domingo, 6 de outubro de 2019

Patrimônio?

Por Atanásio Mykonios


Só para vermos o que ocorre.
Diamantina é Patrimônio Cultural da Humanidade. Tem um centro histórico que deve ser preservado. As propriedades desse centro estão nas mãos de uma elite branca, herdeira do poder escravista. O centro é rodeado de bairros, em cuja maioria reside a população negra, que representa a maioria dos habitantes de Diamantina.
Os pobres trabalhadores frequentam o centro para trabalhar ou para circular. São balconistas, garçons, caixas de banco e mercearias, recepcionistas nos hotéis e pousadas, lavadeiras, faxineiras, entregadores, vendedores, serventes, pedreiros etc.
A relação e o vínculo não são históricos nem de pertencimento. Apenas é uma relação de venda e compra de tempo de trabalho. Em outras palavras, a relação é de subsistência e comercial. Todo mundo se vale do turismo para ganhar dinheiro.
Os turistas chegam em levas à cidade, especialmente nos fins de semana. Basta ver a cor e o aspecto estético para identificar quem são e de onde vêm. A maioria é de classe média alta ou de aposentados. Ocupam o centro, aos sábados percorrem as ruas e de noite a eles é reservado um espaço no centro, cercado por cordas, com mesas e a boa comida mineira, para ouvirem música. Os pobres circulam em volta, ou servem aos turistas.
A presença da Universidade não alterou esse cenário. O mundo real, com seu movimento, continua a explorar os negros como antes da chegada da Universidade. Os pobres e os negros, quando conseguem ingressar no mundo acadêmico, ingressam, na grande maioria, nos cursos noturnos, nas licenciaturas e humanas.
São discriminados, humilhados e têm os piores desempenhos. Nós, de dentro da universidade, não conseguimos mudar isso.
O compromisso com o "Patrimônio" é da ordem do interesse comercial. Apenas isto. Essa população que circunda o centro histórico não tem nenhuma identificação nem pode ter. É cinismo querer esse compromisso. É desprezar a herança escravista que ainda impõe a dominação econômica, política e social.
As relações de poder estão presentes em todos os ambientes, 80% dos vereadores são negros, mas nada muda. O centro é repleto de igrejas católicas tombadas. Ao redor só há igrejas evangélicas e alguns terreiros.
A Igreja no Distrito da Sopa foi destruída pelo fogo. E daí?

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Saber vender. Saber comprar.


Por Atanásio Mykonios


Pouca gente sabe que o partido de extrema-esquerda que havia chegado ao poder na Grécia, o Syriza, que decepcionou os eleitores e a sociedade de um modo geral, ofereceu concessões de utilização de empresas asiáticas de 105 anos a rodovias, pedágios, aeroportos e portos. Não sei o que pode ser mais deletério, concessões ou privatizações. Alguém pode aqui me questionar, afinal, seria eu um estatizante, um capitalista de estado em formato bruto? Ocorre que no mundo dos negócios, o segredo está em saber comprar ao melhor preço, sejam mercadorias o tempo da força de trabalho. Geralmente, quando se compram serviços estatais, sempre é pelo menor preço, seguindo a lógica dos comerciantes, mas isso parece não se reverter em benefício para os usuários. 

         
Geralmente, os serviços comprados ao Estado passam a ser mais caros, mais onerosos, mais dispendiosos e não cumprem com o seu prometido. Muito menos os impostos arrecadados para manter aqueles serviços vendidos são descontados dos trabalhadores. Do ponto de vista capitalista, vender barato é um trunfo de quem compra, mas aquele que vende, deveria saber que o faz em nome de uma população e não em nome do Estado. Então, até mesmo no âmbito capitalista, nós deveríamos exigir melhores condições na venda dos serviços estatais. Mas como nem isso conseguimos fazer, votamos nas pessoas que chegam ao Estado para vender ao menor preço – estranho isso!

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Da venda ao gerente

Por Atanásio Mykonios


          A ONU não é nem nunca foi exemplo a ser seguido. Não tem poder real. Suas assembleias sobre temas globais nunca avançam. Quando se trata de clima, os avanços são pífios. Quando o problema é conflito entre países, a guerra fala mais alto. Na economia, a ONU é a expressão da impotência frente às corporações e o sistema financeiro. Os documentos emitidos pela ONU sobre fome, educação, saúde etc., têm relevância secundária. Os discursos de líderes e presidentes têm um caráter de verniz meio aristocrático. As pessoas, no seu cotidiano, pouco ficam atentas à ONU. A repercussão de um discurso da ordem de um Bolsonaro tem a dimensão de sua estatura cognitiva. Se o mundo associa seu discurso aos brasileiros em geral, isto é difícil de mensurar, se o discurso tem a função de apresentar o Brasil, como um projeto político e econômico, talvez o mundo leve a sério esse intento. Se o discurso de Bolsonaro representa o Brasil e o mundo assim considera, talvez a visão leve em conta que somos atrasados, mas isso pode afetar os negócios? Não sei. O mundo faz negócios com a Arábia Saudita que tem uma família real assassina e não reclama disso. O mundo faz negócios com países cujos governos são facínoras e nada muda. O mundo também realiza muitos negócios com Israel, mesmo sabendo que se trata de um governo genocida. Daí eu não ficar tão mobilizado com o discurso de alguém que logo após a posse, em Davos, fez a mesma coisa, apresentou um país a ser vendido. Na ONU, o que mudou, no meu entendimento, foi que Bolsonaro não vendeu nada, disse o que vai fazer para vender do jeito que o governo quiser.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

As lutas

        Por Atanásio Mykonios
 
 
             No capitalismo vivemos lutas constantes. A primeira luta é a econômica, sob a qual nós temos de enfrentar o poder e encontrar a melhor adequação à exploração, diminuí-la no que for possível ou fugir a ela saindo do capitalismo. Nesta luta, nós, ao menos no Brasil, estamos perdendo feio, nós os trabalhadores. Em seguida, perdemos feio a luta política, não tivemos condições para nos defender até mesmo dentro do sistema, agora tentamos encontrar forças para organizar estratégias sociais e políticas para retomarmos algum papel nesse processo. Por fim, parece ter restado a luta legal ou jurídica. Nesta, estamos sendo de fato perseguidos e agora com muito medo. A última luta que é a das leis leva a sociedade ao fascismo, como um mecanismo de destruição civilizadora. É nesta última fronteira das lutas – a jurídica – que se trava o fim de um processo, pois neste, vivemos patinando e passivamente tentamos encontrar alguma forma de reorganização. Cassados, vigiados, processados, ameaçados de demissões e prisões, a luta jurídica é o termo final dessa luta de classes. No entanto, ao perder a luta econômica e a política, nós não temos a quem recorrer.