,
jurisprudências, e uma aura espiritual que não pode ser apanhada com as mãos. As
pessoas somem, não têm face, não têm identidade, são protegidas pela formação da
pessoa estatal, que se estende à pessoa jurídica, uma concepção da sociedade da
mercadoria, que faz proteger aqueles que se constituem em gestores oficiais do
sistema, com suas empresas, produtos, etc.
Mas isto não é motivo para a
discussão atual. A questão que emerge é o fato de que a sociedade está
totalmente impregnada por um tipo de formação e organização que leva em conta as
corporações como entidades jurídicas das quais tudo pode ser atribuído, menos a
responsabilidade concreta acerca das grandes mazelas sociais. A sociedade está
marcada por uma republicanização das corporações, uma espécie de confrarias que
se estendem por todo o cenário convergente das relações econômicas. Tornaram-se
a coisa pública por excelência e neste sentido, o comportamento cínico e voraz
das entidades sem face e sem um responsável visível arrasta-se por todas as
estruturas da sociedade. Isto fica evidente à medida que os acontecimentos se
sucedem em todos os quadrantes das relações impostas pelo capitalismo e nada
mais parece ter um vínculo com a realidade. De outro lado, o modo pelo qual o
homem comum é vilipendiado em seus direitos mínimos e básicos revela uma espécie
de perversidade social da qual compactuam as corporações e seus gestores, em
toda sua conformidade com os interesses da expansão desenfreada da sociedade do
valor e de seus mecanismos sociais de controle e coerção. No ideário das
corporações, que são entidades jurídicas abstratas e que no entanto têm um papel
concreto no que diz respeito às relações de troca no mundo do capital, são
formalmente protegidas por um ordenamento jurídico capaz de fornecer a elas
instrumentos invisíveis de uma defesa que também se esconde nos meandros dos
corredores da burocracia socialmente estabelecida. Tudo ocorre como em um
espetáculo de horrores, em que os atores nada são a não ser sombras de algo que
não pode ser revelado na sua plenitude. O mundo se torna uma grande nuvem de
idéias que percorrem as consciências, penetra-as de modo obscuro e promove um
senso de injustiça sem que ninguém seja cúmplice ou responsável por
absolutamente nada. É talvez o modo pelo qual os legisladores, os gestores, os
mentores sociais encontraram para não revelarem sua própria face contida em
taras sociais que não podem ser reveladas na sua concretude. Mas o que isto
significa? Em grande medida, temos aqui a força e a marca de relações que estão
profundamente cindidas e pessoas que se vêem desprotegidas na sua magnitude. O
cidadão comum, que passa por agruras das mais diversas, só pode ter acesso ao
Estado por meio de corporações que se tornaram pontes e ao mesmo tempo fins em
si mesmas. Algo que se torna um fim em si mesmo perde a noção do real e do
concreto, escapa ao mundo das relações e torna-se um ser teratológico com a
única função de ser nutrido pelo exterior. A organização e o seu crescimentos
são silenciosos, mas eficientes, alastram-se como um reconhecimento em forma de
pacto social invisível... daí que não pode e jamais haverá no mundo social das
corporações nada além do que proteção e um comportamento que visa, por todos os
meios, compor-se com as lógicas internas do sistema, as instituições se
conformam ao mundo material para dele sugar seu sustento, e no atual sistema, a
forma-valor permanece como um gancho de reprodução social dos interesses das
corporações.
Há uma cultura que deitou profundas raízes, especialmente nos
paises da periferia do sistema, que necessitam de mecanismos de compensação
quanto à multiplicação do valor, e que prescindem quase totalmente do Estado
para cumprirem seus compromissos e negócios no mundo do valor e da mercadoria.
