domingo, 8 de maio de 2011

As gavetas do mundo real: os discursos fragmentados


Atanásio Mykonios

Eis aqui um problema de grande envergadura. Não se trata de uma percepção do mundo em sua totalidade. Estamos fragmentados em todas as direções. A produção humana parece se confundir com a própria especialização biológica. Nossas especificidades nos dão a amplitude de nossa fragmentação.
O que podemos dizer a respeito da sociedade? Dizer coisas dispersas sobre ela pode nos dar a certeza de que estamos com a verdade quanto à realidade social. Uma realidade pode ser, de um modo ou de outro, parcial aos nossos olhos. A realidade real, ou a realidade total pode ser esmagadora para cada um de nós, em nossa estupenda limitação, a consciência não seria capaz de abarcá-la por completo. Talvez esteja aí uma parcela de nossa isenção total, ou de uma espécie de ignorância a nos proteger dessa imensidão humilhante que nos oprime absolutamente.
Mas o conteúdo precípuo da Filosofia, em seu objeto, é a verdade. Pode não ser alguma coisa da qual nos é cara na atualidade, porém, Hegel nos mostra na Enciclopedia das Ciências Filosóficas, que “Em primeiro lugar, a Filosofia tem, de fato, seus objetos em comum com a religião. As duas têm a verdade por seu objeto...” (p. 39). Isto, na visão de Hegel, trata-se de uma fundamentação, digamos, absolutista no que tange à função da Filosofia. Sem dúvida, o trecho citado nos aponta para a necessidade da compreensão da totalidade.
É preciso enfrentar a dificuldade em lidar com a totalidade, destarte termos sido prevenidos por alguns pensadores, especialmente aqueles datados no século XIX. Hegel, Marx, Nietzsche, foram aquelas que nos alertaram para as formas de alienação que o Ocidente, em sua trajetória, teceu para a sua própria historia do pensamento e das formas sociais em que os indivíduos estavam enredados.
Muitos traçados foram feitos para identificar a natureza de nossa fragmentação. Os efeitos dessa pluralidade são interpretados por muitos. A diversidade cultural, o mundo das multiplicidades, o movimento intenso das informações, a velocidade tecnológica, o aparato científico em larga escala, a imagem que se transforma em conteúdo formal, a violência institucionalizada e, sobretudo, os fundamentalismos ideológicos e religiosos, são formas que nos marcam profundamente. Além disto, encontramos uma estupenda ereção da subjetividade, aspecto que nos impulsiona a compreender a representação do sujeito em sua suposta autonomia.
É possível que essas formas sejam tratadas de um modo evasivo, no refluxo das grandes tendências de análise. Também podemos estar nos enganando ou tentar encontrar uma resposta que caiba em todas as fechaduras, quiçá, uma chave que abra todas as portas do mundo real.
Foi assim com os grandes filósofos, que procuraram encontrar uma chave para o seu problema e foram tentados a acreditar que poderiam abrir todas as portas do céu, lendo os mistérios do inferno real que nos toma de assalto. Mas o Ocidente, por muitos séculos criou sistemas com o fito de enclausurar o real.  A potência do Eu e sua racionalidade culminou em episódios destrutivos para a humanidade como um todo. Os sistemas ganharam o estatuto de promover uma arquitetura social megalomaníaca.

Desde o Império Alexandrino, com sua característica unificadora, inspirando o Império Romano com suas hostes de poder e a condição nababesca de suas relações, passando pelo Medievo, que promoveu um sistema absoluto. Com a Modernidade, os sistemas ganharam uma aliada em potencial – a ciência. Mesmo assim, o Império da racionalidade instrumentalizou a realidade de modo que a ciência se tornara o braço dos novos sistemas, em busca da conversão do mundo à sua própria vontade.
Bastava, então, a culminância desse processo, historicamente realizado por meio de um sistema, talvez incidental, talvez determinista, que forçou a humanidade a se curvar peremptoriamente e de modo absoluto às suas determinações. Neste trajeto, o capitalismo galgou os estertores das formas sociais.
Tão relativo quanto objetivo, o capitalismo engavetou os discursos com todas as suas variáveis possíveis. É possível inferir um aspecto anterior, num esforço para compreender o fato do engavetamento dos discursos. Para que o capitalismo engendrasse uma estrutura compatível com tal engavetamento, parece crível afirmar que a Modernidade plantou algumas condições que dizem respeito à potencia do eu racional. Neste sentido, é possível observar que Descartes constrói um modelo matemático, espacial, capaz de criar as gavetas, que guardarão os discursos, autônomos da realidade das relações.  Ele nos diz então, no Discurso do método, a saber,

