sábado, 15 de janeiro de 2011

Tragédias repetidas: Como um seriado de sucesso.

Sabemos o que está para acontecer. A tragédia social se torna potencial e perigosamente um caldo para a especulação política, ainda mais, para o ganho econômico - o valor se torna o motor da sociedade. Ela não pode parar em hipótese alguma. Com ou sem tragédia, a vida continua, mesmo que ela seja, em sim, uma tragédia cotidiana.
Quando criança, eu pensava que bastava a vontade dos indivíduos para que escolhessem seu país, seu mundo, sua casa, sua rua, sua cidade, seu trabalho. Mas percebi que a realidade não estava exatamente na expressão da vontade ou da escolha dos indivíduos, dos seres humanos. Temos pouca capacidade, liberdade ou mobilidade para escolher, seja lá o que for.
E a depender da nossa situação social, em que podemos viver em condições adversas, teremos ainda menos possibilidades diante das ofertas de mercado.
A História nos mostra que os pobres sempre estiveram à mercê de toda sorte de tragédias e catástrofes. Por isso, necessitaram e ainda hoje precisam de proteção. Não é à toa que durante a Idade Média, os pobres seguiam seus reis e cardeais para onde fossem. Tinham de ser protegidos, daí o fenômeno das conversões religiosas em massa, uma vez que bastava um rei fazê-lo para que seus súditos tivessem a sensação de que devessem segui-lo incondicionalmente.
Não é à toa que hoje os pobres votam ou legitimam os homicidas que lhes oferecem proteção, pela cesta básica ou pela bala. Estamos numa situação ainda mais horripilante, pois a sociedade do trabalho, que não prescindirá de tantos trabalhadores, vê as massas ocuparem as periferias e  as elites se sentem ameaçadas.
Assim é também no longo trajeto dos desafortunados no interior do capitalismo. Devem sobreviver e lutar com as forças possíveis, com seus próprios braços e pernas. Têm de acreditar a cada novo dia, têm de submeter, mais do que qualquer outra classe social.
Precisam encontrar trabalho, pão, moradia, medicamentos e lazer. Cavam os espaços e as brechas. O preço da vida é a escravidão a um sistema que não lhes dá qualquer respiro. Do momento em que acordam até o seu sono, são premidos pela necessidade da sobrevivência.
Nossa ética kantiana, asséptica, ocidental, branca, masculina, iluminada não os atinge. A forma como a cidade é organizada, para valorizar o valor, empurra os pobres para a periferia, para os ambientes onde ainda é possível encontrar áreas minimamente habitáveis. A lógica do capitalismo, com sua virtude expansionista, empurra os indefesos para a morte diariamente.
Se ocupam morros, várzeas, encostas, margens de rios é porque ali ainda não há uma valorização do valor que atenda à demanda do capital em sua expansão. Com isto, os serviços que o Estado está obrigado a prestar, chegam aos que, de modo capitalista, têm seu registro nos cofres do Estado, garantindo assim, de alguma forma, os impostos e o suposto serviço “pago” pelos supostos “contribuintes” pode então ser uma realidade. Mas não é isto que acontece.
O Estado brasileiro passou a tirar de alguns para dar aos pobres, mas em condições ainda precárias. Assim como em outros aspectos da realidade nas relações do capitalismo, os indivíduos são efetivamente responsabilizados pela sua condição. Podemos observar que recaem sobre os fumantes toda a forma de responsabilização acerca de sua saúde. Também sobre os obesos, os compulsivos, os deprimidos, os doentes, etc. Não seria diferente com os que sofrem com a perda de suas casas em lugares de risco.
Será preciso mostrar aos abandonados qual é o seu real lugar na sociedade capitalista. Receberão suprimentos e ajuda por alguns meses. Em seguida serão novamente esquecidos, até que encontrem trabalho “honesto”. O Estado fará o mínimo.
Os meios de comunicação se encarregarão do restante. Mais uma vez a tragédia humana se transforma em espetáculo. A imagem do terror inunda as TVs e a Internet. Em breve, os meios de comunicação serão obrigados a encontrar novas imagens que movimentem o comércio, a mercadoria, a sociedade da troca.
O momento marcante da TV é mostrar a tragédia não no que tem em sua causa política e econômica. Vale apresentar a dor com a imagem dos desvalidos. De alguma forma, essas imagens provocam mobilização, uma catarse social aristotélica, cuja intenção é prender a audiência e vender.
Na verdade, o que importa para a TV não é criar consciência social, refletir, pensar ou educar. O que vale é vender, seja o que for. Por isso, ato contínuo à tragédia, os anunciantes se mostram. O que sustenta a TV é o comércio, apenas isto.
Ironicamente, isto não eliminará a tragédia humana nem minimizará o sofrimento. Assim, a sociedade deverá, novamente, contar com a solidariedade dos cidadãos comuns. Donativos, mantimentos, roupas, haverá mobilização e o Estado oferecerá condições para que os desabrigados saquem parte do FGTS.
Mas a sociedade da mercadoria permanece, ela é o esteio e o fundamento da moderna existência, não importa o que aconteça, a vida do lucro deve continuar, ironicamente, a todo preço, a todo custo.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A inversão real