Some-se a isto toda a gama de sortilégios capazes de aprofundar a miséria, a
exploração e o cotidiano que esmaga as massas como baratas. As tragédias, os
assassinatos, os estupros, os roubos, a corrupção, o vilipêndio, o escárnio,
tudo isto se torna uma rotina de horrores contínuos e a banalização reflete o
fato de que o homem comum, o desempregado, o proletário, o professor, o
balconista, todos estão desamparados e não encontram qualquer forma de resposta
imediata aos seus desesperos. Se desejarmos resumir um pouco esta farsa social,
podemos dizer peremptoriamente que não há culpados em um sistema que dissolve
suas forças de dominação e exploração por entre os poros, abertos pela estrutura
de produção capitalista. Invisivelmente, os gestores vagam pelos corredores e
pelas reuniões, decidem e tomam a responsabilidade da reprodução, mas não os
encontramos face-a-face no mundo real. A burocracia social que foi absorvida e
assimilada pelo Estado moderno, não deixa de organizar o mundo em torno a uma
forma abstrata de conceber a justiça, mas que esta abstração nada mais é do que
a conformidade ao modelo social do valor e da mercadoria. Como mecanismos
teleguiados, os gestores corporativos, que sejam de qualquer denominação, como
gestores partidários, sindicais, religiosos, gestores de organizações
não-governamentais, associados, empresários, cooperados, associados, parece
estarem sempre isentos de qualquer responsabilidade diante as atrocidades
cometidas pelas suas representações dominadas formalmente pela expressão
jurídica contemporânea. A face oculta não se deixa mostrar em qualquer
circunstância e isto faz com que os indivíduos, em sua singularidade própria
sejam atirados à arena social da divisão do trabalho, do salário, dos serviços
prestados pelas corporações que se arvoram em bem-feitoras da humanidade, pois
consideram que seus serviços estão acima de qualquer suspeita. O que aparece é o
discurso cartesiano das gavetas subjetivas, o discurso da aparência, do
espetáculo, dos conceitos politicamente corretos e ditos por meio de uma espécie
de parcimônia, de elegância social e de lógica retórica.
Por isto, podemos
ver como as estruturas de gestão da coisa pública, bem como as condições de
encaminhamento das verdadeiras questões ficam engasgadas nas grandes salas
suntuosas do mundo jurídico que tem a seu favor o tempo do trabalho social das
grandes massas que ainda, de algum modo, fornecem o sustento dos gestores e de
outro, as próprias corporações que se afastam paulatinamente de sua verdadeira
função de servir a quem as de fato criou. O distanciamento nada mais é do que a
conseqüência formal da consciência burguesa em torno da mercadoria, que faz com
que a história seja perfeitamente incinerada e no lugar é colocada a forma-valor
e o éden desce do céu como um milagre do êxodo moderno, em forma de gôndolas de
supermercados suntuosos e nababescos. Somos um modelo social em decadência, pois
não se adquiriu a noção de uma sociedade em busca de justiça e de superação
deste modelo social, o que nos marca com indelével anomia. Todas as nossas
instituições, algumas com mais voracidade, enquanto outras totalmente
subsumidas, sucumbiram diante da expansão e da formação tautológica do sistema
capitalista. Mesmo que para isto seja possível sobreviver com um tipo de
discurso difuso e completamente alienado da realidade concreta dos indivíduos, a
perspectiva é sombria, por parte das próprias corporações, que nosso cinismo e
nossas taras sociais.
Nada disto parece mais incomodar as corporações, pois
cada uma, a seu modo, conforme seus interesses e práticas, institucionalizada
conforme seu público alvo, formalizam seu discurso em conformidade com o
fantasma que a todas seduz e as mantém em serena e hipnótica obediência social
em favor da forma-valor. São obedientes a si mesmas enquanto cumprem com seu
destino, isto é, o de realizarem a forma-valor em sua plenitude. A cada
audiência, a cada declaração, a cada justificativa, as corporações e seus
gestores caminham sobre as cabeças ceifadas pelos mecanismos de exploração da
forma-valor e o mundo se transforma em um grande calabouço de sofrimentos. Se a
classe média é incinerada em quedas de aviões ou se os pobres são alcançados por
balas inteligentes, as corporações permanecem incólumes e perfeitamente isentas
de qualquer responsabilidade, basta substituir os gestores caso a imagem pública
seja arranhada ou que a perspectiva de rentabilidade seja afetada pela crise
momentânea. As corporações contam a complexidade e fragmentação sociais para
diluir gradativamente a indignação das vítimas e transformar os processos em
contingências racionais, que se arrastarão por anos, sem que haja qualquer
resposta objetiva aos problemas por elas provocados.