Depois, tendo notado que, para conhecê-las, teria algumas vezes necessidade de considerá-las cada qual em particular, e outras vezes somente de reter, ou de compreender, várias em conjunto, pensei que, para melhor considerá-las em particular, devia supô-las em linhas, porquanto não encontraria nada mais simples, nem que pudesse representar mais distintamente à minha imaginação e aos meus sentidos (...) cumpria que as designasse por alguns signos breves possíveis, e que, por esse meio, tomaria de empréstimos o melhor da Análise geométrica e da Álgebra (...) (Idem, Ibidem, p. 39-40)


E por que tudo isto? Para que seja dada à racionalidade a garantia de que terá êxito no seu empreendimento, um objetivo em busca de um objeto claro e distinto – existente, visto à frente do sujeito, de pé, claro, iluminado pela luz platônica. Utilizar a razão, mais do que qualquer outro artifício, até mesmo os mecanismos pré-conceituais, com a tentativa de chegar o mais possível às determinações do objeto, de modo claro, um método que parece ter elementos de fundamentação fenomenológica.
No entanto, a aproximar-se ao objeto não é o único intento dessa Modernidade, é mister observar que este objeto se encontra rigidamente estabelecido, em cujo invólucro guarda cada qual, em sua gaveta, discursos, pensamentos e comportamentos que não se cruzam. A vida é cindida desde então.

além disso, sentia, ao praticá-lo, que meu espírito se acostumava pouco a pouco a conceber mais nítida e distintamente seus objetos, e que, não o tendo submetido a qualquer matéria particular, prometia a mim mesmo aplicá-lo tão utilmente às dificuldades das outras ciências como o fizera com as da Álgebra. (Idem, p. 40)
           
A dificuldade parece se dissipar, na medida em que o sujeito pode, desde esse ponto, estabelecer a trajetória para abrir cada gaveta. O sujeito deve ter consciência de que é ele quem tem o poder de identificar cada gaveta com seu conteúdo precípuo.

E tendo notado que nada há no fato de que eu penso, logo existo, que me assegure de que digo a verdade, exceto que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir, julguei poder tomar por regra geral que as coisas que concebemos mui clara e mui distintamente são todas verdadeiras, havendo apenas alguma dificuldade em notar bem quais são as que concebemos. (Ibidem, p. 47)

