sexta-feira, 4 de março de 2011

O Carnaval-Mercadoria (como se houvesse outra forma de expressão)


Atanásio Mykonios


O capitalismo tem a capacidade de transformar todas as relações em relações determinadas pela forma-mercadoria. Há vários aspectos nessa condição. Para que a forma-mercadoria se estabeleça, necessário se faz um conjunto de medidas formais de controle. O gatilho dessa forma social abrange cada vez mais a estrutura social, não pode haver nenhum espaço vazio, todas as lacunas devem ser preenchidas pela mercadoria.

Transformar tudo em mercadoria não é simplesmente colocar preço em todas as coisas. O preço é apenas a expressão visível e material desse processo. A mercadoria se forma anteriormente ao preço, como produto de uma relação em que o tempo de exploração quantifica a medição do valor e cria a necessidade de uma mediação formal.
O tempo é, dentre todos os elementos da modernidade capitalista, o mais precioso para que a mercadoria seja efetivada. O tempo social converte as relações em torno as quais um único eixo é determinado como fundamento – o valor de troca. A exploração do tempo reverte em excedente transformado em valor, produzido em quantidade que se torna a abstração formal de um sistema sem limites.
Um sistema sem limites porque não vê fronteiras para a expansão desse modo de exploração. Cabe aqui um parêntesis, uma vez que esse modelo social não pode ter freios. Assim, todas as formas de contenção de sua fúria de exploração e expansão nada mais são do que ilusão perene, uma vez que sua lógica é transformar 2 + 2 não em 4, mas em 5.
Nesse sentido, a aceleração do tempo se deve à precisão de ganhar o mercado em todas as esferas. A tecnologia nos dá cada vez mais a impressão de que o tempo diminui. Mas é apenas uma impressão. O tempo é o aspecto mais intrigante e emblemático da sociedade capitalista. A necessidade de produzir, transportar, trocar, comprar, vender em escala cada vez maior em tempos cada vez mais reduzidos é uma característica da produção, da aceleração e da expansão de valor.
Um exemplo interessante são as Escolas de Samba. O desfile das escolas sofreu profundas mudanças. Todas, do ponto de vista qualitativo, são expressão da necessidade de diminuir o tempo de exibição, marcado e controlado pela racionalidade técnica, exigência do tempo da competitividade no cenário da forma-mercadoria.
As Escolas de Samba ganharam corpo com o ingresso de grandes contingentes vindos da classe média, a partir do início da década de 1960. Mas, durante algumas décadas, os desfiles obedeciam, praticamente, às formas definidas pelas próprias escolas, sem grandes pressões no tempo dos seus desfiles.
À medida que as exigências de mercado se impõem sobre as exigências culturais da criação e da arte, o samba se transforma, o ritmo da bateria se torna alucinante, os desfiles são organizados milimetricamente, cada detalhe é medido, calculado, pensado, administrado como em um espetáculo industrial.
É o exemplo da Acadêmicos do Salgueiro, segundo Sérgio Cabral[1], que em final dos anos de 1950, instituiu oficialmente a figura do carnavalesco, que se tornou, ao longo do tempo a figura mais importante na organização dos desfiles das Escolas de Samba. Toda a concepção do enredo, das fantasias e da estrutura comercial de uma Escola de Samba passa pelo crivo “criativo” do carnavalesco. Hoje, quem ganha a disputa do desfile são os carnavalescos.
Neste sentido, a velocidade do ritmo dos desfiles indica a força com que a produção da troca de valor e o comércio penetram em todas as formas de expressão humana, para além das condições materiais. Como Marx mesmo aponta, até no âmbito simbólico isto ocorre.


Se observarmos os vídeos acima, perceberemos que nos desfiles de 1981 e 1983, os componentes do Salgueiro praticamente passeiam pela avenida quase sem controle. A bateria tem um ritmo cadenciado, o que parece favorecer uma evolução ritmada sem compromisso formal. Esta parece ser uma condição para que a Escola de Samba se enquadre nas características carnavalescas. Estamos no começo dos anos de 1980, neste momento o ritmo das baterias já havia sofrido profundas mudanças na aceleração.
Mas se pudermos observar a mudança que ocorre nos anos de 1990, poderemos constatar a terrível mudança na ordem do desfile. De fato, trata-se de uma ordem, estabelecida pelo controle do tempo. O cálculo, o detalhe, especialmente a abstração do tema abordado, criam uma atmosfera de aparência redundante, que nos leva a uma espécie de hipnotismo sensualista e estético.

