domingo, 13 de setembro de 2020

A ignorância das relações de exploração e produção

 Por Atanásio Mykonios 


O que mais me incomoda e faz sofrer, no interior das lutas, principalmente na universidade, é que as pessoas que querem fazer política, as poucas que ainda se interessam e se inquietam, não conseguem levar em conta o fator da economia. Isto é, não conseguem entender que a base de toda luta política contra a destruição e a desigualdade começa por entender as relações de poder econômico, as relações de exploração e produção. Quem sustenta a universidade? De onde vem o dinheiro, concretamente falando, quem sustenta materialmente os nossos salários e as nossas ações? Vem dos trabalhadores mais pobres. Como isso não faz parte do entendimento e do horizonte da maioria que trabalha na universidade, há uma abissal indiferença, o que gera um olhar ilusório quanto ao objeto de luta. Então, tentam fazer política sem conhecer a substância dessa realidade. Isso dói profundamente, porque a esquerda e a direita se igualam nesse campo de atuação, são duas esferas completamente alienadas, cujo padrão é sempre moralizar tudo. Enquanto isso, não conhecem aqueles que produzem a riqueza que nos sustenta, ou não querem conhecer, o que parece mais adequado. Nisso, os servidores públicos são tão vítimas do fetiche quanto os religiosos.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Marx contra o Estado

Por Atanásio Mykonios





Para saber o que Marx pensava acerca do Estado, depois do Manifesto Comunista, com ideia em fazê-lo ruir assim como as classes sociais. Ou seja, muito tempo depois, ao escrever sobre a Comuna de Paris, Marx advoga o fim do Estado, e o coloca de modo negativo.

“O 4 de setembro foi apenas a reivindicação da República contra o grotesco aventureiro que a havia assassinado. A verdadeira antítese do próprio Império – isto é, do poder estatal, do Executivo centralizado do qual o Segundo Império fora somente a fórmula exaustiva – foi a Comuna. Esse poder estatal é, na verdade, uma criação da classe média, primeiramente [como] um meio para eliminar o feudalismo, depois [como] um meio para esmagar as aspirações emancipatórias dos produtores, da classe trabalhadora. Todas as reações e todas as revoluções serviram tão somente para transferir esse poder organizado – essa força organizada da escravização do trabalho – de uma mão para outra, de uma fração das classes dominantes para outra. Ele serviu às classes dominantes como um meio de subjugação e corrupção. Ganhou novas forças a cada nova mudança. Serviu como instrumento para suprimir toda sublevação popular e esmagar as classes trabalhadoras depois de estas terem sido combatidas e usadas para assegurar a transferência do poder estatal de uma parte de seus opressores para outra. Foi, portanto, uma revolução não contra essa ou aquela forma de poder estatal, seja ela legítima, constitucional, republicana ou imperial. Foi uma revolução contra o Estado mesmo, este aborto sobrenatural da sociedade, uma reassunção, pelo povo e para o povo, de sua própria vida social. Não foi uma revolução feita para transferi-lo de uma fração das classes dominantes para outra, mas para destruir essa horrenda maquinaria da dominação de classe ela mesma. Não foi uma dessas lutas insignificantes entre as formas executiva e parlamentar da dominação de classe, mas uma revolta contra ambas essas formas, integrando uma à outra, e da qual a forma parlamentar era apenas um apêndice defeituoso do Executivo.”

Karl Marx, Guerra Civil na França, p. 127, Boitempo, 2011.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Quando o trabalhador é contra o trabalhador

Por Atanásio Mykonios

       

            Quando o policial descobrir a sua condição histórica de trabalhador explorado, talvez aí, não nasça alguma consciência de classe, talvez descubra a quem serve e por que o serve. O tempo histórico não é garantia de consciência histórica, apenas é o tempo do movimento real das relações sociais, todas. O policial é um trabalhador que assim como tantos, parece não ter noção de que é trabalhador. Por outro lado, não é só aqui, no mundo inteiro, o capital e os Estados têm fortalecido as polícias, têm armado até os dentes as polícias, com o que há de mais moderno em termos de reprimir e matar. Aqui como em muitos países, as polícias foram tornadas intocáveis. Isso torna a possibilidade de que um policial tenha clareza histórica de que é um trabalhador explorado, é cada vez mais difícil e distante. Quanto maior o poder de intervenção dado à polícia, por parte do capital e do Estado, mais poder as polícias adquirem e mais autonomia e distantes da sociedade se colocam. Elas se tornaram um cancro histórico da sociedade. As polícias começaram a cobrar seu quinhão nesse latifúndio social. Querem não apenas a garantia para reprimir, não apenas continuar a garantir a produção do capital e a exploração, executando com precisão suas funções. Querem poder, querem um pedaço do poder. Seria ingênuo acreditar nas funções constitucionais das polícias. O Estado é posto para garantir as relações de desigualdade por meio do contrato desigual entre classes. Por isso, a polícia sempre estará do lado de quem sempre esteve. Como os trabalhadores da polícia poderiam compreender a sua condição de explorados se fazem parte da proteção ao capital?