O pensamento que se torna a viga mestra da concepção e domínio do mundo, é o existente para as particularidades. As gavetas são criadas para que, a cada existência social, a cada instância do mundo, com suas particularidades, sejam a segurança dos indivíduos. A mecanicidade do pensamento revela a sua capacidade de identificar as gavetas e abri-las conforme o contexto exigente.
Em outras palavras, os discursos, guardados conforme as gavetas numeradas pelo cálculo matemático, são movimentados pelo sujeito, que objetivamente encontra o que certamente procura. Isto quer dizer que a cada ambiente portamos discursos respectivamente às suas exigências e demandas.
Há uma finalidade neste sentido, que é a de conceber o mundo em fragmentos, necessitando, portanto, comportamentos e discursos diversos conforme o modo pelo qual somos instados. No trabalho assumimos um modo de ser; na escola outro; com os amigos, outra forma; no culto, no meio público, na liberdade do privado, enfim, as linguagens se tornam cada vez mais complexas e, ao fim e ao cabo, não há relação entre estas, uma vez que se tratam de elementos cristalizados.
A fisionomia do mundo, desta forma, torna-se difusa, mais radicalmente, confusa. As éticas podem se misturar, mas absorvem os meios nos quais os indivíduos transitam. Conforme o modelo subjetivado das gavetas, isto é, de suas realidades respectivas. O cálculo espacial que Descartes propõe pode  traduzir um modo de criar as gavetas que constituem nosso mundo atual. Ao imaginarmos espacialmente nossos ambientes e comunidades dos quais derivamos, somos capazes, por conseguinte, de compô-los em ordem espacial, determiná-los e guardar nelas o que nos é devido e cobrado.
Como consequência desse modelo, encaramos a grande dificuldade de utilizar a ética aristotélica para moldar o juízo dos tempos fragmentados. Os aspectos constitutivos dessa ética nos impõem. Vejamos então o que Aristóteles nos diz quanto a isto, no Livro V, da Ética a Nicômaco: “Entretanto, o homem injusto nem sempre escolhe o maior, mas também o menor (no caso das coisas que são más de modo absoluto ele escolhe a menor parte). Como o mal menor, em certo sentido, é [10]), considerado um bem, e a ganância se dirige para os bens, considera-se que esse homem é ganancioso. E também iníquo, uma vez que essa característica inclui tanto querer muito as coisas boas quanto querer pouco as coisas más, e é comum a ambas.” (p. 2)
Ora, podemos dizer que para o Estagirita, é plausível que um indivíduo qualquer fosse julgado pela sua conduta em todos os ambientes aos quais pertencesse. Na comunidade política e na vida privada, era necessária a coerência como aspecto fundamental de sua conduta. Isto se deve, também, pelo fato de que os indivíduos viviam e compartilhavam poucas comunidades, uma diversidade proporcionalmente menor que a da contemporaneidade. Afinal, como poderíamos demonstrar a ganância de um sujeito social, se este convive em diversas comunidades, se na família ele pode ser amável e honesto e no trabalho absolutamente ganancioso e desleal?

Por outro lado, a organização social contemporânea expõe o mundo a uma administração do tempo e das necessidades. Ao refletir acerca dessa natureza das relações humanas e sociais, deparamos com a não menos trivial produção de mercadorias. Como citei em outros textos, não se trata de considerar a produção material das mercadorias neste contexto, mas de uma imobilidade que expressa, finalmente, a fragmentação social.
A sociedade das mercadorias permite a polissemia por meio de uma vasta rede que tem como lógica, sua própria manutenção. Uma das consequências mais nefastas dessa condição atual é que os acordos individuais podem ser desfeitos a qualquer momento, contudo, as relações devem manter, como num acordo implícito, o mundo das mercadorias.
O ser do capitalismo parece permitir em seu interior que os indivíduos se digladiem por seus interesses, inclusive lançam mão de subterfúgios politicamente considerados hegemônicos, como por exemplo, as mobilizações sociais, as reivindicações democráticas, os aparatos burocráticos e administrativos. Porém, não há mais nada além dessa armadura intransponível.
Para que haja flexibilidade, a sociedade das mercadorias diz aos indivíduos que têm a liberdade de estabelecer seus laços no âmbito do que lhes é permitido sem que afrontem decisivamente a produção e reprodução social do capital.
E para referendar essa condição social, apresento a afirmação de Marx, em sua obra Contribuição à crítica da economia política, “O trabalho criador de valor de troca, caracteriza-se, finalmente, pelo fato das relações sociais entre as pessoas se apresentarem por assim dizer como que invertidas, como uma relação social entre as coisas (...) Se é pois verdade dizer que o valor de troca é uma relação entre as pessoas, é necessário acrescentar: uma relação que se esconde sobre a aparência das coisas” (p. 37).
Sendo assim, as coisas assumem o verdadeiro conteúdo das relações. Portanto, em cada lugar, em cada ambiente, necessita-se de um discurso que se compromete em obedecer ao mundo da mercadoria, desta forma, a única ética possível e a da mercadoria, como um guarda-chuva, assume a condução dos indivíduos. Para que haja esta obediência, as gavetas salvaguardam as condutas esperadas.
A invasão do privado é a ampliação dos momentos institucionais das gavetas. Mesmo que aparentemente não há uma ligação entre as diversas gavetas, elas se entrecomunicam por meio do cálculo instituído para que todas as gavetas sejam uma espécie de teia a sustentar o mundo invisível da produção de valor, escondendo as reais relações materiais.
Somos metafísicos, diria.

