quinta-feira, 11 de julho de 2019

Entender a estratégia das Reformas

Por Atanásio Mykonios


Tudo começa com Michel Temer, ao conseguir aprovar a PEC 95, do teto dos gastos. Esta PEC 95 é a mãe de todas as reformas e da demolição do Estado. Dificilmente teremos condições de reverter esse processo em pouco tempo.

Primeiro: Aprovação da PEC 95
Condiciona os gastos do Estado por 20 anos. Educação, Saúde, Serviço Público e Seguridade Social. A população aumenta e os gastos ficam congelados, apenas serão reajustados pela inflação. Gradativamente, os gastos, custos e investimentos são presos à PEC 95.
Atendimentos são suspensos, em todas as atividades do Estado. E isso gera um efeito em cascata.
Mas, o gasto previdenciário também é contingenciado. Para pagar o que fica da Previdência, o Estado vai cortar, por meio de contingenciamento, na Saúde, na Educação e na Seguridade Social, ao máximo.

Segundo: Reforma Trabalhista
Ataque à organização dos trabalhadores e a precarização das condições de trabalho, o preço da força de trabalho é diminuído em tendência contínua. Desestruturação dos sindicatos, das organizações de trabalhadores e o desmonte dos direitos.

Terceiro: A Terceirização
Preparar o mercado para absorver trabalhadores em condições totalmente miseráveis, a informalidade passa a ser a forma da exploração dos trabalhadores em condição intermitente. Concatenada, a Terceirização, com a Reforma Trabalhista.

Quarto: Reforma da Previdência
A despesa com Previdência cresce. A princípio é necessário manter os gastos sociais, para isso, é preciso reduzir os gastos com Saúde e Educação. Mudar as regras para garantir o cumprimento dos gastos estabelecidos pela PEC 95.
Adequar a estrutura previdenciária à PEC 95 para que haja liberdade para transferir para a dívida pública o que for arrecadado, a receita ficará enxuta para ser transferida para o Sistema Financeiro. O enxugamento da Previdência tem como princípio, aumentar o tempo da exploração e com o aumento da informalidade,

Quinto: O Enxugamento do Estado
A receita do Estado cairá drasticamente e com isso, haverá a necessidade de destruir o que resta dos serviços do Estado: Educação, Saúde, Infraestrutura, Bancos Estatais, IBGE, etc. O estado manterá apenas setores do Judiciário e das Forças de Segurança.
A receita fica livre e por outro lado, a tendência pode ser a redução da receita para que o mercado aja sem qualquer controle.
O mercado irá abocanhar todos os serviços, mesmo que a sociedade mergulhará no espectro da miserabilidade absoluta. Exploração total, voltaremos aos inícios do capitalismo.
Os gastos sociais do Estado chegarão a menos de 15%, os países desenvolvidos e em desenvolvimento gastam de 15% a mais.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Os jovens e a sedução atual

Por Atanásio Mykonios


Cresci num período da história em que era importante se colocar contra o sistema. Era importante marcar posicionamento contra as ditaduras, contra toda as formas de controle social. Era muito importante cada um tomar partido, mas, sobretudo, era importante o caráter de rebeldia contra o mundo estabelecido a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. O comportamento evidenciava de que lado estávamos, as roupas, os maneirismos, toda forma de discurso portava a nossa rebeldia. A rebeldia contra os pais, os governos, os regimes totalitários. A rebeldia contra uma sociedade capitalista e a rebeldia contra os colonialismos mundo afora.
Talvez, por isso, criamos aquela imagem essencialista de que os jovens sempre estariam à margem esquerda da sociedade. Era de esperar que as multidões jovens estivessem alertas para toda forma de luta, na luta para superar os conservadorismos, para apontar as mazelas da caretice moral, dos continuísmos políticos e das artimanhas dos subornos, das falcatruas.
Delirávamos com os grandes compositores que, aparentemente, nos representavam. As canções de protesto, os poetas engajados, o cinema de contestação, a ludicidade das obras, o teatro engajado. Um mundo que parecia, aos nossos olhos, possível, estava ali, ao nosso alcance. Tudo dependia dessa força inebriante que nos tomava de assalto, prendia a respiração, mas, de algum modo, parecia que tínhamos a história em nossas mãos. Não sabíamos do futuro, mas sabíamos que ele seria melhor.
Construiríamos uma sociedade mais humana, mais solidária, menos iníqua. Tudo parecia possível, estava tudo ali para ser criado, não era só um sonho, cabia a nós transformar o que as gerações anteriores tinham nos deixado. Um mundo de guerras, devastação social, alijamento, exclusões etc.
Tudo em nós tinha o ar de renovação pela revolução. A revolução dos costumes, da política, do modo de produção. O novo se avizinhava. A ousadia nos acompanhava. Queríamos impressionar e deixar a marca na história.
Segui com essa história no meu lombo, e memória de momentos cruciais, a luta nas ruas, as reuniões, as ameaças, tantos amigos também ameaçados. Segui em frente, tracei meus caminhos, ao arrepio do que muitos esperavam de mim. Assim como tantos, também exigi de mim, mais do que eu poderia dar ao mundo.
Não parecia tão óbvio ser diferente disso tudo. Era inconcebível que um jovem não tivesse em suas entranhas a vontade de transformar o mundo, o desejo da rebeldia e da provocação. Mas qual o quê! Era apenas um desejo irreal. O movimento da sociedade nos trouxe até o presente atual, o presente vivo e ativo.
A sedução dos jovens, hoje, se dá pelo lado inverso. A sedução por uma sociedade que parece desejar a liberdade para empreender, com a vontade de realizar o capitalismo como expressão da vontade dos indivíduos lançados à sua própria sorte.
Talvez a minha geração não se deu conta de que as transformações sociais não tinham como perspectiva aquele mundo que ansiamos. Ao contrário, as forças sociais foram encurraladas e o mundo havia se tornado um imenso campo da produção e de consumo das mercadorias. Assim como um espectro, a fantasmagoria de um mundo que emerge com toda a força, o ódio ao humanismo, o escárnio à solidariedade, o desprezo aos intelectuais e à arte.
Os jovens são seduzidos para enriquecerem. Não ensinados para darem o que têm de melhor para si mesmos. Eu cresci num ambiente em que o propósito de cada um era reconhecer o que havia de melhor em si mesmo e oferece-lo ao mundo em primeiro lugar. Essa inversão faz toda a diferença na história. Agora, os jovens são determinados para realizarem a si mesmos num mundo que lhes oferece a luta, como se todos são inimigos SA.
Por isso, a política continua a seduzir os jovens. Os jovens fazem política, em favor de si mesmos e para si mesmos. A liberdade é o fim da política atual. Liberdade para que as pessoas encontrem a realização pessoal num mundo que lhes favorece a iniciativa e o empreendimento. Nada mais que isso! Por isso, os jovens têm votado em jovens com as mesmas características.
Jamais pensei que os jovens aderissem ao conservadorismo, ao patrulhamento moral, à religião como fuga da realidade, aliados ao que há de mais perverso no contexto devastador desse mundo em frangalhos. Há um longo caminho a ser percorrido por todos nós. Será muito difícil convencer os jovens de que um mundo de liberdade é possível, não como fim, mas como processo histórico para a construção da solidariedade.