A partir desse momento, o espetáculo é apenas a grandiosidade das cores, das formas e a tendência é, sobretudo, a uniformização, o padrão consumido em forma de mercadoria. Ou seja, o espetáculo todo é tornado mercadoria, exportado para todos os cantos, como elemento de troca. Não há mais qualquer necessidade de mostrar a expressão artística, faz-se imprescindível a transformação em espetáculo e deste em pura e absoluta mercadoria.
Quando chegamos aos anos de 2010, fica então evidente a industrialização do processo. O desfile é esquadrinhado, delimitado pelo tempo, os detalhes atingem a cronometragem das alas, a estrutura da evolução e o processo de produção em escala industrial. A mão-de-obra é especializa e a produção de valor de troca marca a premissa do processo.
Até mesmo a cidade do Rio de Janeiro tem de ganhar novos ares para abrigar o que um dia foi o dito “verdadeiro Carnaval”. Uma limpeza dos pobres, a assepsia para garantir que a cidade seja vendida com a imagem de Cidade Maravilhosa.
A apoteose da imagem em movimento revela-nos a idolatria de uma sociedade do tempo, do fim da contextualização, o fim da crítica, o fim das formas de pensamento autônomas. O deserto social é o deserto do mundo da mercadoria, que resplandece como plumas e paetês, mas em força de reflexão social.
Mais uma vez, a imagem se torna o eixo fundamental da sociedade produtora de mercadorias. Dentre outros elementos que concorrem para essa suposta tranquilidade está o fato de que a segurança passou a ser o mote do discurso social. Um dos primeiros ordenamentos jurídicos do capitalismo, que garante o chamado direito à propriedade é a segurança. Quando o Estado se empenha de modo drástico a fim de “garantir” a segurança da população contra a violência, o faz no sentido de promover, em primeiro lugar, a estrutura que dá vazão às relações da forma social da mercadoria.
Dar segurança é promover a paz para que os negócios funcionem com um grau de certeza razoável. Até mesmo as gangues e os criminosos não podem viver constantemente sob o tacão da violência, sob pena de perderem seus terrenos comerciais.
Apesar de que a metafísica social acredita que a folia e a alegria existem por si, em sim, como um fim em si mesmo. A cisão entre o real da exploração e a ludicidade de qualquer manifestação artística permanecem como estrutura da sociedade alienada. A alegria dos foliões parece estar desprendida da realidade real, do mundo das relações concretas.
Lamentavelmente, a lembrança dos antigos carnavais se torna um exercício de saudosismo e sofrimento. As contradições são vividas à flor da pele. Nada mais do que isto, essas reminiscências ficam marcadas por uma aura de moralismo e pela perda da suposta pureza dos tempos da serpentina sem compromisso, num tempo em que o sexo parecia imune às grandes tentações do Carnaval.
Dessa forma, o espetáculo é, não aleatoriamente, um modo de reificação das condições de reprodução fenomênica do capitalismo. A experiência do Carnaval e das Escolas de Samba nos mostra de modo radical o processo histórico de transformação da ação humana em lógica da mercadoria.
Ou seja, a lógica interna do capital é tornar tudo em mercadoria absoluta, no conjunto de relações cujo ordenamento institui a imagem como elemento das condições formais desse mundo, eliminando a dialética entre aparência e conteúdo. A imagem reina incólume na sociedade do espetáculo.
O capitalismo absoluto é esta forma social que atinge a totalidade das relações.


[1] CABRAL, Sérgio. As escolas de samba do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1996, pp. 179 e seg. .

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Não há lugar neste lugar para nós. A escola