domingo, 1 de maio de 2011

A invisível forma-social. Ou para uma resposta acerca das dialéticas que não se tocam


Atanásio Mykonios

Resposta a amigo querido


Tentarei, mas não sei se terei competência para fazê-lo - elaborar uma resposta às considerações, mas será ampla.

A minha pesquisa no âmbito daquilo que denomino CRÍTICA DA NECESSIDADE, me levou a considerar que parece haver várias dialéticas que são submetidas e relacionadas, umas às outras, no interior do sistema produtor de mercadorias.

Neste sentido, tendo a assumir (confesso), minha veia hegeliana e marxiana. No Primeiro Capítulo de O Capital, a partir da segunda metade, Marx trata o valor na perspectiva dialética.

Na verdade, é o valor que se desdobra, efetivando sua condição. A substância do valor (e aqui a consideração é aristotélica), é o trabalho. A mercadoria, do ponto de vista material, é de fato a ponta final do processo, dialeticamente estabelecido pelo valor, como uma espécie de trajeto, cuja teleologia é a mercadoria.

Mas, aqui reside uma filigrana, às vezes de difícil compreensão, a saber, que a mercadoria não é necessiariamente o produto, mas a forma que estabelece uma relação. Por isso, Marx mesmo discute na ordem das formas (outro elemento aristotélico e hegeliano - interessante as ferramentas usadas por Marx). Uma forma social é algo imperceptível, ela se realiza cotidianamente, mas os indivíduos não compreendem a causa dessas relações, aqui ditas como formas sociais.

E mais, são formas que fogem ao controle efetivo dos indivíduos, eles não conseguem se desvencilhar dessa realidade, podem até compreendê-la, mas o esforço para superá-las prescinde um cabedal de compreensão acerca das causas desse mecanismo.

Então, a dialética do valor tem como fundamento o trabalho. Ao se desdobrar o valor, essa dialética "interna ao capitalismo" tem como perspectiva a forma-mercadoria. Não é exatamente a mercadoria apenas como a que satisfaz as necessidades. O trabalho que gera valor, do ponto de vista antropológico, haverá nele valor de uso, qualquer que seja (material, espiritual, simbólico, cultural, estético, etc.) Aqui observamos a concretude da atividade humana, como bem salientara Hanna Arendt acerca da totalidade dessa atividade no processo de formação humana.

Ora, a necessidade precípua, diz respeito ao modo como construímos nossa necessidade, carregada de história, cultura, trabalho. Ao longo da história das necessidades, havia como que uma relação mais realista neste sentido, como o trecho de Hegel, intitulado, O Artesão, que se encontra na Fenomenologia do Espírito, em que, ao produzir um objeto, este vincula-se à existência de quem o faz; há uma extensão do processo, e quando ele vê a coisa feita, sabe que ali há sua história, a tradição de sua família, de sua religião, do seu meio, dos materiais que vêm do seu lugar, sua região, os ensinamentos, etc.

Mas, com a mercadoria, as reais necessidades são maquiadas e, neste sentido, todas se tornam uma necessidade história. A mercaodia nos dá a impressão de que, a cada nova invenção científica, a cada nova mudança tecnológica, criamos a certeza de que sempre foi assim e mais, de que não há como abrir mão disto. É o mundo invertido, a sociedade das mercadorias nos impõe uma metafísica que forçosamente se torna real; enquanto que as reais necessidades são, a partir de então, consideradas metafisicas.

As necessidades assumem um caráter absolutamentge metafísico e por esta razão, assumem uma dialética social que se desprende da outra dialética, interna ao sistema.