De maneira geral a noção do trabalho como fonte moral da vida, necessidade de ascensão ao mundo das mercadorias se tornou fundamento da vida e das relações humanas. Sua abstração não é compreendida pelos indivíduos, mas eles a reproduzem e mais, são portadores desse modo de viver. Além disto, os indivíduos parecem portar uma noção invertida quanto à mercadoria, ou seja, não como forma social que determina o processo da consciência, mas a de que não se sentem submetidos à forma e à mercadoria, a não ser como portadores de necessidades que devem ser satisfeitas pela forma do valor de uso.
A contragosto, o mal necessário é que a mercadoria porta o valor de uso e representa o que deve ser consumido, porém, tanto o fetiche quanto a alienação não são observáveis pelos indivíduos, tanto quanto a falta de conhecimento acerca do mercado, que o representam como um lugar. Esse contexto social impregna a realidade de uma absurda condição de vida. A cultura liberal permanece impregnada na consciência dos indivíduos, que se afastam dos elementos históricos constituintes do processo e o transformam em categorias estanques, sem ligação direta, isto é, sua ligação se faz pela ordem dos próprios sujeitos sociais, ou seja, a mediação é feita pelos indivíduos e não pela mercadoria ou mais especificamente, pelo valor, que conduz o processo, do trabalho ao consumo.
Parece ficar evidente a noção de que os indivíduos se sentem senhores e autônomos do processo e que por causa disto, são os verdadeiros mediadores da relação entre trabalho e mercadoria. Dessa forma, a questão dos problemas enfrentados, as dificuldades, a exploração, o Estado como entidade negativa do processo, são introduzidos por uma moral ou, mais precisamente, por uma consciência alterada, invertida, que cultua a vontade dos indivíduos, sua decisão e capacidade de intervir no processo, constituindo-se, dessa forma, em verdadeiros protagonistas de seu sofrimento. Uma inversão que garante a reificacão do capitalismo e atinge todas as formas de relação na sociedade, inclusive a comunicação, a linguagem, e as demais instituições sociais. Dessa forma, a naturalização dessa espécie de relação incinera a história e, por conseguinte, desumaniza a própria condição humana, arrancando-a de suas possibilidades de realização e, radicalmente, transfere para um nível de consciência a necessidade de agir sem se dar conta de que há uma mediação criada pelos homens mas que, em grande medida, não são capazes de percebê-la e que foi compreendida e dissecada por Karl Marx há mais de 150 anos.
Assim, se as leis do capitalismo estão postas e se o fetiche da mercadoria e a síndrome do valor encabeçam as conclusões, e se, de outro lado, esse processo evoluiu em quantidade, mas no mais profundo permanece o mesmo, no que tange às suas conseqüências de alienação e reificação; e se, mais ditosamente, podemos mesmo considerar que as forças historicamente impulsionadas para tensionar o capitalismo o reproduziram? Em que medida toda evolução social, de formação e intelectual foi capaz de barrar essa alienação?
Por isto, cabe avançar nesse processo de observação, especialmente para investigar a percepção quanto à mercadoria, o valor e o trabalho, no âmbito de universos mais específicos, por exemplo, junto e membros de movimentos sociais, partidários, sindicatos, etc. O objetivo é sondar essa noção junto a grupos que aparentemente teriam melhores condições de reconhecer, ao menos, o fetiche.
A questão mais importante permanece a mesma: como superar essa forma de alienação e o fetiche estando os indivíduos mergulhados no processo a ponto de serem eles mesmos portadores, porta-vozes e, de modo invertido, terem a noção de que tudo substancialmente deriva de sua vontade, como mediadores das próprias relações sociais.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O MUNDO É UM SÓ?

Meu tempo, meu sentido
A rotina, o desejo, a vida
A miséria, a miséria, a miséria
Como nasce, como morre
Riqueza, pobreza, angústia
A rosa caída, o homem caído
Capital, bolsa, investimento
De cada qual nada se veste
A vida solitária em mundos preenchidos
As gôndolas absolutas
Carros e abundância
Mais gordos, mais lentos
Mais técnicos
Botões para apertar
Telas que nos mostram o virtual
Nada permanece
Colonizado o corpo
A mente, o tempo
Do trabalho, o valor
O controle, o ajuste
Rentáveis do mundo se unem cada vez mais
Coloniza a vida, espírito do tempo
Capital, província, estado
Tudo tomado, longa noite para a humanidade somos todos iguais
Na noite, no dia, somos iguais
As armas de plantão apontam para a repressão
Qualquer voz está calada?
Não há ilusões
O tempo da queda está presente
O espírito do mundo agoniza pelo capital, em nome do capital
Dinheiro? Ora, para quê? A vida toda é valor
Uma montanha infinita do valor sobre o valor
O cume da cisão, lá de cima vemos o mundo subsumido
Aqui embaixo, formigas humanas se acotovelam
Resta a esperança? Resta o legado da vida que persiste
Agora o mundo é um só, nosso sonho se realizou
A vida é uma grande mercadoria
Basta isto para nos tornarmos mais imbecis