Atanásio Mykonios

Temos perguntado insistentemente qual é o lugar da escola na atualidade. Temos tentado responder a um contexto ensurdecedor que assola a escola. Estamos no centro de um furacão. Prontos a enfrentar as salas de aula, com o olhar de camelos que conhecem o deserto da morte e da solidão, assim vamos para o cotidiano como se estivéssemos em campos de concentração. Sabemos o que esperar, não há ilusões, a realidade vivida é árida, repleta do mais do mesmo.
A crise da escola é a escola da crise. A educação está por um fio. Nunca houve tanta gente disposta a refletir sobre esta crise. Por todos os lados, os problemas se avolumam nem mesmo a burocracia é capaz de suportar a fragilidade das salas de aula. Saibam que não falo em nome de todos, apenas de um minúsculo grupo sem lugar neste lugar.
O que ensinar? O que aprender? Não sabemos o que fazer com a juventude, quiçá a adolescência. Lançadas nos braços do mercado, pouco podemos esperar, a não ser uma brutal concorrência pelas migalhas do mundo corporativo.
Por mais de um século, a sociedade se convenceu de que a educação formal, organizada, disciplinada, na forma de teorias científicas, daria aos seres humanos melhores condições de vida. Fomos enganados de que seria bom para todos, especialmente para os pobres, que fossem para a escola. Não sabemos responder a tantas perguntas.
Parece que acreditamos no poder que a educação exerce sobre os seres humanos. Uma herança, talvez socrática, talvez iluminista, talvez kantiana. Acreditamos santificados numa espécie de projeto de civilização, seríamos todos civilizados pelos livros e pela cultura aristocrática. Ainda cremos nisto. Um manto de pureza salvacionista toma conta dos educadores, impregnados pela missão que sempre é lançada ao futuro. Como garimpeiros, vivemos à cata de um único aluno que nos dê atenção e que possa chamar para si o interesse de um mundo já sem significado. Esta missão, acima do bem e do mal, acima do mercado, da política, dos interesses institucionais. O discurso da educação pela educação assume um caráter emergente no exato momento histórico em que a crise se aprofunda, cada vez mais podemos observar o fim em si mesmo, como o cão devorando o próprio rabo numa velocidade estonteante.
Em cada um de nós há como que uma aspiração à humanidade. Este termo é carregado de muitos significados, especialmente a humanização. Tínhamos a nítida noção de que a educação nos daria uma poderosa constituição moral mais elevada. Isso mesmo. Sempre pensamos que havia algo de nobre na educação, na aquisição de cultura, de bem-estar para a alma, seriamos, entre outras coisas, mais compreensivos, até fortemente empenhados na ordem do bem-comum. A educação seria o nosso cartão de visitas para a vida eterna. Chegamos a defender a ideia de que a paz e o fim dos preconceitos dependiam exclusivamente de mais educação, mais informação, mais teoria, mais ciência. Nosso futuro seria o resplendor do gênio humano.
Gostamos da ideia de que poderíamos fazer as pessoas pensarem, tornarem-se críticas, atentas, bem educadas, honestas e moralmente ilibadas. Pessoas que aprenderiam a votar, a decidirem seus destinos - como o velho Kant havia sonhado para a humanidade inteira. As esquerdas, ainda mais, foram tomadas pela atitude iluminista, bastava ensinar os pobres acerca das mazelas do capitalismo e tudo ruiria com a força do processo histórico.
Mas aconteceu o que ninguém imagina ser capaz de reconhecer. Os fatos e a história falam por si. A ciência, a boa educação, a técnica assassinaram centenas de milhões de seres humanos no século XX. Orgulhosos, ainda cremos na força da educação. Somos adequadamente adestrados para as tarefas de mercado e a aceleração das mudanças nas rotinas de trabalho não são alcançadas pela escola, nem mesmo pela universidade. O processo de aprendizado surge como uma alavanca social para os indivíduos para além dos bancos escolares. Todos são obrigados a aprender nos ambientes do trabalho. O discurso e o comportamento humano não são mais ensinados na escola.
A fragmentação social, a cisão dos tempos humanos, a caracterização do modo pelo qual organizamos a vida fugiu ao controle das próprias instituições. Passamos quase dois séculos organizando os sujeitos sociais para a vida do trabalho, para a obediência, para o controle social. Nós, que estamos na periferia do capitalismo e que temos uma profunda convicção de auto-afirmação, fazemos da educação um discurso comum, politicamente correto em todos os ambientes. Da direita à esquerda, em público, defendemos a educação. Mas o mercado não é cego nem surdo, a escola se tornou surda e cega e não percebeu as imensas transformações desse processo. A tão sonhada profissão está indo ralo abaixo.