E os mecanismos sociais para isto são interessantes e perversos. O trabalho se torna a viga mestra desse processo. A imperiosa ação em favor das mercadorias, nos dá a sensação de que somos premidos pelas possibilidades de realização do mundo social das mercadorias.

Aqui, me parece haver um problema. Porque as sociedades e grupamentos humanos, culturais, sempre tiveram desejos e necessidades. Aliás, sempre consumiram, o que é totalmente plausível, considerando a condição antropológica, biológica e social dos indivíduos e seus grupos. Evidentemente, a construção histórica do capitalismo foi, lentamente, elaborando a ideia do desejo de aquisição e de realização por meio das mercadorias. No início o valor absoluto estava no trabalho, em seguida, na pura mercadoria.

É o caso do marketing, da propaganda, do discurso da pureza das mercadorias, que servem para satisfazer necessidades fisiológicas e que são portadoras de uma função social – daí o trabalho ser, obrigatoriamente, no capitalismo, uma fonte de dignidade, pois o que fazemos com ele, é salvar o mundo e oferecer-lhe o melhor de nós para o melhor dos outros.

Esta é uma das contradições nesse processo. A mercadoria tem duas condições precípuas. Vamos a elas.

Para ser mercadoria, com sua condição de valor-de-troca, ela necessita ter, em sua origem, o valor-de-uso. Marx, ele mesmo, observou isto. Só é mercadoria porque carrega consigo o valor-de-uso, caso contrário, não poderia ser mercadoria e também porque, de um modo radical, creio que o capitalismo não teria a capacidade de se tornar hegemônico, tautológico e totalitário.

A imagem possível, se me permite, seria a seguinte: o núcleo é o valor-de-uso; a capa, ou a alma da mercadoria é o valor-de-troca. Aqui, reside mais uma das dialéticas desse mecanismo monstruoso. Pois o capitalismo, como sistema de gerenciamento da sociedade das mercadorias, vale-se dessa condição, e os indivíduos são obrigados a conviver com esta contradição. É quando somos mergulhados nesse processo e, com frequência, somos levados e obrigados a nos submeter a isto. Também pelo fato de que o Capitalismo nos diz que a relação das mercadorias se dá por meio do "desejo" ou da vontade "individual".

Daí penso, sinceramente, que há uma confusão nesta questão. Muitos, até mesmo da esquerda teórica, creem que isto se deve à perfídia dos indivíduos, que se trata de uma espécie de tara individualista, uma compulsão pelo consumo desenfreado, uma instabilidade psicológica, ou, um comportamento avarento, ou, como alguns dizem, um egoísmo apoteótico, prejudicando os pobres, porque não distribuímos.

Este equívoco se deve porque, nesse processo dialético, em que a relação social esconde a forma-valor e a forma-mercadoria, tende-se a culpabilizar os indivíduos, o que me parece uma perversidade. Fato que leva os próprios indivíduos a sustentarem psicológica e ideologicamente, uma culpa que os torna irresponsáveis ou simplesmente passivos.

sábado, 23 de abril de 2011

As dialéticas que não se tocam – Ou a tara social da obediência ao trabalho

Atanásio Mykonios

O mundo contemporâneo se divide em duas esferas sociais, aparentemente distintas e que não se tocam, do ponto de vista dos indivíduos. Quero me referir ao modo pelo qual as relações humanas estão cindidas e atuantes no âmbito de uma esquizofrenia total. O amor entre as pessoas, o seu sexo, as afetividades, traições, a moral, constituem um mundo à parte daquele que visa à produção.
Parece haver apenas um lugar no qual podemos dimensionar nossas emoções, e o mundo inteiro joga todas as suas fichas nessa esfera das emoções e dos talentos pessoais. Buscamos desenfreados sentimentos que nos deem sentido à vida.  o anonimato é cada vez mais uma clausura infernal, ser esquecido é a maldição absoluta, como que abandonados, vivemos exaustivamente na onda de uma espécie de salvação. Necessitamos sermos salvos do inferno atual.
A sociedade dirige seus holofotes e luzes para um tipo de comportamento humano, gasta bilhões em programas de entretenimento, com debates sobre os mais diversos campos da mente humana, a fim de desvendar os mistérios e as ações humanas. A ciência tenta garantir respostas a todos os males, a indústria científica ganhou as telas, para cada problema, uma solução adequada, os novos gurus sociais se apresentam de jaleco e com linguajar técnico.
Gastam-se milhões de quilômetros em papel para auscultar a alma humana, vaticinar acerca dos novos rumos e tendências da sociedade. Quase sempre temos um mundo vivido com uma metafísica estonteante, que traga os indivíduos com sua consciência, cujo pensamento dominante é de uma autonomia diante da própria vida. O mundo se tornou, como afirmou Guy Debord, um imenso espetáculo, determinado pelo esquecimento da outra esfera do mundo das relações – o mundo concreto da produção de mercadorias, que nos é esquecido, que nos é escondido pela fonte eterna da felicidade.
Cada vez mais, o mundo das emoções, do comportamento, da atitude individual assume o controle aparente sobre o mundo concreto e é neste mundo que o consumo assume importância capital. É na dimensão do consumo que o ser humano moderno parece liberar suas taras e sadismos, dos mais variados; é quando ele se sente, de alguma forma, dono de sua existência, como se não houvesse qualquer relação com a esfera do trabalho.
É bem verdade que o mundo do trabalho é o lugar mais obscuro das relações humanas na atualidade. É no ambiente do trabalho, cindido entre a mais valia relativa e absoluta e pela estrutura de controle e exploração do tempo excedente, que a luta se configura – a contradição, como elemento fulcral do conflito que obscurece a humanidade. Politicamente, o modo pelo qual se dão as relações implica uma compreensão mais apurada e detalhada dessas mesmas relações.
A verdadeira política ocorre no meio do processo produtivo, pois a produção de valor sobre valor exige uma estrutura de administração da produção que leva em conta o controle rígido dos seres humanos, a hierarquização das instâncias do processo e a vigilância permanente sobe os trabalhadores. Isto resulta, fatalmente, em conflitos de toda ordem no âmbito da produção, não importando se se trata de uma linha de produção industrial, semi-manufatureira, ou em um complexo comercial com lojas de departamento, quiçá num ambiente burocrático estatal ou privado.
O cotidiano dessas relações fica escondido na superfície das necessidades sociais, uma vez que a sociedade rapidamente, na história do capitalismo, aliou o trabalho como fonte de honra e dignidade à produção de mercadorias. Interessante é perceber que historicamente o controle sobre o corpo e a mente dos trabalhadores se converteu, paulatinamente, em virtude denominada de disciplina.