Essa idolatria a um suposto bem oferecido pela educação não combina com o fato de que parece não haver o que defender, a não ser por meio de nosso cinismo, em favor do que parece ser cada vez mais a lei do mercado. Na escola, nos fundamentos, no ensino superior ou na formação média, o que temos de reconhecer é que o mercado é quem dá as cartas. É ele quem determina a nossa educação. E o mercado não prescinde tanto dessa força de trabalho que emerge da escola.
Enganados ou não, continuamos e somos submetidos. Como bons treinadores de recrutas, mantemos as massas nas salas de aula e de alguma forma, calando ou não, damos a todos a incerteza de um futuro.
Tentamos responder. Por que o mercado não absorve a todos? Por que só alguns conseguem? Por que há uma mentira ideológica de que haverá trabalho para todos? Passamos o tempo nos preparando para trabalhar. A forma escolar está presente na consciência e no corpo de cada um de nós.
E mais. O que ocorre com essa sociedade? Nós seriamos levados ao Nirvana intelectual, encontraríamos o prazer, a sensualidade nos livros, nos filmes, na poesia, na ciência. Mas eis que a sociedade do conhecimento nos levou à mais pura imbecilidade. O que importa é consumir e adquirir, fazendo de nós presas da idiotice absoluta. Nossa honra foi perdida!
Na verdade, as massas tinham de ser civilizadas e preparadas para o trabalho, para a disciplina, para a ordem e a obediência. Os mais abastados também se prepararam nas escolas. Mas agora, o que resta?
Nas escolas o inferno silencioso que arde na consciência diária. O fracasso de todos está nos rostos desnudos pelo sofrimento de uma atividade sem sentido. Burn out. A sociedade das mercadorias não parece prescindir dos conhecimentos que se insiste em transmitir. Isto dói ainda mais, fere a dignidade. Entre um mundo de barbárie e os gabinetes das academias determinadas para as elites do mundo inteiro, há um grupo de pessoas que não encontra um lugar neste lugar.
Nós estamos sem representação formal nesta escola em crise. Não há espaço para nós, na sala dos professores, nas reuniões pedagógicas, nos encontros informais, nos intervalos, nas atribuições, entre os próprios alunos. Não há lugar neste não-lugar. Por quê?
Ora, ora!
Porque não acreditamos no mercado. Nem na formação sistematizada oferecida para atender as demandas do mercado. Não acreditamos que esta escola e esta educação poderão dar aos nossos alunos alguma dignidade. Porque sabemos que o capitalismo está em crise e, por fim, tragicamente, não temos nenhuma alternativa viável. Não sabemos ainda o que colocar no seu lugar.
Para que haja uma alternativa, temos de nos colocar frontalmente contra o mercado, o acúmulo de capital, contra este absurdo chamado capitalismo. Teríamos de encontrar novas formas de saber, novos conhecimentos, questionar a ciência, a teoria, a sua prática e a novas fontes de produzir, para criarmos novas relações sociais. Criar novos ambientes, reestruturar as relações, mostrar que a vida está para além do capital e que temos condições de arrancar dessas riquezas acumuladas e processadas a nossa felicidade.
Mas não temos feito isto. Nas salas de aula, não temos oferecido nenhuma alternativa. Porque teremos de nos comprometer em convencer os pobres, especialmente, de que o capitalismo terá de ser superado e que este sistema não poderá nos fazer mais humanos.
Estamos na escola e não sabemos o que fazer. Não temos lugar neste lugar. E não há mais como acreditar num discurso salvacionista, otimista, cordial, esperançoso. Os nossos críticos irão nos demonizar até a morte.
Não há lugar seguro para nós. Não temos muito a oferecer, apesar de sermos educadores. Afinal, qual é a parte da educação na qual deixamos de acreditar? Na desejosa experiência construtivista? Na ideia comovente de que a educação faz seres humanos emancipados? Ou aquela velha cantilena de que é preciso preparo e qualidade para o mercado?
Afinal, chegamos ao final. Que lugar é este? Que escola é esta?

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

E-mail do Blog

A todos e todas, meu abraço e a minha solidariedade.
Informo para aqueles que desejarem, podem enviar mensagens pelo e-mail mykonios.crtica@blogger.com
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Abraço do Atanásio

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Debate entreTariq Ramadan & Slavoj Zizek

Assistam a um debate promovido pela TV Aljazeera, no dia 3 de fevereiro, sobre a questão egípcia na minha Página FILÓSOFOS E FILÓSOFAS, PENSADORES E PENSADORAS.

Tariq Ramadan, professor de Oxford e Slavoj Zizek, filósofo europeu, contempoâneo deste período histórico.