Obediência e tara social

Vale aprofundarmos ainda mais esse problema. A disciplina implica obediência. A obediência, na sociedade do trabalho, parece ser uma qualidade para o indivíduo, que passa pelo capitalismo e adquire alguns bens duráveis em virtude da sua capacidade absurda de obedecer à hierarquia e ao condicionamento psicossocial. A relação social imposta aqui está longe do controle dos próprios indivíduos, vítimas desse processo. A idolatria pela obediência ao mercado transforma os indivíduos em medíocres. A tara se aprofunda à medida que observamos em loco as relações entre indivíduos que se situam no interior do processo produtivo, que podemos chamá-lo de ambiente geral de trabalho. Nesse mundo, a ordem social se transfere para um senhor interno criado para submeter cada indivíduo ao trabalho.
A desgraça reside no fato de que em grande medida, o trabalho, minimamente, garante o sustento, sendo então aceitável, do ponto de vista social, a sodomia sobre o próprio trabalhador. Com isto, toda sorte de vilipêndios e torturas corporais e mentais são experimentados de modo natural, criando uma aparente legitimação que obriga a todos a se submeterem formalmente a esta tortura. Não se trata apenas e tão-somente de apontar a hierarquia e suas ordens diretas ou indiretas. A forma como se controla o trabalho penetra substancialmente por todos os poros do corpo humano, dando-lhe a incerteza de que está confiante em suas atividades. Constantemente o indivíduo se dá conta de que algo lhe ocorre, com a impressão de que um fantasma o fiscaliza constantemente. Todos os trabalhadores são, em princípio e de começo, suspeitos quanto à sua capacidade de cumprir com tarefas que são impostas pelo processo de trabalho e sua estrutura.
O objetivo das empresas é muito claro, a saber, o produto final. Nisto parece haver alguma dose de objetividade, para não dizer com todas as letras que se trata de um objetivo preciso, a mercadoria. E aqui não importa se estamos lidando com batatas fritas, carros, remédios, câncer a ser tratado, listas telefônicas ou até mesmo a educação e o saber, importa que entre o input e o output (segundo terminologia adotada por João Bernardo em Economia dos Conflitos Sociais) algo ocorre de muito perverso e extremamente cruel.
A vida de cada indivíduo, mergulhado na esquizofrenia da produção, é a vida de um complexo jogo de poder e de resistências, tanto quanto o poder exercido pelos controladores do processo produtivo. Este poder não é um poder qualquer, é muito mais eficaz que o poder de polícia e, ultimamente, não parece haver mais a necessidade de exercê-lo com a brutalidade; basta apenas que a chantagem e a coerção exerçam sobre a consciência de cada indivíduo um volume de controle sobre cada ação e tarefa a ponto de criar restrições e autocensuras contínuas sobre cada trabalhador. O clima permanente de suspeita gera um autocontrole sobre os próprios indivíduos e parte dos conflitos não se dá em campo aberto, ao contrário, são jogos velados e muito bem articulados entre os que têm o poder de decidir e mandar e controlar e os que devem executar formalmente o trabalho.
Nesse meandro, o que ocorre é justamente uma gama de subjetividades, levadas em conta quando se trata de decidir acerca do destino de cada indivíduo no ambiente da produção. Isto nos leva a uma condição de extrema precariedade e de falta absoluta de autonomia por parte de cada indivíduo, mesmo por parte daqueles que exercem o poder do controle e da punição sobre os demais, uma vez que estes são obrigados a obedecerem a uma lógica determinista de obediência ao processo da mercadoria em geral. É possível elencar uma infinidade de ocorrências estúpidas e desumanas das quais são vítimas os indivíduos no ambiente de trabalho, mas todos os fatos que por ventura poderiam ser relatados aqui, não são suficientes para aquilatar a tragédia do trabalho e a sua psicopatia.
Para cumprir com os desígnios desse processo, cujo objetivo é a formação da mercadoria, a subjetividade do comportamento no ínterim entre a entrada e a saída é evidente. toda sorte de descasos, poderes, imposições, etc. É nesse meio que parece não haver uma lei que distinga as relações, a não ser o propósito de forçar os indivíduos a um sistema de exploração que também leva em conta as vontades individuais de cada hierarca. As decisões sempre encontram respaldo nos interesses maiores, no todo, na unidade do processo que é, em última análise, a chegada do produto à sua finalidade, ou seja, em nome de uma norma e de uma teleologia, os indivíduos se aproveitam, também, para prorromperem em ações subjetivas.
No entanto, mesmo que entre a entrada e a saída não houvesse tal subjetividade, o modelo social cindido do processo da produção, leva, por conseguinte, a um esforço necessário para controlar o indivíduo que, indubitavelmente, cada um dos envolvidos se sente premido pela obediência, até com fins de sua suposta sobrevivência no interior do sistema. Assim, parece da natureza da contradição entre a mais valia relativa e a absoluta, a imperiosa condição de promover o controle, a vigilância e a punição, vez que não se trata de um trabalho submetido à decisão dos indivíduos e suas necessidades, ao contrário, são efetivamente obrigados a cumprirem com uma rotina de produção, com tarefas estranhas, cujo desdobramento é a alienação do processo. Por outro lado, mesmo que haja um único trabalhador no chão de fábrica capaz de controlar todo o processo produtivo e suas fases, ainda assim, haverá exploração e sadismo, por conta do controle imediatamente necessário a fim de garantir a qualidade da mercadoria.
Aí, nesse jogo de poder, no qual, de fato, não se trata de um jogo em que ambos os contendores estão em igualdades de condição a fim de obter vantagens por meio das regras do jogo. Trata-se de um jogo puramente desigual, mas ambos, hierarquia e trabalhadores individualizados ou, entre a mais valia relativa e a absoluta, obedecem a uma lógica, mas isto não quer dizer que há um veredicto final, sempre estamos aqui a tratar de um jogo aberto, mesmo que, de modo geral, continuemos a imaginar que os trabalhadores individualizados percam frontalmente nesse jogo de poder.
De uma forma ou de outra, tem-se como certa a finalidade última do processo, que é a mercadoria. Pode haver luta interna a fim de aumentar as condições de trabalho e para aumentar as diligências em favor de um melhor processamento do produto, no entanto, volta-se sempre à condição necessária, isto é, a produção final. Tem-se, então, um problema que deve ser considerado dialeticamente, porque se juntam elementos da necessidade precípua, maquiados pela necessidade da mercadoria.
Em outras palavras, a luta interna, estabelecida na esfera própria do processo produtivo, pode chegar a um consenso e tudo volta ao ponto inicial, como se o trem voltasse aos trilhos, como se nada tivesse ocorrido. A luta interna tem sentido à medida que se refere a resistências cujo teor é o de combater a exploração do trabalho, enfrentar o tempo das atividades, resistir a ordens e determinações, mas devemos sempre considerá-las circunstancialmente, posto que somente em alguns momentos essa esfera é questionada na sua possibilidade de existência – um questionamento radical.

domingo, 10 de abril de 2011

Armados

Atanásio Mykonios 

Não sabemos quem somos. Não sabemos por que somos. A trivialidade da vida e uma espécie de estrutura platônica que abduz os indivíduos. Se antes estávamos submetidos a uma força tribal, a uma condição na qual alguma ideia comunitária prevalecia sobre os indivíduos, a sociedade atual transferiu aos sujeitos uma dose incontrolável de força e potência. Agora temos o aparente poder de decidir sobre tudo, especialmente quando estamos insatisfeitos.
O poder do eu erigido pelos gregos antigos se transformou em uma máquina destruidora. Um eu que pensa estar no controle, subsume tudo e todos, estabelece a necessidade imperiosa do conhecimento, amplia suas fronteiras para além das capacidades da natureza, reduz o mundo a um laboratório prestes a explodir.
Em nosso subterrâneo social há outro universo, talvez um universo freudiano, marcado pelo nosso próprio desconhecido. Não sabemos o que nos espera, nossas reações, o modo pelo qual reagimos a determinadas situações, o desenvolvimento de nossas taras e receios. Não há controle sobre nossas vidas, a fragilidade de um sistema que se apresenta onipotente, encarrega-se de criar um vácuo contínuo entre os indivíduos e ele mesmo.
Ampliamos nossas fronteiras, mesmo havendo uma superprodução de alimentos e bens de consumo, estamos no limite de nossas forças. As formas históricas não nos dão as ferramentas para a vida atual.
Assim mesmo, há um torpor diário que sustenta os negócios, garante uma rotina calma, apreende um desespero otimista e nos lança para a esperança fundamentalista de que tudo será resolvido de uma forma ou outra. O futuro é apreendido como um passado melhorado, nada mais.
Hoje, podemos dizer, sem receio de errar, que nos transformamos numa sociedade de armas. As armas são a extensão de um mundo potencialmente angustiado pela incapacidade de se tornar humano.
Toda a sociedade está velada ou abertamente armada. Receio de que estejamos armados até os dentes. Estamos nos auto-exterminando, lentamente, dolorosamente, somos inimigos armados e parece termos feito nossa escolha.
Esta sociedade atribuiu a cada um de nós um poder de destruição absoluto. Mas, por outro lado, a submissão a uma forma de relação social nos coloca como zumbis sociais. Aqui, como em qualquer outro lugar, a existência é muito frágil, resta pouco para fazer.